Por que o CDI ainda não morreu — e o IPCA+ nunca esteve tão atraente

Por Rebecca Crepaldi 17 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que o CDI ainda não morreu — e o IPCA+ nunca esteve tão atraente

Mais do que ser “fã” de um indexador, é necessário entender o cenário. O impulso é olhar somente para o número maior. Afinal, se um paga 14,25% e o outro algo próximo de 13%, seria óbvio ir no preço de vitrine mais alto. Mas a dinâmica nos investimentos não fucionam assim. É necessário olhar o prazo, os objetivos e o cenário macroeconômico.

Nesta quarta-feira, 17, o Comitê de Política Monetária (Copom) deve cortar a Selic para, justamente, a casa dos 14,25%. A expectativa é que a principal taxa de juros da economia brasileira termine o ano em 13,75%. Já o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) alcançou, em maio, um acumulado de 4,72% nos últimos 12 meses — e, no Boletim Focus, há a expectativa que termine 2026 em 5,30%, a 14ª revisão altista.

Com a Selic em queda e o IPCA em alta, será a hora de trocar os títulos atrelados ao CDI — que acompanham a Selic — pelos de inflação? Especialistas ouvidos pela EXAME dizem que tudo depende do prazo de alocação. Entretanto, uma coisa é certa: a queda da Selic em 0,25 ponto percentual (p.p.) ainda não é significativa o suficiente para deixar o CDI de lado, principalmente no curto prazo.

O IPCA+ virou o novo queridinho?

Pressão inflacionária, incertezas com a dívida pública, desconfiança com o fiscal e ano eleitoral levaram o Tesouro IPCA+ 2032 a pagar IPCA + 8,36% na semana passada. Essa taxa é a maior desde a crise de 2008, quando o tesouro pagava mais do que 9%. “É um patamar fora do comum”, aponta Rafael Winalda, especialista em Renda Fixa do Inter.

Daniel Borges, CEO da Route Investimentos, também acrescenta no combo a resiliência da economia americana e o regime de 'higher for longer' (juros elevado por mais tempo) do Federal Reserve (Fed, banco central americano) que puxam as taxas globais para cima. “Essa combinação força o Tesouro a elevar os rendimentos tanto dos prefixados quanto o IPCA+ para conseguir rolar a dívida”, diz.

Segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto investimentos, se a Selic continuar caindo, tende a ser maior a vantagem de quem garantiu uma taxa real elevada por vários anos em IPCA. “O ponto de virada costuma surgir quando o mercado começa a enxergar um ciclo mais consistente de queda da Selic, pois quanto menor a expectativa para os juros futuros, maior tende a ser o valor de travar taxas reais elevadas”, afirma.

Mas e o CDI?

Em levantamento da Economatica a pedido da EXAME, com base nas projeções do Boletim Focus, o cenário para os próximos anos é o seguinte:

Na prática, quem aplicar R$ 10 mil em um investimento atrelado a 100% do CDI terá R$ 11.375,00 ao fim de um ano (retorno de 13,75%) e R$ 16.995,48 em cinco anos (69,95%).

No IPCA + 8%, os valores seriam R$ 11.372,40 e R$ 17.888,53 — rentabilidades de 13,72% e 78,89%, respectivamente.

No curto prazo, os retornos são praticamente equivalentes; no longo, o IPCA+ leva vantagem clara.

Ou seja, não quer dizer que o CDI não tenha o seu valor. Os dois são excelentes alternativas, a diferença está no horizonte de tempo, explica Winalda. “O pós-fixado historicamente entrega muito bem no curto prazo, sendo ideal para quem tem necessidades de liquidez ou perfil mais conservador. Mas o jogo muda no longo prazo: em janelas superiores a 3 a 5 anos, o IPCA+ tende a superar o CDI, justamente por conta da nossa inflação estruturalmente elevada.”

“O investidor começa a sentir uma perda mais relevante de atratividade do CDI quando os juros passam a convergir para níveis próximos de 9%, 8% ou menos”, diz Lima. Por isso, para o curto prazo, a preferência é o CDI, já que oferece menor volatilidade e a liquidez costuma ser superior. Mas no longo prazo, apostar no IPCA+ agora pode ser uma boa oportunidade. “Existe uma boa chance de olharmos para frente e percebermos que essas taxas foram uma oportunidade difícil de encontrar novamente.”

Porém, o longo prazo não pode ser tão longo. Borges aponta que o investidor deve evitar alocações de 100% para acima de 2045 sem reserva de liquidez, devido ao risco de marcação a mercado no curto prazo caso as taxas continuem subindo antes de estabilizar. “O investidor deve focar no 'feijão com arroz' bem feito: diversificação em títulos com vencimentos intermediários que capturam o juro alto sem exposição total à incerteza política de longo prazo”, comenta.

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