Por que o maior projeto de mineração da história da Argentina está suspenso
Um projeto argentino de mineração chamado Vicuña, focado na extração de cobre, ouro e prata, está suspenso pelos próximos 30 dias devido a disputas legais por royalties, transporte e a participação de trabalhadores e fornecedores locais no projeto levantadas pela província de La Rioja, no oeste do país.
O projeto, que conta com investimentos externos da mineradora australiana BHP e da canadense Lundin Mining, totalizando US$ 7,1 bilhões entre 2027 e 2030, mas que poderá chegar a US$ 18 bilhões na próxima década, depende da infraestrutura de La Rioja para acessar os locais de mineração.
Julgando os termos do acordo injustos, em comparação às cidades e províncias vizinhas – especialmente à província vizinha de San Juan – La Rioja interditou a passagem para o projeto, exigindo partes da receita e maior participação de trabalhadores locais. Para esse fim, também não forneceu os certificados ambientais necessários para obras na província das quais o projeto depende.
“Em última análise, trata-se de uma disputa sobre a receita da mineração e a participação de trabalhadores e fornecedores locais em uma província com pouca geração de empregos no setor privado”, diz o Clarín, jornal argentino.
Parte da preocupação da província vem do fato de que La Rioja também não consegue atrair grandes empresas multinacionais de mineração, ao contrário de províncias vizinhas como San Juan, que ganharam considerável atenção do setor nos últimos anos.
O projeto Vicuña
O projeto visa a exploração de depósitos de ouro, cobre e prata de Filo Del Sol e Josemaría, na fronteira da província de San Juan com o Chile, e representa o maior investimento em mineração da história da Argentina.
A viagem da capital de San Juan até as minas demora 12 horas e exige veículos 4x4. Atualmente, é feita por meio do chamado ‘Corredor Leste’, enquanto o uso de estradas da província vizinha de La Rioja permanece interditado devido aos imbróglios burocráticos.
O corredor começa com um trecho de 260 quilômetros de estrada asfaltada, ainda assim sob o risco de deslizamentos de terra imprevisíveis, especialmente durante o verão, e termina suas últimas oito horas atravessando uma estrada de terra de mais de 200 km que se estende até a fronteira com o Chile.
O percurso perigoso, que aumenta gradualmente em altitude, tem a exigência médica da ingestão de 1 litro de água para cada 1.000 metros ganhos e uma ida ao banheiro a cada meia hora – condições necessárias para a saúde, mas insuficientes, por si só, para prevenir os males das altitudes elevadas.
A chegada ao acampamento Batidero, em uma região montanhosa a 4 mil metros de altitude, é acompanhada de uma consulta obrigatória à equipe médica do projeto, que verificará a pressão arterial, a temperatura corporal e os níveis de oxigênio no sangue, geralmente em torno de 82%.
Mesmo assim, é comum ter dificuldades para dormir a primeira noite no local, especialmente para trabalhadores que não estão acostumados a operar nessas condições, devido aos efeitos da hipóxia hipobárica, condição caracterizada pela deficiência de oxigênio nos tecidos, causada pela diminuição da pressão atmosférica em altitudes elevadas. Essa condição pode causar falta de ar, respiração excessivamente rápida, fadiga, fraqueza, tontura, náuseas e vômitos.
Cerca de 350 pessoas percorrem o trajeto de ida e vinda do acampamento na rotação semanal, totalizando cerca de 2.000 trabalhadores empregados diretamente no projeto.
O acampamento tem capacidade para 1.068 hóspedes simultâneos e conta com 552 quartos, um refeitório comunal, um quiosque de compras, uma academia 24 horas, jogos de tabuleiro e diversas televisões. Entre os 2.500 pratos servidos por dia e a manutenção do projeto, incluindo a de equipamentos, do acampamento e uma miríade de outras tarefas, um total de 12 empresas terceirizadas também participam de Vicuña, mesmo que não sejam relacionadas à mineração.
Durante o inverno, o ritmo de trabalho diminui drasticamente, já que as temperaturas nessas altitudes elevadas podem bater os 40 graus negativos.
O potencial do projeto atraiu o investimento de algumas das maiores empresas de mineração do mundo – os valores exatos são confidenciais, conhecidos por poucos políticos argentinos e apenas pelos principais executivos das empresas colaboradoras, mas estimativas já apontam para dezenas de bilhões de dólares investidos.
Com números assim, Vicuña já se classificaria entre os dez projetos de mineração com a maior quantidade de recursos do mundo. Além disso, o consórcio já concedeu um contrato de 40 milhões de dólares a duas construtoras locais para o desenvolvimento de dois novos trechos de estrada do novo ‘Corredor Norte’, que encurtará o tempo de viagem e contornará a província de La Rioja, que é problemática para o projeto.
Paralelamente, as empresas também investem em um projeto de transmissão de energia de alta tensão, destinado exclusivamente ao abastecimento das minas e do acampamento, que também incorpora energias renováveis.
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