Por que o avanço da praga do México nos EUA deve aumentar a exportação de carne do Brasil

Por César H. S. Rezende 22 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que o avanço da praga do México nos EUA deve aumentar a exportação de carne do Brasil

O avanço no número de casos de mosca-varejeira-do-novo-mundo nos Estados Unidos deve aumentar as exportações de carne bovina do Brasil no segundo semestre de 2026. Segundo analistas ouvidos pela EXAME, o surto ocorre em um momento de forte restrição na oferta americana e pode levar o país a ampliar em 200 mil toneladas adicionais as compras da proteína brasileira.

Os EUA atravessam uma fase de contração do ciclo pecuário e devem registrar, neste ano, o maior déficit de proteína animal de toda a série histórica. Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões, enquanto o rebanho bovino total atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os EUA perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.

Nesse contexto, o Brasil ganha espaço como fornecedor. Em 2025, mesmo com a tarifa imposta pelo presidente Donald Trump sobre a carne bovina brasileira, os EUA foram o segundo principal destino das exportações do produto, com 272 mil toneladas embarcadas, alta de 18% em relação a 2024, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).

De janeiro a maio deste ano, os EUA já compraram 178 mil toneladas de carne do Brasil, alta de 15% em relação ao mesmo intervalo de 2025.

"Os Estados Unidos devem desempenhar papel central no escoamento da produção brasileira. Pelas estimativas do setor, o país pode ampliar suas importações em cerca de 200 mil toneladas, elevando as compras totais para aproximadamente 500 mil toneladas", afirma João Figueiredo, líder de pecuária da Datagro.

A expectativa ganhou força após o avanço da mosca-varejeira-do-novo-mundo no território americano. No domingo, 21, o USDA confirmou mais três casos da doença no Texas, elevando para 15 o número de registros no país.

A mosca-varejeira-do-novo-mundo é um parasita que ataca animais de sangue quente e pode infectar bovinos, animais de estimação, fauna silvestre e, em casos raros, seres humanos.

Suas larvas penetram nos tecidos vivos dos animais, provocando feridas graves que podem levar à morte e gerar perdas econômicas significativas para os pecuaristas.

A seca prolongada no oeste americano agravou ainda mais a situação ao elevar os custos de alimentação e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar caixa.

O reflexo já aparece nos preços ao consumidor. A carne moída, principal matéria-prima dos hambúrgueres, atingiu o recorde de US$ 6,90 por libra-peso em abril, o maior valor da série histórica do Bureau of Labor Statistics (BLS), órgão responsável pelas estatísticas trabalhistas do país.

O valor representa quase o dobro do registrado há dez anos e uma alta de aproximadamente 20% em relação ao mesmo período do ano passado. Desde 2020, os preços da carne bovina nos Estados Unidos acumulam valorização de 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis.

A escalada dos preços tem levado reguladores, representantes da indústria e entidades de defesa do consumidor a intensificar o debate sobre os fatores que pressionam os custos ao longo da cadeia pecuária.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos, inclusive, abriu uma investigação antitruste para apurar a atuação de grandes processadoras de carne, entre elas JBS, Cargill e Tyson Foods.

"O surto agrava uma situação que já era delicada. A oferta de animais está muito restrita e a recuperação do rebanho será lenta. Por isso, independentemente da evolução da doença, a tendência é que o Brasil siga ampliando as vendas de carne bovina para o mercado americano ao longo deste ano", diz Fernando Iglesias, analista de pecuária da Safras & Mercados.

Carne no Brasil

A expectativa de aumento das exportações brasileiras de carne bovina ganha ainda mais relevância diante do cenário internacional.

Com a imposição de cotas pela China e o bloqueio temporário da União Europeia às compras de carne bovina brasileira em junho, o setor acompanha com atenção a capacidade de absorção do mercado doméstico nos próximos meses.

"O principal ponto de atenção agora é a capacidade de absorção do mercado interno. A demanda doméstica segue aquecida, mas julho costuma ser um período de desaceleração do consumo por causa das férias escolares e de fatores sazonais. Por isso, o terceiro trimestre será um teste importante para avaliar até que ponto o mercado conseguirá sustentar os preços", afirma Figueiredo, da Datagro.

A preocupação não é nova. Em maio, o presidente da Abiec, Roberto Perosa, afirmou que o setor já projetava uma redução das exportações para a China no segundo semestre, além de uma queda de 10% nos embarques brasileiros ao país em 2025.

Nesse contexto, o desempenho do consumo doméstico ganha importância para equilibrar a oferta de carne bovina no mercado brasileiro.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: