Por que UE, China e EUA fecharam o cerco contra a carne brasileira

Por César H. S. Rezende 9 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que UE, China e EUA fecharam o cerco contra a carne brasileira

Primeiro foram as tarifas anunciadas pelos Estados Unidos. Depois vieram as cotas impostas pela China. Agora, a União Europeia decidiu restringir a entrada de produtos de origem animal brasileiros.

Para analistas ouvidos pela EXAME, os episódios fazem parte de um mesmo movimento de fortalecimento do protecionismo em um momento em que o Brasil amplia sua presença e competitividade no mercado global de proteínas.

Na sexta-feira, 5, a União Europeia oficializou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a exportar determinados produtos de origem animal para o bloco. A medida entra em vigor em 3 de setembro de 2026 e afeta carnes bovina e de frango, além de pescado, mel, tripas e outros produtos de origem animal.

“A carne brasileira é muito competitiva e relativamente barata. Alguns mercados tendem a criar barreiras protecionistas. Estamos vivendo em um mundo muito mais protecionista do que antes”, afirma Leandro Gilio, professor e pesquisador do Insper Agro Global.

Segundo ele, a redução da influência de organismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), abre espaço para iniciativas unilaterais de países e blocos econômicos. O resultado é um aumento das restrições por meio de tarifas, cotas e exigências regulatórias.

Os números do setor reforçam essa avaliação. Nos últimos dez anos, as exportações brasileiras de carne bovina cresceram 150%, passando de 1,4 milhão para 3,5 milhões de toneladas. Em valor, os embarques avançaram cerca de 200%, de US$ 6 bilhões para US$ 18 bilhões, consolidando o Brasil como o maior exportador mundial de carne bovina, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).

Apesar de enxergarem um pano de fundo protecionista comum, os especialistas ressaltam que Estados Unidos, China e União Europeia adotaram estratégias distintas.

No caso americano, o cenário é mais pragmático. Segundo Fernando Henrique Iglesias, analista de pecuária da consultoria Safras & Mercado, a carne bovina brasileira acabou ficando fora das medidas tarifárias anunciadas na semana passada porque os Estados Unidos enfrentam uma forte escassez de oferta doméstica.

Entretanto, no ano passado, o país incluiu a proteína brasileira quando implementou tarifas contra produtos brasileiros. “Os Estados Unidos não vão impor uma carga tarifária pesada sobre o setor de proteínas de origem animal porque precisam manter um fluxo de importação”, afirma.

O país atravessa o menor ciclo pecuário dos últimos 75 anos e enfrenta dificuldades para recompor seu rebanho, o que torna a importação de proteína uma necessidade econômica e também uma ferramenta para conter a inflação dos alimentos.

Já a China adotou uma postura diferente. Para Iglesias, as cotas e medidas de salvaguarda impostas às importações de carne bovina têm caráter claramente protecionista.

Em dezembro de 2025, o governo chinês anunciou tarifas adicionais de 55% sobre as importações de carne bovina de países como Brasil, Austrália e Estados Unidos caso os embarques ultrapassem determinadas cotas. A cota total para 2026 foi fixada em 2,7 milhões de toneladas. O Brasil ficou com a maior parcela desse volume: 1,1 milhão de toneladas, o equivalente a 41,1% do total.

“A medida de salvaguarda que a China impôs é uma medida protecionista, na essência da palavra, porque visa à proteção do sistema produtivo local”, diz.

Para Gilio, do Insper, Pequim busca equilibrar a dependência de fornecedores externos com a preservação da produção doméstica, considerada estratégica para a segurança alimentar do país.

“A China tenta estrategicamente balizar sua dependência internacional em alimentos. Um crescimento muito grande das importações de carne brasileira poderia gerar uma competitividade muito forte internamente”, afirma.

A preocupação chinesa ganha ainda mais relevância porque o país é o principal destino da carne bovina brasileira. Em 2025, os embarques para a China cresceram 23% e responderam por 48% de todo o volume exportado pelo Brasil, que somou 3,5 milhões de toneladas no período.

Na União Europeia, a justificativa oficial está relacionada às regras sobre o uso de antimicrobianos na produção animal.

O bloco afirma que o Brasil não apresentou documentação suficiente para comprovar o cumprimento integral das exigências estabelecidas pela legislação europeia. A decisão não está relacionada a problemas sanitários ou à qualidade da carne brasileira.

Para Gilio, embora exista um fundamento regulatório, a medida também reflete pressões políticas internas de produtores europeus. “A União Europeia tem um lobby muito forte dos pecuaristas para manter sua parcela de mercado e limitar a expansão de fornecedores externos, como o Brasil”, afirma.

O pesquisador lembra que a União Europeia já protagonizou outros embates comerciais envolvendo carnes e produtos agropecuários brasileiros. Mais recentemente, durante as negociações do acordo entre Mercosul e União Europeia, que entrou em vigor em 1º de maio, produtores rurais do bloco lideraram protestos e pressionaram governos locais contra a ampliação do acesso dos produtos sul-americanos ao mercado europeu.

O argumento era que os produtores brasileiros não estariam sujeitos às mesmas exigências ambientais, sanitárias e de bem-estar animal adotadas na Europa.

Para Maurício Nogueira, diretor da consultoria Athenagro, a pressão sobre a carne brasileira faz parte de um movimento antigo e está relacionada à elevada competitividade da pecuária nacional.

“Sempre fomos alvo de barreiras não tarifárias e de diferentes formas de pressão. Em grande parte, a produção brasileira assusta. Muitos países têm dificuldade de compreender o sistema tropical de produção que o Brasil domina e o quanto ele nos torna competitivos”, afirma.

Na avaliação do consultor, a medida europeia não chega a ser uma surpresa. “Isso já estava telegrafado há muito tempo. Havia um aviso claro sobre a necessidade de o Brasil se adaptar às exigências dos europeus”, diz.

A carne no agro

Na avaliação dos especialistas, a principal diferença entre os casos da China e da União Europeia é que, no mercado europeu, o Brasil ainda tem espaço para reverter a situação.

Segundo Gilio, a saída da lista de países autorizados não é definitiva. O desafio será comprovar aos europeus que os sistemas de controle e monitoramento brasileiros atendem aos padrões exigidos pelo bloco.

O principal gargalo está na rastreabilidade individual dos animais, tema que vem ganhando importância crescente nas negociações internacionais.

“O Brasil ainda tem muito a evoluir no rastreamento individual dos animais, desde o nascimento até o abate. É justamente nessa comprovação que a União Europeia está exigindo avanços”, afirma Gilio.

Apesar da restrição, Nogueira, da Athenagro acredita que a situação pode ser revertida. Segundo ele, o desafio está em demonstrar aos europeus que o país possui mecanismos para comprovar a conformidade da produção com as regras exigidas pelo bloco.

“O Brasil precisa apresentar protocolos que garantam a segregação da carne produzida sem o uso dos antimicrobianos questionados. Acredito que temos condições de atender a essas exigências e reverter esse processo”, diz.

Nesta segunda-feira, 8, o vice-presidente, Geraldo Alckmin disse que o governo brasileiro trabalhará para reverter as restrições impostas pela UE às exportações brasileiras de produtos de origem animal.

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