Por que as seguradoras estão entre as maiores altas da bolsa no 1° semestre

Por Clara Assunção 1 de Julho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que as seguradoras estão entre as maiores altas da bolsa no 1° semestre

Em um primeiro semestre marcado pela perda de fôlego do Ibovespa, as ações das seguradoras seguiram na contramão do mercado e consolidaram como uma das principais teses defensivas da bolsa brasileira em 2026. Enquanto o principal índice da B3 fechou junho com alta acumulada de 6,76% no ano — depois de devolver boa parte dos ganhos de mais de 23% registrados até abril —, empresas do setor apareceram entre as maiores valorizações do mercado.

A Caixa Seguridade (CXSE3) foi o principal destaque. As ações acumularam alta de 23,67% até o fechamento desta terça-feira, 30, quando também se encerrou o primeiro semestre, suficiente para colocar o papel entre as dez maiores altas do Ibovespa e renovar sua máxima histórica em R$ 19,76.

Na sequência aparecem BB Seguridade (BBSE3), com avanço de 16,10%, e Porto (PSSA3), que sobe 13,07% no ano. Fora do Ibovespa, a Bradsaúde (SAUD3), listada no Novo Mercado, acumula valorização ainda maior, de 28,39%, enquanto o IRB (IRBR3), que deixou o índice em maio, registra ganho mais modesto, de 5,23%.

Na avaliação de analistas, a explicação para esse desempenho passa muito menos por eventos específicos das companhias e muito mais pela mudança no cenário macroeconômico. Ao longo do semestre, as expectativas para a trajetória da taxa básica de juros, a Selic, foram revisadas. O mercado passou a trabalhar com juros elevados por mais tempo, cenário que beneficia diretamente o modelo de negócios das seguradoras.

"As seguradoras performaram melhor do que o restante da bolsa por dois motivos. Primeiro, porque são empresas defensivas e tendem a cair menos em momentos de estresse. Segundo, porque juros mais altos beneficiam diretamente o setor", afirma Renato Reis, analista da Blue3 Investimentos.

Segundo Reis, o efeito ocorre porque as seguradoras recebem os prêmios pagos pelos clientes e aplicam esses recursos até que haja eventual pagamento de sinistros. "Esse patrimônio fica rentabilizando. Então, quanto maiores os juros, maior tende a ser esse ganho financeiro."

Fernando Siqueira, head de Research da Eleven Financial, tem avaliação semelhante. Para o especialista, a revisão das expectativas para os juros foi o principal fator por trás da valorização das seguradoras. "Essas empresas normalmente reagem bem quando os juros estão altos ou sobem, porque boa parte dos prêmios pagos pelos clientes permanece aplicada em títulos atrelados à Selic enquanto nenhum sinistro acontece", diz.

Na mesma linha, Malek Zein, analista de ações da Suno Research, lembra que no início do ano o consenso era de uma Selic próxima de 12%, cenário que mudou ao longo dos meses.

"Hoje o mercado trabalha com um piso próximo de 13% e a curva de juros projeta taxas próximas de 14% para os próximos anos. Isso aumenta o valor justo dessas empresas e ainda favorece uma migração dos investidores para ativos mais defensivos", afirma.

Além do ambiente de juros, o próprio comportamento do mercado ajudou o setor. Depois de o Ibovespa atingir máxima histórica em abril, o fluxo estrangeiro perdeu força e a bolsa devolveu parte dos ganhos do ano, aumentando a procura por empresas menos sensíveis ao ciclo econômico e conhecidas pela distribuição recorrente de dividendos.

Apesar disso, Siqueira pondera que o pagamento de dividendos não explica sozinho o movimento. "Se esse fosse o principal fator, outros setores tradicionalmente pagadores de dividendos, como elétricas, também teriam apresentado desempenho semelhante, o que não aconteceu", afirmou.

Caixa lidera pela combinação de crescimento e execução

Embora o cenário macro tenha favorecido todo o setor, a Caixa Seguridade conseguiu se destacar até mesmo entre suas concorrentes. Na visão do analista da Blue3 Investimentos, isso ocorre porque a companhia reúne crescimento mais consistente e menor exposição aos problemas enfrentados por outras seguradoras.

"A Caixa é a que mais cresce e conseguiu alinhar praticamente todas as suas linhas de negócios com bom desempenho. Já a BB Seguridade sofre mais com o seguro rural e a Porto tem enfrentado dificuldades em algumas verticais, como o Porto Bank."

Os números operacionais divulgados pela Superintendência de Seguros Privados (Susep) referentes a abril reforçam essa percepção. A Caixa foi considerada o principal destaque positivo do setor pelo BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), com crescimento de 12% no lucro líquido estimado, alta de 3% nos prêmios emitidos, melhora da sinistralidade e o maior crescimento de reservas em previdência entre as grandes seguradoras.

O analista de ações da Suno Research também atribui a liderança da companhia ao melhor ritmo operacional. "Ela apresentou o maior crescimento na emissão de prêmios até o momento. Talvez por isso tenha sido a empresa que mais subiu no ano."

Cenário das seguradoras é bastante heterogêneo

Já a BB Seguridade apresentou queda de 22% nos prêmios emitidos em abril, pressionada principalmente pelos seguros prestamista e rural, enquanto a Porto registrou lucro líquido 16% menor e aumento da sinistralidade. Ainda assim, ambas permanecem entre os destaques da bolsa em 2026.

