Por que o Brasil, com a bolsa 'mais barata do mundo', ainda não convence investidores
A bolsa brasileira negocia hoje no menor valuation entre os principais mercados do mundo, mas isso não tem sido suficiente para atrair investidores de forma consistente. Na avaliação de gestores da Franklin Templeton Brasil, que administram R$ 51 bilhões, o desconto recorde do mercado acionário doméstico reflete menos uma oportunidade óbvia e mais a falta de uma narrativa capaz de sustentar expectativas de crescimento para o país.
"Quando eu olho para o valor da nossa bolsa hoje, ele reflete essa falta de expectativa. Salta aos olhos o desconto que a gente tem em relação aos nossos pares. E acho que isso reflete muito essa falta de horizonte que a gente tem", afirma Frederico Sampaio, portfolio manager da Franklin Templeton Brasil em conversa com jornalistas.
Como mostrou a EXAME com base um levantamento da Nomos, realizado com dados da Bloomberg compilados até o dia 18 de junho, o indicador do mercado doméstico negocia a apenas 8,1 vezes o Preço sobre lucro, o P/L, projetado para 2026, abaixo de mercados como Coreia do Sul (9,2 vezes), Argentina (9,9 vezes), Colômbia (9,8 vezes) e China (10,6 vezes).
Nos Estados Unidos, o S&P 500 negociava a 21,2 vezes lucro projetado, o Nasdaq a 25,3 vezes e o Nikkei japonês a 25,7 vezes. A média geral dos mercados analisados é de 15,8 vezes, enquanto a média dos emergentes está em 11,9 vezes, segundo o estudo da Nomos.
Para Sampaio, o valuation atual da bolsa brasileira embute a continuidade de um cenário pouco animador. "E qual é esse cenário? Um cenário de crescimento baixo, baixa produtividade", afirma.
De acordo com o gestor, diferentemente de mercados que vêm sendo impulsionados por empresas de tecnologia e inovação como a Coreia do Sul, com impulso de empresas como Samsung e do grupo SK, a bolsa brasileira continua excessivamente dependente de setores tradicionais como as commodities.
"O Brasil carece dessa coisa do empreendedorismo e da tecnologia que a gente vê lá fora. Você vê empresas indo a mercado, abrindo capital. É uma sinalização que os valuations estão convidativos para vender, para os empreendedores venderem. Aqui temos vivido uma dinâmica inversa, os empreendedores têm fechado o capital", diz o gestor da Franklin Templeton Brasil.
Desconto histórico não basta para atrair investidores
O paradoxo, segundo os gestores, é que a bolsa parece barata justamente porque os investidores não conseguem enxergar quais serão os motores de crescimento do Brasil nos próximos anos. "O valuation reflete essa falta de otimismo", ressalta Sampaio.
A percepção de risco também está ligada ao ambiente macroeconômico. Com juros elevados, incertezas fiscais e dúvidas sobre a trajetória econômica após as eleições de 2026, investidores preferem esperar por maior visibilidade antes de aumentar posições em ações.
"Hoje ninguém consegue fazer muita projeção para um ano à frente. Tem uma série de interrogações para o que vai ser o juro do ano que vem, o crescimento do ano que vem e o câmbio".
Na visão do gestor, o mercado já precifica um cenário bastante negativo, o que cria uma assimetria favorável para quem investe olhando o longo prazo. "O lado bom dessa história, se é que tem lado bom, é que o valuation reflete essa falta de otimismo. Então a assimetria positiva é muito grande".
O que faria a bolsa voltar a subir?
A recuperação observada entre janeiro e março deste ano mostrou o potencial de reação do mercado brasileiro quando o fluxo internacional muda de direção.
Naquele período, a bolsa recebeu forte entrada de capital estrangeiro e se destacou entre os mercados emergentes mesmo em meio ao primeiro mês da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Até o final de março, o saldo líquido acumulado no ano já atingia R$ 53,8 bilhões, a melhor marca de capital externo também desde 2022, quando o 1° trimestre do ano somou R$ 65,3 bilhões em recursos estrangeiros.
