Por que os EUA consideram que o tráfico de drogas é terrorismo?
Para os Estados Unidos, o tráfico de drogas é uma forma de terrorismo. Essa visão ficou clara em sua nova Estratégia Nacional de Contraterrorismo, divulgada em 6 de maio.
Nesta quinta-feira, 28, o Departamento de Estado anunciou que designará as facções PCC e CV como terroristas, o que abre espaço para que os americanos tomem mais ações contra elas, inclusive em território brasileiro.
No documento elaborado pela Casa Branca, são citados três principais tipos de terrorismo que os EUA irão combater. 'Narcoterroristas e gangues transnacionais" são o primeiro item, à frente de "terroristas islâmicos" e "extremistas violentos de esquerda, incluindo anarquistas e antifascistas".
No documento, o tráfico de drogas é citado como uma ameaça existencial. "Mais americanos morreram por resultado de drogas ilícitas trazidas ao país pelos cartéis do que todos os americanos em serviço mortos em combate desde 1945", aponta o documento.
Além disso, a Estratégia deixa claro que haverá mais ações nas Américas.
"Minha administração tem um foco sem precedentes em desmantelar as ameaças à nação americana em nosso hemisfério. Não permitiremos mais que os cartéis e gangues que envenenaram milhões de americanos operem livremente em nossa região ou contrabandeiem suas drogas, armas ou traficando mulheres e crianças para o nosso país", escreveu o presidente Donald Trump, no início do documento.
"No ano passado, designei corretamente os cartéis mortais como organizações terroristas e comecei a usar a força e o poder das forças armadas dos EUA para deter e destruir suas operações", afirma.
Diferenças entre terrorismo e tráfico
No entanto, especialistas apontam que o crime organizado atua de modo diferente dos terroristas. A definição tradicional de terrorismo é o uso da violência para aterrorizar uma população e tentar avançar uma pauta política, como a independência de um povo ou o fim de ataques, que não envolve necessariamente ganhos financeiros.
Já o tráfico de drogas não defende uma causa, mas geralmente busca apenas o lucro para seus integrantes.
Jorge Lasmar, coordenador da pós-graduação em Estudos de Terrorismo e Crime Transnacional da PUC-MG, explica que há diferença no combate ao terrorismo e ao crime organizado.
"Quando falamos de lavagem de dinheiro, queremos esconder a origem do recurso. Para isso, criam-se camadas, inserindo dinheiro em negócios lícitos para ocultar a origem", disse, em entrevista à EXAME, em março.
"No financiamento do terrorismo, o que se financia é qualquer atividade ou ato terrorista. Nesse caso é como se fosse uma lavagem de dinheiro ao contrário: na lavagem se esconde a origem; no financiamento do terrorismo se tenta esconder a finalidade", afirmou.
Ação militar, inteligência e corte de recursos
A estratégia nacional dos EUA aponta que o combate ao terrorismo e ao tráfico pelos EUA, especialmente nas Américas, se dará por três caminhos: mais ações militares, mais investigações de inteligência e bloqueios financeiros.
A estratégia ressalta que Trump autorizou dezenas de ataques militares contra barcos no mar sob suspeita de transportar drogas. Em muitos casos, os tripulantes foram mortos por tiros disparados à distância, sem chance de rendição. O governo americano diz que as ações reduziram o tráfico de drogas pelo mar, em direção aos EUA, em 90%.
"Continuaremos nossas campanhas militares e policiais contra todos os cartéis e gangues designados como organizações terroristas pelo Presidente. Ao mesmo tempo, continuaremos a visar suas finanças e linhas de suprimento para paralisar seus meios de produção e a movimentação de lucros", diz a estratégia.
Atuação em outros países
O governo americano afirma, ainda, que poderá agir em outros países mesmo sem aval dos governos locais.
"Faremos isso [o combate ao tráfico] em conjunto com os governos locais quando estiverem dispostos e aptos a trabalhar conosco. Se não puderem ou não quiserem, ainda assim tomaremos todas as medidas necessárias para proteger nosso país, especialmente se o governo em questão for cúmplice dos cartéis", aponta a estratégia.
Em seguida, é dado como exemplo o caso de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela. Ele foi preso em janeiro por militares dos EUA, que invadiram Caracas e o levaram a Nova York. Ele foi acusado de chefiar um cartel de drogas e perdeu o cargo, em um sinal claro de as ações americanas podem incluir até chefes de Estado.
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