"Os dados mensais podem mostrar uma inflexão pontual, mas a tendência é mais importante. O mercado está muito mais atento aos juros, porque esse continua sendo um ambiente bastante favorável para as seguradoras", diz Reis.

Siqueira, da Eleven Financial, destaca que, no caso da Porto, o desempenho operacional recente começou a perder força justamente após anos de expansão bem-sucedida para novos negócios. "A Porto teve muito sucesso nos últimos anos, mas agora começaram a aparecer sinais de resultados mais fracos, principalmente na parte de serviços financeiros. Parece que boa parte da tese já foi precificada."

Ainda assim, ele ressalta que Caixa e BB Seguridade continuam apresentando resultados considerados sólidos e atuam em segmentos mais defensivos que a Porto, cuja maior exposição ao seguro automotivo torna seus resultados mais sensíveis ao ciclo econômico.

A divergência também aparece nas recomendações dos bancos. Em abril, o Itaú BBA rebaixou BB Seguridade para venda e Caixa Seguridade para neutra. No caso da Caixa, o banco justificou a decisão principalmente pelo valuation, após a forte valorização das ações, apesar de reconhecer perspectivas favoráveis para crédito imobiliário e previdência.

Já para a BB Seguridade, o banco apontou deterioração operacional no agronegócio e no seguro prestamista.

Ainda há espaço para novas altas?

Para Reis, seguradoras continuam fazendo sentido principalmente como posições estruturais dentro de carteiras mais conservadoras. "Quem investe pensando no longo prazo e gosta de dividendos deveria sempre manter alguma seguradora na carteira. Não faz sentido tentar entrar e sair do setor conforme muda o cenário de juros. O mais adequado é fazer rebalanceamentos periódicos".

Na Suno Research, a preferência atualmente é pela BB Seguridade. Apesar dos números operacionais mais fracos no curto prazo, Zein avalia que boa parte dos problemas está relacionada ao momento do agronegócio e do crédito consignado, fatores considerados cíclicos.

"A empresa negocia em torno de oito vezes o lucro e oferece um carrego de dividendos muito confortável. Acreditamos que o lucro atual está abaixo do potencial normalizado da companhia", diz.

Já em relação à Bradsaúde, Zein considera a empresa competitiva, mas vê o valuation menos atrativo diante de uma sinistralidade considerada excepcionalmente baixa. O analista da Blue3 diz preferir aguardar os primeiros resultados consolidados da nova companhia antes de fazer uma avaliação mais definitiva.

No caso do IRB, os especialistas demonstram maior cautela. De acordo com Reis, embora a companhia também se beneficie do ambiente de juros elevados, o processo de reestruturação iniciado após a crise enfrentada pela empresa ainda não foi totalmente concluído, o que recomenda prudência por parte dos investidores.

O risco do El Niño

Os bancos também chamam atenção para os impactos do possível "Super El Niño" nas ações de seguradoras brasileiras. Em relatório divulgado em maio, o Bank of America (BofA) fez um alerta sobre as companhias expostas principalmente nos segmentos rural, residencial e automotivo, diante da possibilidade de aumento da frequência de eventos climáticos extremos.

O BofA cita que os índices de sinistralidade nos seguros residenciais e rurais aumentaram entre 2 e 3 pontos percentuais nos ciclos de El Niño registrados na última década. "Chuvas acima da média também podem aumentar a frequência de sinistros nos seguros residenciais, rurais e automotivos", afirma o banco.

A Porto Seguro aparece como a seguradora mais exposta ao risco climático, já que 48% de suas receitas vêm desses segmentos considerados mais sensíveis aos efeitos do fenômeno. Em seguida aparecem BB Seguridade, com exposição de 34%, e Caixa Seguridade, com 11%.

O relatório estima que cada aumento de 100 pontos-base no índice de sinistralidade pode reduzir em cerca de 1% os lucros das seguradoras. Ainda assim, o BofA pondera que mecanismos de resseguro e diversificação de operações devem ajudar a amortecer parte dos impactos financeiros sobre as companhias.

O Itaú BBA, por sua vez, avalia que os impactos sobre as seguradoras tendem a variar conforme a exposição geográfica das carteiras. No caso da BB Seguridade, o banco vê um cenário relativamente mais favorável porque sua carteira de seguro rural está concentrada na Região Sul do Brasil, onde o El Niño costuma provocar chuvas acima da média, e não estiagens.

Como os sinistros agrícolas estão associados principalmente à seca, o banco considera que um Sul mais chuvoso tende a reduzir os riscos para a companhia.

O relatório ressalta, no entanto, que chuvas excessivas também podem gerar perdas, como ocorreu durante o El Niño de 2023, quando enchentes passaram a ter maior peso entre os sinistros. Ainda assim, o Itaú BBA afirma que seria necessário um evento de intensidade excepcional para provocar um aumento relevante da sinistralidade da BB Seguridade.

"Em um cenário de precipitação elevada, o impacto mais direto recai sobre as garantias hipotecárias do sul, como em 2023, onde a Caixa é a instituição mais sensível a esse risco", acrescentou o banco em relatório divulgado nesta semana.

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