Por que o fim das tarifas de Trump deve favorecer a soja do Brasil na China
A suspensão das tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela Suprema Corte americana coloca em xeque o acordo comercial com a China e deve abrir ainda mais espaço para a soja brasileira.
Segundo analistas ouvidos pela EXAME, o governo chinês pode ficar menos inclinado a fechar uma nova grande compra de soja dos EUA — movimento que Trump vem anunciando há semanas como parte do avanço nas negociações com o país asiático.
“O que Trump vinha fazendo era pressionar a China ao máximo. Agora a pergunta é: isso tornará a China menos propensa a receber os embarques de soja? Hoje, os Estados Unidos continuam mais caros do que o Brasil”, afirma Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Consultoria.
Para o analista, como o acordo foi uma saída “forçada” por Trump para ampliar as exportações americanas em meio à pressão do agro dos EUA, “não há mais razão econômica clara para a China priorizar a soja norte-americana”.
Na sexta-feira, 20, a Suprema Corte deliberou que Trump não tinha a autoridade que alegou para impor parte de suas tarifas. Por 6 votos a 3, o tribunal concluiu que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) não autoriza o presidente a instituir as taxas.
No ano passado, as exportações americanas de soja para o país asiático recuaram de forma acentuada em meio à guerra comercial iniciada por Trump.
Como resultado, o Brasil ampliou seus embarques para a China, com exportações que somaram 87 milhões de toneladas. Já os Estados Unidos venderam cerca de 12 milhões de toneladas — bem abaixo da média histórica, próxima de 25 milhões.
A Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) projeta que o Brasil exporte 114 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26, das quais pouco mais de 75 milhões de toneladas devem ter a China como destino.
Para a safra 2026/27, os EUA projetam produção de aproximadamente 121 milhões de toneladas de soja, com exportações estimadas em 46,3 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
A China já adquiriu 12 milhões de toneladas de soja americana, cumprindo sua parte no acordo comercial firmado em outubro, após meses evitando compras do produto dos EUA.
A estatal Sinograin chegou a realizar leilões públicos para abrir espaço aos embarques americanos, mesmo diante da expectativa de uma safra recorde no Brasil, com preços mais competitivos.
“A soja americana está muito mais cara para o comprador chinês, especialmente quando comparada à origem brasileira. A diferença de preço no porto é significativa, o que reduz a competitividade dos EUA”, afirma Rafael Silveira, analista da Safras & Mercado.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima a safra brasileira em 178 milhões de toneladas, alta de 3,8% em relação à temporada anterior.
“Do ponto de vista estritamente econômico, a soja americana não parece atrativa para a China neste momento, principalmente durante a colheita brasileira, quando a oferta do Brasil tende a ser mais competitiva”, diz Silveira.
Sem as tarifas como instrumento de pressão, a soja americana tende a ter ainda mais dificuldade para competir com o Brasil, cuja safra em fase de colheita aumenta a competitividade do grão no mercado internacional.
“A soja brasileira tende a permanecer mais barata nos portos chineses ao longo de 2026, sustentada por uma safra recorde e por uma estrutura logística consolidada. Os compradores chineses seguem orientados por critérios econômicos, priorizando origens com melhor relação custo-benefício”, afirma Cogo.
Agro dos EUA
O cenário amplia a volatilidade para os produtores americanos, que enfrentam o quarto ano consecutivo de lucros baixos ou negativos. A renda agrícola também deve recuar neste ano, em meio à pressão de custos e à incerteza no comércio exterior.
Dados do Ag Barometer, levantamento da Universidade de Purdue em parceria com o CME Group, mostram que agricultores dos EUA estão preocupados com a competitividade das exportações de soja diante do avanço dos embarques brasileiros.
Ao mesmo tempo, cresce a dependência de crédito. Pesquisa do Federal Reserve (Fed) indica que os empréstimos agrícolas avançaram 40% no último trimestre de 2025.
O valor médio das operações foi 30% superior ao do ano anterior, sinalizando que produtores estão recorrendo a financiamentos maiores para cobrir despesas operacionais.
Entidades do setor também reagiram à decisão da Suprema Corte. A Federação Americana de Escritórios Agrícolas (AFBF), maior organização de representação rural do país, afirmou que os produtores compreendem os esforços do presidente em usar tarifas para buscar condições comerciais mais equilibradas.
“Infelizmente, as interrupções no comércio e a queda nos preços das commodities criaram dificuldades adicionais para os agricultores, que já enfrentavam inflação elevada e preços agrícolas em baixa em 2025”, disse o presidente da AFBF, Zippy Duvall, em comunicado.
Já a National Farmers Union (NFU), que representa mais de 230 mil famílias de agricultores, adotou tom mais crítico.
“Agradecemos ao Tribunal por esclarecer a autoridade tarifária. No entanto, muitos agricultores e pecuaristas familiares já sentiram as consequências dessa agenda”, afirmou o presidente da entidade, Rob Larew.
Segundo ele, as tarifas elevaram custos de produção, prejudicaram mercados de exportação e provocaram retaliações contra produtos agrícolas dos EUA. “Em uma economia agrícola já frágil, a incerteza atingiu com mais força as operações familiares”, disse.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: