Por que bolsas do Peru e Colômbia avançam mais que o Ibovespa em 2026
Janeiro de 2026 começou com um movimento surpreendente nos mercados emergentes: o índice S&P/BVL General, do Peru, disparou 22,51% em dólares, enquanto o MSCI Colcap, da Colômbia, avançou 21,16%. Com 18,42% de alta no período, o Índice Bovespa (Ibovespa) ficou na terceiro posição.
Um levantamento da Elos Ayta, que monitora 21 dos principais índices globais, mostra que o Brasil garantiu o terceiro lugar no pódio mundial, registrando seu melhor resultado mensal em dólares desde o final de 2020, mas não foi páreo para o fôlego renovado dos vizinhos andinos.
Esse cenário marca um início de ano estatisticamente raro, onde a América Latina assumiu o protagonismo total, deixando para trás gigantes como Nasdaq, em Nova York, nos Estados Unidos (EUA), índice na lanterna do ranking com uma alta de apenas 0,95%.
O que explica o brilho dos vizinhos?
O economista Alex Araújo explica que o desempenho superior das bolsas do Peru e da Colômbia no primeiro mês do ano está ligado a uma combinação de fatores técnicos, setoriais e de base comparativa. "Não é uma perda estrutural de relevância do mercado brasileiro", pondera.
Enquanto o Ibovespa reflete um mercado com capitalização próxima a US$ 900 bilhões e volume médio diário acima de US$ 5 bilhões, o mercado peruano gira em torno de US$ 120 bilhões a US$ 150 bilhões de market cap. Já o colombiano fica em cerca de US$ 90 bilhões a US$ 110 bilhões, com liquidez diária muito inferior, explica o economista.
"Isso faz com que movimentos relativamente modestos de capital estrangeiro gerem variações percentuais maiores nesses mercados", detalha Araújo. Todavia, "o Brasil segue sendo o mercado mais profundo, líquido e diversificado da América Latina e o principal destino de fluxos estruturais de investidores globais."
Motor de exportação e política são alvos
Para entender o desempenho fora da curva, é preciso olhar para o chamado "motor de exportação" desses países, segundo especialistas ouvidos pelo Fiminize — plataforma britânica de análises do mercado e de educação financeira.
No caso peruano, a mineração é a espinha dorsal da economia. Estima-se que a atividade responda por cerca de 60% das receitas em moeda estrangeira. E, com os preços do cobre e do ouro em patamares elevados e o dólar perdendo força globalmente, o fluxo de capital para o Peru foi massivo.
O banco central do Peru já acumulou quase US$ 90 bilhões em reservas, o equivalente a 28% do Produto Interno Bruto (PIB), o nível mais alto da região. Esse montante ajudou a moeda local, denominada sol, a atingir o patamar mais forte em quase seis anos, impulsionando retornos para investidores estrangeiros.
A política também entrou no radar, com fontes ouvidas pelo americano Barron's relatando que a América Latina vive uma "onda de direita" que tem atraído investidores avessos a gastos públicos excessivos. Há uma percepção de que líderes liberais estão ganhando mais espaço, exemplo do Peru e da Colômbia.
Gestor de fundos em Londres, James Athey explica, também, à Reuters que se o investidor busca hoje "ortodoxia política" e responsabilidade fiscal ele acaba encontrando mais opções em mercados emergentes do que em desenvolvidos, que têm gastado de forma considerada arriscada no longo prazo, na sua opinião.
Mercados emergentes no radar
O investidor global está muito mais seletivo. Em vez de tratar os mercados emergentes como um bloco único, os compradores estão usando Exchange Traded Funds (ETFs, em inglês), que replicam índices, de países específicos para apostar onde a gestão econômica parece mais sólida, relata a Reuters.
Esse movimento explica por que fundos de ações latino-americanos registraram suas maiores entradas semanais de capital da história recentemente, além de que a fraqueza do dólar atua como um vento favorável para essas economias, reduzindo custos de financiamento e turbinando os lucros corporativos, para os especialistas.
O que esperar daqui para frente?
Olhando para o futuro, as projeções são otimistas em sua maioria, mas carregam cautela. Estrategistas do JP Morgan acreditam que o índice MSCI EM Latin America pode subir até 30% até o fim do ano, à medida que os investidores reequilibram suas carteiras que hoje estão muito concentradas em ações americanas.
A tendência de queda nas taxas de juros, já observada em países como México e Chile, deve finalmente ganhar corpo no Brasil, oferecendo um alívio para as empresas locais e incentivando a migração da renda fixa para a bolsa, adicionam especialistas ouvidos pelo Barron's.
Historicamente, movimentos de liderança em mercados latino-americanos tendem a ser rotacionais e de curta duração, segundo Araújo. O economista acredita que o desempenho relativo do Brasil dependerá de três vetores para os próximos meses, com possível recuperação do Ibovespa no protagonismo regional, como:
Há oportunidades para o mercado brasileiro de forma bastante objetiva na análise do economista. "Diferentemente do Peru e da Colômbia, o Brasil oferece escala, liquidez e capacidade de absorver grandes fluxos, o que tende a favorecer movimentos de recuperação mais consistentes quando o fluxo internacional retorna."
"Além disso, o Brasil apresenta valuation descontado em múltiplos históricos, especialmente em bancos, utilities e empresas ligadas à infraestrutura, à energia, à geração robusta de caixa e a dividend yield elevado — algo escasso em mercados globais, havendo potencial de reprecificação relevante se o ciclo de corte nos juros começar."
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