Por que Wall Street rejeitou os novos óculos da criadora do Snapchat

Por Da Redação 21 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que Wall Street rejeitou os novos óculos da criadora do Snapchat

A Snap apresentou ao mercado a sua mais nova e ambiciosa aposta em hardware: os óculos de realidade aumentada Specs. Anunciado pelo CEO Evan Spiegel durante a Augmented World Expo, na Califórnia, o dispositivo foi descrito pelo executivo como um avanço revolucionário, o "computador do futuro" para a era da inteligência artificial. O mercado, porém, reagiu com ceticismo. As ações caíram cerca de 8% no dia do anúncio e voltaram a recuar nos pregões seguintes.

O principal ponto de atrito com Wall Street foi o preço de US$ 2.195. O valor fica abaixo do Vision Pro, da Apple, vendido a US$ 3.499, mas é muito superior à linha de óculos inteligentes da Meta, que vai de US$ 379 a US$ 799. Anshel Sag, analista-chefe da Moor Insights & Strategy, disse à Reuters que o preço está "um pouco no limite superior" para o consumidor comum, embora reconheça que óculos de realidade aumentada completos sejam "extremamente difíceis e caros" de fabricar.

Analistas apontam que o valor também afasta o produto do público mais jovem, historicamente a base mais fiel do Snapchat. Enquanto rivais como a Meta apostam em parcerias para produzir óculos inteligentes mais leves e acessíveis, a Snap optou por embutir todo o processamento no próprio dispositivo. A estratégia resultou em um aparelho mais pesado e de design robusto, embora as lentes consigam transicionar automaticamente entre estados claro e escuro conforme a luminosidade do ambiente, segundo a Bloomberg.

O peso dos Specs na estratégia de sobrevivência da Snap

Apesar da recepção fria dos investidores, o desenvolvimento dos Specs é peça central da estratégia de longo prazo de Spiegel para garantir a independência da empresa diante de rivais como Meta e Google, apoiadas por negócios publicitários muito maiores. Segundo a Snap, o objetivo é criar uma plataforma de computação que se integre ao campo de visão do usuário, em um cenário pós-smartphone.

O projeto carrega um custo financeiro relevante. A unidade de realidade aumentada da empresa, transformada em subsidiária independente em janeiro, já consumiu mais de US$ 3,5 bilhões em investimentos, segundo a gestora ativista Irenic Capital Management, que estima ainda uma queima de caixa de cerca de US$ 500 milhões por ano só com o projeto. A separação societária buscava dar mais flexibilidade de capital à unidade e abrir espaço para investidores externos, sem pressionar diretamente o balanço da controladora.

A pressão da Irenic vem de março, quando a gestora, dona de participação de cerca de 2,5% nas ações classe A da Snap, enviou carta ao conselho argumentando que a companhia poderia valer pelo menos cinco vezes mais do que sua avaliação à época, de cerca de US$ 7 bilhões, caso fechasse ou vendesse a unidade de Specs e cortasse custos.

Spiegel rejeitou o pedido. "Embora os investidores possam querer mais lucratividade no curto prazo", disse à Reuters, a função da Snap é se concentrar no lucro de longo prazo e na construção da companhia. O executivo atribuiu parte da pressão de custos do produto à alta no preço dos chips de memória, mas disse esperar componentes mais baratos nas próximas gerações.

O resultado mais recente da empresa ajuda a sustentar essa postura. No primeiro trimestre, a receita somou US$ 1,53 bilhão, alta de 12% ante o mesmo período do ano anterior, com prejuízo líquido de US$ 89 milhões, Ebitda ajustado de US$ 233 milhões e geração de caixa livre de US$ 286 milhões. Ainda assim, se o preço dos Specs afastar o consumidor, a Snap pode seguir sozinha bancando os prejuízos do hardware, enquanto Meta e Apple avançam com dispositivos mais baratos ou mais conhecidos.

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