Por que os 'short sellers' podem voltar ao radar de Wall Street
Após anos de forte valorização das ações, cresce em Wall Street o debate sobre o papel dos chamados short sellers — investidores que apostam na queda de determinados papéis.
Para alguns analistas, o momento pode marcar um retorno desse tipo de estratégia, que perdeu espaço em meio ao rali recente do mercado.
Entre 2022 e 2025, o índice S&P 500 — que reúne cerca de 500 das maiores empresas listadas nos Estados Unidos (EUA) — registrou retorno médio anual de cerca de 22%, segundo dados consultados pela Reuters.
O desempenho das ações tornou o ambiente especialmente difícil para investidores que operam "vendidos", ou seja, que operam a estratégia de lucrar quando o preço de um ativo cai.
Pressão em vendas a descoberto
Esse contexto pressionou algumas das casas mais conhecidas dedicadas à estratégia de venda "a descoberto", usada por esses investidores que apostam na queda das ações.
Nesse tipo de operação, o investidor vende ações que não possui, geralmente emprestadas, apostando que o preço do papel cairá.
Se a cotação de fato recuar, ele recompra os papéis por um valor menor, devolve ao proprietário original e fica com a diferença como lucro. Caso o preço suba, porém, o investidor precisa recomprar as ações mais caras.
De acordo com compilado de dados da Reuters, a gestora Kynikos Associates, fundada por Jim Chanos, encerrou seus principais fundos em 2023, citando dificuldades crescentes para o modelo de investimento que combina apostas na alta e na queda das ações (long&short, em inglês).
Antes disso, o investidor Bill Ackman, da Pershing Square Capital Management, já havia abandonado campanhas ativistas de venda a descoberto.
Em 2025, foi a vez de Nathan Anderson anunciar o fechamento da Hindenburg Research, uma das casas mais conhecidas por relatórios críticos sobre empresas listadas.
Reputação controversa
Historicamente, investidores vendidos costumam ser vistos como "vilões" por apostarem na queda de empresas, conforme analistas ouvidos pela Reuters.
Segundo análise do estrategista Marty Fridson à agência, essa percepção remonta a episódios históricos como o crash da Bolsa norte-americana em 1929.
Na época, o então presidente dos Estados Unidos, Herbert Hoover, acusou os vendedores a descoberto de contribuírem para aprofundar a crise ao pressionarem os preços dos ativos.
Críticas semelhantes continuam a surgir em episódios mais recentes.
Em março de 2025, a empresa de serviços de tecnologia Kyndryl Holdings reagiu duramente a um relatório negativo divulgado pela casa de pesquisa Gotham City Research.
A companhia afirmou que as acusações de práticas contábeis enganosas eram "deliberadamente enganosas" e teriam sido feitas para manipular o preço das ações.
Papel no equilíbrio do mercado
Na avaliação de Fridson, a aversão aos short sellers é compreensível, mas a ausência desse tipo de estratégia não necessariamente beneficia os investidores tradicionais.
Isso porque apostar na alta de uma ação que está muito acima do seu valor real pode gerar perdas significativas, e os investidores vendidos ajudam a pressionar os preços de volta a níveis considerados mais razoáveis, informou.
Alguns críticos argumentam que o próprio funcionamento do mercado já impede distorções extremas de preço. Para cada comprador há um vendedor, o que teoricamente funcionaria como mecanismo natural de equilíbrio.
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