Por que a IA pode levar governos a pagar renda básica à população, segundo este especialista
A rápida adoção da inteligência artificial nas empresas começa a produzir um efeito menos visível que o ganho de produtividade: a redução de novas vagas.
Para André Cia, especialista e usuário assíduo de IA, esse movimento tende a aprofundar desigualdades e pode forçar governos a adotar mecanismos de redistribuição de renda, incluindo pagamentos diretos à população.
“Vão ter pessoas que não vão conseguir emprego. E não é no sentido de desemprego em massa, mas de menos vagas sendo criadas", avalia.
Na prática, essa mudança já começou. Cia relata que, em sua própria operação de copywriter, uma equipe enxuta passou a dar conta de um volume de trabalho que antes exigiria três vezes mais pessoas. “Ao invés de trazer mais seis ou sete copywriters, a gente só não abriu vagas”, revela.
Mas esse é um movimento que ocorre em todo o mercado. Se uma tarefa que levava um dia passa a ser feita em 30 minutos com IA, empresas tendem a distribuir essa capacidade entre funcionários atuais. O resultado é ganho de eficiência, claro, mas também de menos espaço para novos entrantes.
A tese da renda básica volta ao centro
Esse cenário ajuda a explicar por que a ideia de renda básica universal voltou ao centro do debate global. Defendida por nomes como Sam Altman, Elon Musk e Geoffrey Hinton, a proposta parte do diagnóstico de que a IA deve gerar riqueza em escala inédita, mas distribuí-la de forma desigual.
Altman, por exemplo, sugere taxar empresas e ativos para financiar dividendos pagos à população. Musk fala em uma “renda alta universal”, viabilizada por um cenário de abundância produtiva. Hinton, por sua vez, já recomendou diretamente a governos que considerem o modelo como forma de conter o aumento da desigualdade.
Para Sam Altman, a IA vai gerar riqueza, mas não para todos (Paul Morris/Getty Images)
Cia não crava quando (ou se) esse tipo de política será implementado, mas vê a discussão como inevitável. “Eu não sei quando isso vai acontecer, mas vão ter pessoas que vão precisar de ajuda, sim", diz. No Brasil, o problema pode ser ainda mais sensível. Para Cia, a combinação entre baixa qualidade educacional e acesso desigual à tecnologia tende a deixar parte da população para trás.
“O conhecimento não chega para todo mundo. Muita gente não tem computador em casa”, afirma. “Essas pessoas vão enfrentar um grave problema.”
A consequência principal para Cia é uma divisão mais profunda entre trabalhadores capazes de usar IA para amplificar produtividade daqueles que não conseguem acompanhar a transição.
Nem consenso, nem solução simples
A renda básica, no entanto, está longe de ser consenso. O economista Daron Acemoglu, Nobel de 2024, argumenta que o modelo é fiscalmente insustentável e não resolve o problema central da desigualdade, que está na concentração de poder econômico.
Para Acemoglu, políticas como requalificação profissional, saúde universal e incentivos ao trabalho seriam mais eficazes. Mesmo defensores da renda básica reconhecem limitações: o próprio Hinton ressalta que o pagamento não substitui o papel social e psicológico do emprego.
Independente da solução, há um ponto de convergência: o mercado de trabalho está mudando. Para Cia, a principal adaptação exigida dos profissionais é deixar de ser executor e assumir um papel mais próximo de gestão.
Na prática, isso significa dominar ferramentas, formular bons comandos e interpretar respostas de ferramentas de IA. Cia defende que são essas as habilidades que passarão a definir valor de um profissional no mercado.
O risco, segundo ele, não é a tecnologia em si, mas a velocidade da transição. “Vai haver uma bagunça”, afirma. “A automação está avançando mais rápido do que as respostas.”
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