Por que ação do Bradesco cai mais de 3% mesmo com lucro acima do esperado?
As ações do Bradesco operam em queda nesta quinta-feira, 7, mesmo após o banco divulgar um lucro acima das expectativas do mercado no primeiro trimestre deste ano. Às 13h04, os papéis preferenciais (BBDC4) recuavam 3,22%, cotados a R$ 18,65, enquanto as ações ordinárias (BBDC3), de menor liquidez, caíam 2,70%. No mesmo horário, o Ibovespa recuava 2%, aos 183.942 pontos.
O movimento negativo ocorre um dia após o banco reportar lucro líquido recorrente de R$ 6,8 bilhões entre janeiro e março, alta de 16,1% em relação ao mesmo período do ano passado e avanço de 4,5% na comparação trimestral. Foi o nono trimestre consecutivo de crescimento do lucro e da rentabilidade, com resultado acima das projeções de parte dos analistas.
O ROAE, retorno sobre o patrimônio líquido médio dos acionistas, chegou a 15,8%, ante 14,4% no primeiro trimestre de 2025. O grupo segurador registrou ROAE de 21,6%.
O desempenho foi sustentado principalmente pela expansão de 14% das receitas totais, impulsionada pela margem financeira e pelo segmento de seguros, especialmente a operação da BradSaúde, além do controle mais rígido das despesas operacionais. As receitas totais somaram R$ 36,9 bilhões, crescimento de 14,0% em 12 meses.
Provisões preocupa o mercado
Apesar do lucro forte, o mercado segue preocupado com a qualidade da carteira de crédito e com o avanço das provisões para perdas. O índice de inadimplência acima de 90 dias ficou em 4,2%, com alta de 0,1 ponto percentual tanto na comparação anual quanto trimestral. Já os atrasos entre 15 e 90 dias subiram 21 pontos-base, movimento que o banco classificou como sazonal.
Entre janeiro e março, o Bradesco elevou em 26,5% as provisões para devedores duvidosos (PDD) na comparação anual. O aumento foi influenciado tanto pela expansão da carteira dentro das novas regras contábeis da Resolução 4.966 quanto por eventos específicos de deterioração de crédito.
Os executivos citaramm durante a apresentação de resultados à imprensa, o impacto de um caso relevante de recuperação judicial no atacado, que exigiu reforço nas provisões. O banco também segue vendo pressão no segmento de pequenas e médias empresas, especialmente em operações com garantias governamentais.
Nas análises divulgadas após o balanço, praticamente todas as casas destacaram a piora do custo de crédito como principal ponto de preocupação.
O Safra afirmou que "as provisões impactaram os resultados do banco", destacando que o custo do risco subiu 20 pontos-base no trimestre e fez com que as perdas esperadas com crédito (ECL) ficassem 6% acima da previsão da casa. Segundo os analistas, “as ECL no atacado aumentaram em cerca de R$ 600 milhões”, em função do caso específico no segmento corporativo.
Tom cauteloso e prejuízo colocam investidores em alerta
O banco também chamou atenção para o tom mais cauteloso adotado pela administração diante do cenário macroeconômico. Para o Safra, o Bradesco "estaria adotando uma abordagem mais conservadora em relação à deterioração macroeconômica", o que pode limitar revisões positivas nas projeções de lucro para 2026.
O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) avaliou que o trimestre foi "sólido à primeira vista", mas ressaltou uma série de "ressalvas" no balanço. Entre elas, um prejuízo de R$ 1,8 bilhão relacionado à adesão ao programa de regularização fiscal PTI, referente a disputas tributárias de 2014 e 2015.
Para os analistas, o reconhecimento da despesa indica que "esses passivos não estavam totalmente provisionados anteriormente".
Inadimplência é ponto de atenção
O BTG também destacou a piora nas provisões e na formação de inadimplência. As provisões gerenciais para perdas com empréstimos atingiram R$ 9,7 bilhões, alta de 27% em um ano e acima das expectativas da casa. Além disso, a formação de crédito inadimplente no chamado “Estágio 3” subiu 10% no trimestre, pressionando o índice de cobertura do banco.
Outra preocupação levantada pelo BTG foi a redução do chamado "capital de caixa" ou patrimônio líquido tangível. Segundo o relatório, houve queda de aproximadamente R$ 4 bilhões no trimestre, impactada pelo aumento de despesas pré-pagas relacionadas ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), tecnologia e emissão de cartões.
A Eleven Financial apontou a pressão das provisões como principal limitador do resultado. Segundo a casa, a despesa com PDD, que chegou a R$ 9,7 bilhões. A casa tinha uma visão mais otimista para o lucro do que os bancos, e apontou que a despesa com as provisões rebaixaram o montante esperado.
A consultoria destacou ainda a piora da inadimplência no segmento de pequenas e médias empresas, onde o Bradesco possui forte presença.
Queda na receita com prestação de serviços
Já o Itaú BBA classificou o resultado como positivo no geral, mas chamou atenção para fraquezas específicas do balanço. Entre elas, a queda de 6% nas receitas com prestação de serviços no trimestre, pressionadas por cartões e pelo avanço estrutural do PIX sobre receitas de conta corrente.
O BBA também destacou que as provisões vieram 6% acima do projetado, devido a casos específicos no atacado e à exposição ao agronegócio. Além disso, o crescimento da carteira de crédito foi considerado fraco, com alta de apenas 0,1% no trimestre, abaixo das estimativas da casa e distante do ritmo necessário para cumprir o guidance anual.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: