Por que a Índia está no meio do fogo cruzado econômico entre EUA e Irã
Com o 4º maior PIB e a maior população do mundo, a Índia tem um pé em cada lado de uma das disputas geopolíticas mais delicadas do momento. O país é parceiro comercial tanto dos Estados Unidos quanto do Irã, duas potências militares que entraram em confronto direto em 2026.
Enquanto negocia um acordo comercial histórico com Washington, Nova Delhi mantém relações econômicas com Teerã, colocando-se em uma disputa geopolítica complexa.
O comércio entre os dois países asiáticos atingiu o valor de US$ 2,31 bilhões em 2024, de acordo com o Observatório de Complexidade Econômica (OEC).
A Índia é o quarto país para o qual o Irã mais exporta produtos, atrás da China, Turquia e Paquistão. O valor dessas exportações é de US$ 1,06 bilhões, com o predomínio de produtos químicos (US$ 525 milhões), de nozes (US$ 156 milhões), de frutas (US$ 153 milhões) e de coque de petróleo (US$ 79 milhões).
Na contramão, as importações de produtos indianos têm o valor de US$ 1,25 bilhões e a pauta tem o predomínio de produtos vegetais como arroz (US$ 698 milhões), farelo de soja (US$ 149 milhões) bananas (US$ 60,9 milhões) e chá (US$ 40 milhões).
Para o Irã, essa parceria corresponde a 7,96% das suas exportações e 5,54% das importações.
No caso indiano, a participação das trocas comerciais é bem menor: 0,27% das exportações e 0,15% das importações.
EUA e Índia têm comércio de US$ 124 bilhões
Para a Índia, a relação comercial com os EUA é fortemente superavitária e vale, ao todo, US$ 124 bilhões, com US$ 85,3 bilhões em exportações e US$ 39,1 bilhões em importações.
A pauta de exportação indiana é diversificada, com destaque para os setores de eletrônicos (US$ 10,9 bilhões), de medicamentos (US$ 10,6 bilhões), de diamantes e joias (US$ 9,4 bilhões) e de petróleo refinado (US$ 3,9 bilhões).
Em importações, o predomínio é do setor petrolífero (US$ 12 bilhões), de ouro e diamantes (US$ 2,44 bilhões), de turbinas (US$ 2,41 bilhões) e de nozes (US$ 1,1 bilhões).
A parceria corresponde a 18,5% das exportações indianas e faz dos EUA o maior comprador de produtos do país asiático. Esse relacionamento, no entanto, foi ameaçado pelas políticas tarifárias norte-americanas recentemente.
Trump e as tarifas na Índia
A posição da Índia se tornou particularmente delicada após o presidente Donald Trump anunciar, em janeiro de 2026, que qualquer país que faça negócios com o Irã enfrentará uma tarifa de 25% sobre o comércio com os EUA.
A ameaça tarifária colocou Nova Delhi em uma encruzilhada: de um lado, o Irã representava US$ 1,34 bilhão em comércio bilateral nos primeiros dez meses de 2025, segundo o Ministério do Comércio da Índia; de outro, os Estados Unidos são o maior parceiro comercial do país.
Para evitar as tarifas punitivas americanas, a Índia precisou fazer uma escolha estratégica. Em telefonema com o presidente Trump, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi comprometeu-se a interromper as compras de petróleo russo, outro ponto que o republicano já havia levantado anteriormente como passível de ser punido com tarifas.
Essa concessão abriu caminho para a redução das tarifas americanas sobre produtos indianos.
Acordo comercial EUA-Índia
Em fevereiro de 2026, a Casa Branca anunciou um acordo comercial histórico entre Estados Unidos e Índia que prometia abrir o mercado indiano de mais de 1,4 bilhão de pessoas aos produtos americanos.
Segundo comunicado oficial da Casa Branca, o presidente Trump concordou em remover a tarifa adicional de 25% sobre importações da Índia "em reconhecimento ao compromisso da Índia de parar de comprar petróleo da Federação Russa". Com isso, os EUA reduziram a tarifa recíproca sobre a Índia de 50% para 18%.
O Acordo Comercial Bilateral estabeleceu que a Índia eliminaria ou reduziria tarifas sobre todos os bens industriais americanos e uma ampla gama de produtos alimentícios e agrícolas dos EUA, incluindo grãos secos de destilaria (DDGs), sorgo vermelho, nozes, frutas frescas e processadas, óleo de soja, vinhos e destilados. A Índia também se comprometeu a comprar mais de US$ 500 bilhões em energia, tecnologia da informação e comunicação, carvão e outros produtos americanos.
Contudo, a implementação do acordo enfrentou obstáculos legais significativos.
A Suprema Corte dos EUA declarou ilegais as tarifas de emergência de Trump, enfraquecendo sua autoridade legal para impor tarifas globais abrangentes. A decisão também invalidou acordos comerciais que Washington havia negociado recentemente, lançando incerteza sobre o futuro do acordo com a Índia.
O governo indiano respondeu adiando planos de enviar uma delegação comercial a Washington. Anteriormente, ambos os países haviam planejado assinar um acordo legal em março de 2026.
Além das turbulências no comércio, o próprio posicionamento geopolítico da Índia tem se tornado mais ambíguo recentemente.
O posicionamento geopolítico indiano no Oriente Médio
A aproximação comercial da Índia com os Estados Unidos veio acompanhada de um realinhamento geopolítico que coloca em xeque décadas de diplomacia indiana no Oriente Médio.
Modi estava em Israel apenas dois dias antes de Estados Unidos e Israel atacarem o Irã em fevereiro de 2026. A visita marcou um ponto de inflexão na política externa indiana para a região.
Em 2017, Modi se tornou o primeiro primeiro-ministro indiano a visitar Israel, um passeio na praia que, à época, parecia apenas simbólico. Quase uma década depois, o que começou como gesto diplomático resultou no abandono da histórica posição pró-Palestina da Índia e no esfriamento das relações com Teerã.
Outro fator também influenciou a possível mudança de eixo da Índia. O país corteja investimentos de muitos países do Golfo, como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Catar, de acordo com a Bloomberg. Além disso, há cerca de 9 milhões de indianos trabalhando na região, poucos com contratos de longo prazo ou residência permanente.
Os profundos vínculos do país com fornecimentos de energia do Golfo, corredores comerciais, fluxos de remessas e rotas de aviação o deixam excepcionalmente exposto a conflitos na região.
A exposição indiana à região é profunda: os países do Golfo respondem por 15% das exportações do país, cerca de 9 milhões de indianos trabalham na região e os corredores comerciais do Golfo são passagem obrigatória para mercadorias indianas com destino à Europa e à África.
Preços de energia elevados e a cotação da rúpia já em mínima histórica tornam qualquer prolongamento do conflito especialmente custoso para Nova Delhi.
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