Por que possível ataque dos EUA ao Irã mexe com mercados — e pode afetar o Brasil
A possibilidade de um ataque dos Estados Unidos ao Irã voltou ao centro das atenções dos investidores globais e já começa a deixar marcas nos mercados financeiros. Embora ainda não haja informações oficiais sobre a escalada da ofensiva americana contra a segunda maior nação do oriente médio, o aumento da pressão militar e as declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, elevaram o nível de incerteza.
Nesta quinta-feira, 19, Trump afirmou que é preciso "chegar a um acordo significativo" com o Irã, "caso contrário, coisas ruins podem acontecer", afirmou o republicano, citando um prazo de cerca de dez dias.
Segundo informações da CNN e do The New York Times, porém, o exército dos EUA já teria condições de realizar um ataque neste fim de semana. Ao mesmo tempo, há negociações em curso, e o envio de forças militares pode funcionar como instrumento de pressão diplomática.
Petróleo no centro da questão
O principal canal de transmissão da tensão para os mercados tem sido o petróleo. A escalada nas tensões levou os contratos às máximas de 2026 e recolocou o risco geopolítico no radar do setor de energia.
O contrato para abril do petróleo do tipo Brent, referência mundial, fechou em alta de 1,86%, a US$ 71,66 por barril na ICE, enquanto o WTI para marçp, mais usado nos EUA, avançou 1,90%, a US$ 66,43 por barril na Nymex, atingindo a cotação mais alta desde agosto de 2025.
O Irã possui grandes reservas de petróleo, mas enfrenta restrições às exportações por causa de sanções econômicas. Uma eventual mudança de regime poderia alterar a oferta global da commodity, aumentando a disponibilidade no mercado e pressionando os preços para baixo no médio prazo. Por outro lado, no curto prazo, a simples ameaça de conflito já adiciona um prêmio de risco às cotações.
Bolsas globais reagem com cautela
A aversão ao risco também atingiu as bolsas internacionais. Na Europa, o índice pan-europeu Stoxx 600 caiu 0,64%. O DAX, de Frankfurt, recuou 0,93%; o FTSE 100, de Londres, perdeu 0,55%; e o CAC 40, de Paris, cedeu 0,36%.
Nos Estados Unidos, a recuperação das ações perdeu força ao longo do dia. No fechamento, S&P 500 e o Nasdaq recuaram 0,28% e 0,31%, respectivamente, enquanto o Dow Jones caiu 0,54%. O mercado também acompanha o alerta do chefe da agência nuclear da ONU de que a janela para um acordo diplomático com o Irã pode estar se fechando.
Historicamente, tensões no Oriente Médio costumam provocar movimentos defensivos clássicos: fortalecimento do dólar, alta das commodities energéticas e migração para ativos considerados mais seguros.
O contexto atual, porém, é mais delicado, com a economia global ainda sensível a juros elevados e inflação, o que pode amplificar os efeitos de um choque adicional.
Bolsa brasileira sobe, mas país também é afetado por conflito
No Brasil, o principal reflexo imediato tem sido positivo para as petroleiras. Com a alta do petróleo, empresas do setor de energia avançaram no pregão desta quinta, com exceção da Raízen e da Vibra. As ações da Petrobras, Prio, Brava Energia, Cosan e Ultrapar subiram, com destaque para a Brava, que registrou ganhos superiores a 3%.
De acordo com Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, um eventual ataque pode afetar a bolsa brasileira sobretudo pela via do petróleo e da aversão ao risco.
"O eventual aumento da aversão ao risco pode reforçar a procura por ativos mais conservadores e interromper o fluxo favorável aos emergentes", afirma. Esse movimento, segundo Perri, poderia pressionar as cotações domésticas.
O economista acrescenta que, com impacto no câmbio, empresas com receitas dolarizadas poderiam se beneficiar pontualmente. Já companhias mais cíclicas e sensíveis a crescimento e juros tendem a reagir negativamente.
Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, explica que o peso da Petrobras no índice ajudou a sustentar o Ibovespa em dia de queda das bolsas na Europa e nos EUA. "Com o aumento das tensões no Irã o petróleo tem sido um forte ativo de especulação, impactando diretamente a valorização da Petrobras, que tem maior peso no Índice Bovespa e causa esse efeito geral", diz.
O especialista aponta um movimento de migração de investidores, com venda de ações de tecnologia nos EUA e busca por outros mercados, como o Brasil. Mas, a longo prazo, Praça diz que o impacto de um conclito geopolítico pode ir além do setor de energia.
Em uma guerra grande e duradoura, o agronegócio brasileiro — que mantém forte relação comercial com o Irã — poderia ser prejudicado de forma direta e negativa. As exportações do setor para o país do Oriente Médio totalizaram US$ 2,92 bilhões em 2025.
Dólar e risco de inflação
No câmbio, a tendência inicial seria de fortalecimento da moeda americana. Para Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, uma escalada do conflito tende a impulsionar o dólar no curto prazo.
"Porque isso acaba aumentando a aversão ao risco global e leva investidores a buscar ativos considerados mais seguros", afirma. Nesse ambiente, moedas emergentes como o real tendem a se desvalorizar, diante da possível saída de capital.
Quartaroli concorda que a alta do petróleo poderia beneficiar parcialmente o Brasil, por ser exportador da commodity, mas ressalta que, em momentos de tensão, o efeito predominante costuma ser a valorização do dólar e maior volatilidade cambial.
Mesmo a alta persistente do petróleo poderia elevar a inflação global. Diante desse cenário, o banco central americano poderia manter os juros elevados por mais tempo ou adiar cortes previstos.
"Nesse caso, essa valorização do dólar deixaria de ser apenas um movimento pontual de investidores buscando o ativo mais seguro, o 'Flight to Quality', que chamamos [no mercado financeiro], e passaria a refletir também fundamentos macroeconômicos, podendo durar mais tempo, especialmente se outras economias, inclusive os países emergentes, enfrentarem maior desaceleração e perda de confiança", afirma a economista.
Além disso, um petróleo mais caro pode afetar também a inflação no Brasil, alterando expectativas e projeções de juros.
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