Por que desaprovação de Lula atingiu pior patamar em 10 meses, segundo AtlasIntel
A trajetória de alta na desaprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que chegou a 53,5% na pesquisa do instituto AtlasIntel divulgada nesta semana, reflete mais do que oscilações pontuais e indica um ambiente político estruturalmente adverso ao governo petista em ano eleitoral.
A leitura é de Yuri Sanches, analista do instituto de pesquisa, que aponta uma convergência de fatores internos e externos para explicar o movimento.
Na avaliação de Sanches, há um desequilíbrio entre notícias negativas e positivas no noticiário e na percepção pública.
“A conjuntura atual no cenário interno e externo são fatores importantes para a dificuldade de retomada da aprovação do governo Lula, e há uma falta de boas notícias para o governo, em contraste”, afirma em entrevista à EXAME.
Esse cenário começou a se consolidar ainda no fim de 2025, segundo Sanches, com episódios que afetaram diretamente a imagem do governo em áreas sensíveis.
“Desde a megaoperação policial no Rio de Janeiro, no final do ano passado, a desaprovação voltou a ser maior e se mantém majoritária. Ali, o governo foi percebido como omisso e expôs as fragilidades que o governo e a esquerda têm no tema da segurança pública”, diz.
De lá para cá, uma sequência de eventos ampliou o desgaste. Entre eles, o especialista cita o episódio do desfile da Acadêmicos de Niterói com uma ala que representava conservadores como integrantes de uma “família enlatada”, investigações da CPMI do INSS contra o filho de Lula e crises institucionais do Supremo Tribunal Federal envolvendo o caso Master.
Na leitura do analista da AtlasIntel, esses episódios ajudam a consolidar uma percepção negativa difusa, que vai além de temas econômicos e atinge valores culturais e institucionais.
“Outros eventos passaram a tornar o ambiente desfavorável ao governo: o episódio do Carnaval com a alegoria da família em conserva, a CPMI do INSS e as investigações sobre o Lulinha e o caso Master, além da crise de imagem do STF”, afirma.
Outro ponto central da análise é o impacto limitado de medidas econômicas recentes, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil. Embora popular, a política não tem se traduzido automaticamente em ganho de aprovação.
“A isenção do IR tem algumas particularidades. Ela tem efeito limitado e não cria um salvo conduto, uma fidelidade ou uma gratidão automáticas do eleitorado beneficiado ao governo”, afirma Sanches.
Ele aponta três razões principais: a base histórica de Lula já era majoritariamente isenta, o público alcançado pela nova faixa tem perfil mais alinhado ao discurso liberal e há uma percepção recorrente de perda de renda líquida.
“Esse eleitor valoriza o empreendedorismo e vê o Estado como uma entidade que atrapalha seu desenvolvimento com impostos”, diz.
Entregas tardias e comparação com governos anteriores
Apesar do cenário de desgaste, o governo acumula políticas públicas bem avaliadas, o que pode influenciar a dinâmica eleitoral nos próximos meses. Programas como o Pé-de-Meia, a ampliação do Farmácia Popular, o fim da obrigatoriedade de autoescola para tirar CNH e o emprestimo consignado CLT aparecem como ativos relevantes, segundo o analista.
Ainda assim, o timing dessas iniciativas é um fator crítico. “O governo demorou a entregar, mas tem programas muito bem avaliados que vão ser ativos importantes no convencimento do eleitor”, afirma Sanches.
Segundo o especialista, todos os programas são vistos como acertos do governo nas pesquisas da AtlasIntel, mas eles só foram implementados na segunda metade do governo.
"Eles vão ser importantes porque, apesar de a eleição se projetar novamente como uma batalha de rejeições entre dois polos antagônicos, com pouco espaço para se discutir propostas, Lula não poderá prescindir de mostrar entregas, o que realizou nos últimos 4 anos", afirma.
A comparação com os mandatos anteriores de Lula também pesa na avaliação atual.
“Em 2022, Lula foi eleito com uma expectativa alta por conta de ter deixado o governo com mais de 80% de aprovação. Agora, ele terá que mostrar as entregas e seus impactos positivos”, diz.
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