Por que o El Niño preocupa produtores de milho e de carne de frango
A avicultura brasileira segue operando em um ambiente favorável no curto prazo, sustentada por custos de produção controlados e demanda aquecida. Mas a confirmação de um episódio de El Niño forte a partir de novembro de 2026 adiciona uma nova camada de preocupação para o setor, especialmente pelo potencial impacto sobre a produção de milho, principal insumo da ração animal.
Segundo análise do Itaú BBA, o cenário atual ainda é positivo para os produtores de aves. O avanço do milho de segunda safra reduziu o risco de pressão sobre os preços do cereal no segundo semestre, contribuindo para a manutenção das margens da atividade.
A combinação entre custos mais baixos e consumo resiliente tem sustentado a competitividade da proteína de frango nos mercados doméstico e internacional.
Apesar do ambiente favorável no presente, as perspectivas para 2026 exigem atenção. “Os riscos aumentaram de forma relevante com a confirmação de um El Niño, que pode ser de forte intensidade e que impõe desafios importantes à janela de plantio do milho”, diz o banco.
Na semana passada, a NOAA confirmou a formação do El Niño para este ano, com 63% de probabilidade de um evento muito forte entre novembro e janeiro.
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, alterando padrões de vento e a circulação atmosférica. No Brasil, seus efeitos variam entre regiões e culturas agrícolas.
A preocupação está relacionada principalmente à possibilidade de interrupção precoce das chuvas em importantes regiões produtoras do Centro-Oeste, Norte e Nordeste.
O relatório do Itaú diz que o fenômeno climático pode agravar desafios já existentes, como margens mais comprimidas diante da alta dos custos de produção observada nos últimos anos.
Para a avicultura, qualquer impacto relevante sobre a oferta de milho tende a ser acompanhado de perto pelo mercado, uma vez que a alimentação representa a maior parcela dos custos de produção das granjas brasileiras.
Mesmo diante das incertezas climáticas, a expectativa para os próximos meses permanece relativamente positiva.
“As condições para a produção de aves permanecem favoráveis nos próximos meses, tanto pelo lado dos custos quanto pelas perspectivas positivas de demanda”, afirma o Itaú BBA.
No mercado doméstico, a carne de frango continua beneficiada por sua competitividade em relação à carne bovina. Esse diferencial de preço contribui para a manutenção do consumo e ajuda a absorver parte da produção adicional.
Além disso, o crescimento das exportações segue dando suporte ao setor. Ainda assim, o aumento da produção nacional deve manter a disponibilidade interna em níveis elevados.
Para o Itaú BBA, esse equilíbrio entre demanda firme e oferta abundante tende a limitar movimentos mais expressivos de alta nos preços do frango.
Até maio deste ano, as exportações brasileiras de carne de frango acumulam 2,453 milhões de toneladas, alta de 9% em relação ao mesmo período de 2025. Em receita, o crescimento acumulado alcança 11,3%, com US$ 4,714 bilhões nos cinco primeiros meses de 2026, segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
União Europeia e a carne
Outro ponto de atenção para a cadeia avícola é o ambiente regulatório internacional. A decisão da União Europeia de restringir a entrada de carnes brasileiras, incluindo a de frango, em meio a questionamentos relacionados ao uso de antimicrobianos, amplia o debate sobre rastreabilidade e padrões sanitários.
Embora o bloco europeu não seja o principal destino das exportações brasileiras em volume, sua relevância como referência regulatória preocupa o setor.
“A UE não é o principal destino em volume, trata-se de um mercado relevante em valor e referência sanitária, o que amplia o risco reputacional e pode abrir espaço para concorrentes”, diz o relatório.
Os números mostram que, em 2025, a União Europeia respondeu por 4,5% das exportações brasileiras de carne de frango. Ainda que a participação seja relativamente pequena, especialistas avaliam que o episódio reforça uma tendência estrutural de maior exigência dos compradores internacionais.
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