O movimento, porém, perdeu força ao longo do segundo trimestre. Desde 15 de abril, os investidores estrangeiros retiraram quase R$ 35 bilhões líquidos da B3, contribuindo para a correção das ações e para a queda dos múltiplos.
Segundo Sampaio, o rali do início do ano não foi provocado por uma melhora estrutural do Brasil, mas por uma rotação global de ativos. "O que aconteceu ali foi um movimento global. O Brasil não foi beneficiado por causa do Brasil. A gente ganhou um fluxo que beneficiou bastante".
Por isso, o gestor argumenta que uma nova onda de valorização dependeria de fatores domésticos.
"O Brasil carece de uma narrativa de crescimento. Falta um gatilho que convença o investidor de que a história pode mudar. Hoje, principalmente o investidor estrangeiro, ainda carrega as cicatrizes de outras experiências no país. Qualquer mudança de cenário — seja no câmbio, nos juros ou na política — pode corroer rapidamente o retorno esperado, o que aumenta a cautela", diz.
"Por outro lado, justamente porque o Brasil está muito descontado, uma pequena mudança positiva na narrativa pode provocar uma nova onda de entrada de capital estrangeiro", acrescenta.
Eleições ampliam incerteza
Parte dessa dificuldade de construir cenários está relacionada ao ambiente político. Na avaliação de Sampaio, o debate econômico sobre as políticas fiscais ainda aparece de forma superficial no processo eleitoral brasileiro, dificultando a formação de expectativas para investidores.
"Ninguém consegue prever nada porque o debate brasileiro não aprofunda essas questões do problema fiscal. Você não consegue construir premissas para trabalhar". A visão do gestor é que, assim como ocorreu na eleição passada, os candidatos tendem a evitar discussões mais detalhadas sobre economia durante a campanha. "Ninguém cria expectativa de melhora. Fica todo mundo no mais do mesmo".
Paradoxalmente, justamente por haver tão pouca expectativa positiva incorporada nos preços, qualquer "surpresa favorável", segundo os gestores da Franklin Templeton, pode gerar uma reação expressiva do mercado. "Qualquer surpresa positiva pode ser muito poderosa para a formação de expectativas."
IA e Estados Unidos continuam atraindo capital
Se o Brasil sofre pela falta de uma narrativa de crescimento, os Estados Unidos vivem a situação oposta.
De acordo com Daniel Popovich, portfolio manager da Franklin Templeton Investment Solutions, boa parte do capital que deixou mercados emergentes voltou a perseguir a tese de inteligência artificial. "Desde o choque de energia e os eventos geopolíticos recentes, vimos uma retomada muito forte do tema de inteligência artificial. Muito capital voltou para a Ásia e para os Estados Unidos".
Mesmo com a bolsa americana cara em termos históricos, o mercado ainda atribui prêmios elevados às empresas ligadas à IA, de acordo com Popovich. "Existe uma discussão se esse preço é justificado ou não, mas quando você olha as bolsas ao redor do mundo, a maior parte delas está negociando em patamares historicamente mais altos".
Ainda assim, a Franklin mantém preferência por ações americanas, embora tenha adotado uma postura mais cautelosa em relação ao setor de tecnologia. "Nós somos muito positivos com tecnologia no longo prazo. A questão é que o nível de preços hoje exige cautela".
Segundo Popovich, os investimentos bilionários realizados pelas gigantes de tecnologia ainda precisam se traduzir em geração de caixa suficiente para justificar as avaliações atuais. Mas o gestor destaca que a situação é diferente da bolha da internet dos anos 2000, porque os investimentos estão sendo liderados por empresas altamente lucrativas, com balanços sólidos e capacidade comprovada de execução.
"Existe uma necessidade de materialização de muitos investimentos que estão sendo feitos. É uma aposta que está bastante cara hoje. Temos preferência por Estados Unidos, mas sem pesar demais a mão em tecnologia. Não é por não ver o lado positivo, mas por cautela na tomada de risco".
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