Por que investimento-anjo e venture capital não se aplicam a negócios tradicionais
Recebemos diariamente solicitações de empreendedores de negócios tradicionais buscando investimento e infelizmente temos de responder com uma negativa que acaba gerando frustação, pela falta de entendimento sobre como funciona o investimento anjo e o Venture Capital e não por serem negócios ruins.
Estas modalidades de investimento seguem um modelo específico de alocação de capital que pressupõe a entrada do investidor como sócio do negócio, com o objetivo de obter retorno financeiro por meio da valorização da participação societária e, principalmente, pela venda futura da empresa (total ou parcial).
Não se trata, portanto, de um empréstimo nem de uma fonte de capital pensada para geração de fluxo de caixa no curto prazo com ganhos advindos da distribuição de lucros e dividendos.
O retorno esperado está concentrado em um evento de liquidez futuro, como a aquisição por um player estratégico ou a entrada de um fundo de maior porte.
Para que esse modelo faça sentido, a empresa precisa apresentar características específicas.
Ele deve ser altamente escalável, ou seja, capaz de crescer de forma acelerada sem demandar aumentos proporcionais de capital ou de estrutura operacional e de recursos humanos.
Além disso, precisa ser inovador, não apenas “um pouco melhor” do que o que já existe no mercado, mas substancialmente superior, obtendo vantagens competitivas significativas e difíceis de serem replicadas.
Essa diferenciação é fundamental para que, no futuro, exista um comprador disposto a pagar um valor elevado pela empresa, gerando um retorno compatível com o risco assumido pelo investidor anjo e de VC.
As alternativas
Esse ponto do risco é central. No investimento-anjo e em Venture Capital, trabalha-se com a expectativa de que, a cada dez investimentos realizados, em média cerca de cinco não atinjam o sucesso esperado ou sequer retornem o capital investido.
O retorno dos poucos casos bem-sucedidos precisa compensar financeiramente todas essas perdas.
Por essa razão, negócios tradicionais, como comércios locais, indústrias convencionais, prestadores de serviço pouco escaláveis ou empresas cujo crescimento depende essencialmente de mais capital físico ou mais pessoas, não se encaixam na lógica do investimento anjo e VC.
Mesmo sendo negócios sólidos e lucrativos, eles raramente apresentam potencial de valorização exponencial suficiente para justificar esse tipo de aporte societário.
Para negócios tradicionais, no entanto, existem diversas alternativas de financiamento muito mais adequadas e eficientes, especialmente quando o objetivo é sustentar a operação, financiar o crescimento ou viabilizar expansão de capacidade.
Para capital de giro, por exemplo, há soluções privadas especializadas, como linhas de crédito de bancos, FDICs (Fundos de Direitos Creditórios) e factorings, que atuam com crédito estruturado para empresas, além das linhas tradicionais de adiantamento de recebíveis oferecidas por bancos e agentes financeiros, amplamente utilizadas para antecipar fluxo de caixa a partir de vendas já realizadas.
No caso de investimentos em máquinas e equipamentos, uma das principais alternativas no Brasil é o FINAME, linha operada pelo BNDES, voltada ao financiamento de bens de capital nacionais, com prazos mais longos e custos financeiros inferiores aos de linhas comerciais tradicionais.
Esse tipo de instrumento é especialmente relevante para indústrias e empresas que dependem de ativos físicos para crescer.
Além disso, existem outras linhas de financiamento voltadas à expansão de negócios, como crédito para ampliação de plantas industriais, abertura de novas unidades, modernização tecnológica ou projetos de eficiência operacional, oferecidas tanto por bancos públicos quanto privados, cooperativas de crédito e agências de fomento estaduais.
A opção dos fundos de private equity
Essas soluções são estruturadas para negócios que crescem de forma incremental, com base em receita, margem e capacidade operacional, e não na expectativa de uma venda futura da empresa.
Para empresas de maior porte, já consolidadas, com faturamento anual acima de aproximadamente R$ 100 milhões, surge ainda outra alternativa: os fundos de private equity.
Diferentemente do investimento-anjo e VCs, esses fundos costumam investir em empresas maduras, com operações estáveis, governança estruturada e histórico consistente de resultados.
O foco está na geração de valor por meio de eficiência operacional, expansão estruturada, aquisições estratégicas e melhoria de gestão, com horizontes de investimento mais previsíveis e menor assimetria de risco quando comparados a startups em estágio inicial.
Em síntese, o investimento anjo e Venture Capital não é “melhor” ou “pior” do que outras formas de financiamento, ele é simplesmente adequado a um tipo específico de negócio, as chamadas “Startups” e “Scale-ups”, empresas que tem a inovação como cerne da sua diferenciação.
Empresas tradicionais, ainda que bem geridas e lucrativas, tendem a se beneficiar muito mais de instrumentos de crédito, financiamento produtivo ou, em estágios mais avançados, de private equity.
Compreender essas diferenças é fundamental para que empreendedores escolham a fonte de capital correta, alinhada ao seu modelo de negócio, ao estágio de maturidade da empresa e aos objetivos de longo prazo.
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