Por que o Ibovespa renova recordes mesmo com inflação e cautela no exterior

Por Clara Assunção 10 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que o Ibovespa renova recordes mesmo com inflação e cautela no exterior

O Ibovespa renovou máximas históricas pelo terceiro pregão consecutivo nesta sexta-feira, 10, superando pela primeira vez os 197 mil pontos, em um movimento que contrasta com um ambiente externo ainda instável e dados domésticos desfavoráveis.

Apesar da inflação acima do esperado e do desempenho misto das bolsas em Nova York, o principal índice da bolsa brasileira segue sustentado, sobretudo, por um fator central: o forte fluxo de capital estrangeiro.

De acordo com operadores do mercado acionário, o movimento tem sido determinante para explicar o descolamento do mercado brasileiro em relação a outros ativos globais.

Rodrigo Faria, COO e fundador da Ryo Asset, diz que o Brasil voltou a ganhar protagonismo nas carteiras internacionais.

"O Brasil está se tornando uma alocação estratégica no portfólio dos investidores estrangeiros. Estão aumentando alocação em emergentes, e o Brasil acaba pegando grande parte dessa alocação", afirma.

Faria destaca ainda que o diferencial de juros elevado no país amplia essa atratividade, impulsionando uma entrada relevante de dólares.

Em meio aos recordes na bolsa brasileira, o dólar à vista caiu para o menor nível desde 9 abril de 2025, ao fechar em R$ 5,06 na sessão desta quinta, 9, e tocar os R$ 5,007, na mínima do dia hoje.

Com a moeda americana mais fraca no cenário internacional e um movimento de rotação de portfólios, investidores têm reduzido exposição a mercados desenvolvidos e buscado oportunidades em emergentes.

Nesse contexto, o Brasil se destaca tanto pelo tamanho quanto pela maturidade do seu mercado de capitais. Segundo Tales Barros, líder de renda variável da W1 Capital, a alta recente reflete uma combinação de fatores técnicos e macroeconômicos.

"O que estamos vendo recentemente é bastante sustentado por conta do fluxo estrangeiro, impulsionado por uma migração global para emergentes ante a fraqueza do dólar", explica. Barros ressalta que, mesmo em níveis recordes, a bolsa brasileira ainda apresenta valuations considerados atrativos, especialmente quando comparados a outros mercados.

Além disso, a redução, ainda que parcial, das incertezas geopolíticas tem ajudado a sustentar o apetite por risco.

Os mercados estão à espera das negociações entre autoridades americanas e iranianas neste final de semana no Paquistão. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse estar "otimista", mesmo ameaçando Teerã pela cobrança de taxas no Estreito de Ormuz.

A sinalização de negociações no Oriente Médio e a perspectiva de um cessar-fogo mais amplo entre Irã e Estados Unidos contribuíram para um ambiente mais previsível, o que, segundo Barros, é suficiente para estimular a tomada de decisão dos investidores.

"Não necessariamente precisamos de uma notícia boa ou ruim, mas de um cenário mais definido", afirma.

Esse pano de fundo ajuda a explicar por que o Ibovespa avança mesmo diante de fatores aparentemente negativos.

No Brasil, o IPCA de março subiu 0,88%, acima das expectativas, reacendendo preocupações com a inflação e a política monetária. O resultado do índice oficial da inflação brasileira também pressiona os os juros futuros na sua ponta curta, com a taxa de contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) saltando de 13,925% para 14,08%.

No exterior, o índice Dow Jones operava em queda, enquanto o petróleo mantinha viés de alta, elementos que, em tese, pressionariam ativos de risco.

Ainda assim, o fluxo estrangeiro tem se sobreposto a esses ruídos. Felipe Sant’Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing, chama atenção para a magnitude relativa desse movimento.

"Parece muito grande para o Brasil, mas, para o investidor americano, é pouco. É uma diversificação básica de capital", diz. Segundo Sant’Anna, a entrada recente de recursos, que no mercado local tem grande impacto, representa apenas uma fração pequena do volume negociado em ações nos Estados Unidos.

Investidor local não acompanha alta da Bolsa

O especialista em investimentos também destaca que o investidor doméstico ainda não acompanhou esse movimento. "O local segue muito mais concentrado em renda fixa, enquanto o estrangeiro vem comprando bolsa", afirma.

Esse descompasso pode, inclusive, abrir espaço para novas altas, caso haja uma migração interna para renda variável, segundo os operadores.

Na mesma linha, Douglas Tuíra, especialista em investimentos do Grupo Nexco, aponta que o Brasil tem se beneficiado de uma melhora relativa na percepção entre emergentes. "O país apresentou entradas expressivas de recurso, enquanto seus pares tiveram saídas", afirma.

Tuíra também destaca o impacto indireto do petróleo mais alto, que pressiona a economia americana, aumenta incertezas e enfraquece o dólar, movimento que, por sua vez, favorece moedas e ativos de países emergentes.

Fluxo estrangeiro se mostra resiliente

Antes mesmo dos sinais de negociação, o desempenho do Ibovespa se mostrava resiliente à guerra. No primeiro mês do conflito, em março,  fluxo de capital estrangeiro para a bolsa brasileira continuou positivo e surpreendeu o mercado.

Segundo dados da B3, os investidores internacionais aportaram R$ 11,9 bilhões no mês, maior volume para um mês de março desde 2022, quando o fluxo foi de R$ 21,4 bilhões.

Os gringos responderam por 62,1% de todo o volume negociado na bolsa em março. Os dados da B3 mostram, contudo, que, embora os investidores internacionais tenham mantido aportes líquidos no país, o ritmo desacelerou de forma consistente ao longo dos últimos meses. Em janeiro, o saldo positivo foi de R$ 26,4 bilhões, enquanto fevereiro somou R$ 15,3 bilhões.

Ainda assim, no acumulado de 2026, o saldo líquido já atinge R$ 53,8 bilhões, a melhor marca de capital externo também desde 2022, quando o primeiro trimestre do ano somou R$ 65,3 bilhões em recursos estrangeiros.

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