Porque a JBS e outros frigoríficos do Brasil estão na mira dos EUA
O Departamento de Justiça dos EUA anunciou nesta segunda-feira, 4, a abertura de uma investigação para apurar supostas violações das regras de concorrência na indústria de processamento de carne.
A ação atinge empresas brasileiras como a JBS e a National Beef, braço da Marfrig, além das americanas Tyson Foods e Cargill. O movimento ocorre em meio à crescente pressão sobre o setor por práticas de formação de preços.
A informação foi divulgada em coletiva de imprensa pelo procurador-geral interino Todd Blanche, que não apresentou detalhes adicionais sobre a investigação, mas afirmou que o órgão pretende avançar rapidamente. Além de Blanche, a secretária do Departamento de Agricultura, Brooke Rollins, participou da coletiva.
Nos EUA, o setor de proteína animal é altamente concentrado, o que tem levado autoridades a intensificar a fiscalização sobre práticas concorrenciais.
Rollins afirmou que essas empresas controlam cerca de 85% do mercado de processamento de gado nos EUA. “Esse nível de concentração disparou de apenas 25% em 1977 para 71% em 1992, e agora para impressionantes 85%”, escreveu no X (antigo Twitter).
“Devemos trabalhar para enfrentar isso e proteger nossos pecuaristas e consumidores”, disse. A concentração crescente é um dos principais alvos das autoridades reguladoras.
A investigação ocorre em meio ao aumento no preço da carne no país, que disparou no ano passado. Em julho de 2025, o preço da carne para churrasco atingiu, em média, US$ 11,88 por libra (454 gramas), ou quase R$ 130 o quilo, registrando alta de 9% nos seis meses anteriores, segundo dados do Bureau of Labor Statistics (BLS) dos EUA.
Em janeiro deste ano, um quilo de carne moída chegou a US$ 6,759 (R$ 35,10), segundo o Federal Reserve Economic Data, um aumento de 18% em comparação com o ano anterior.
Diante desse contexto, o presidente dos EUA, Donald Trump anunciou em dezembro passado o aumento das exportações de carne da Argentina, em uma tentativa de mitigar a alta de preços.
Preço da carne nos EUA
A disparada no preço da carne nos EUA se intensificou desde 2024. Por lá, o setor vive uma contração do ciclo pecuário, marcada pela redução do rebanho e menor oferta de animais para confinamento.
Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. O rebanho total de bovinos está no menor nível desde 1952, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar caixa.
Em 2025, a produção da proteína americana recuou 4% em relação a 2024, para 11,8 milhões de toneladas, o que fez o país perder o posto para o Brasil como o maior produtor mundial de carne bovina.
No outono passado, o USDA lançou um plano para apoiar pecuaristas na expansão dos rebanhos, incluindo maior acesso a áreas de pastagem. Ainda assim, muitos produtores seguem optando por vender os animais para abate, em vez de mantê-los para reprodução, diante de secas prolongadas e altos custos de insumos.
Mesmo com sinais recentes de recomposição, a recuperação é lenta e pode levar de dois a três anos entre o nascimento do bezerro e o abate. “Esse é um processo lento, pois leva de dois a três anos para criar um bezerro até o abate”, afirma Fernando Iglesias, analista de pecuária da Safras & Mercado.
Ao mesmo tempo, os EUA ampliaram as importações para equilibrar a oferta interna. Nos dois primeiros meses de 2026, o volume importado foi 13% maior que no mesmo período do ano passado. A expectativa é de que as compras externas alcancem 2,63 milhões de toneladas, quase 6% acima de 2025.
O avanço das importações tem sido impulsionado por fornecedores alternativos. Países como Paraguai, Argentina e Nicarágua mais que dobraram suas vendas para os Estados Unidos, contribuindo de forma significativa para o aumento do volume total, mostram dados do USDA.
O ambiente de oferta restrita e margens pressionadas também tem provocado reestruturações na indústria frigorífica. JBS, Tysoon Foods e Cargill anunciaram o fechamento de unidades industriais nos últimos meses.
Procurada, a MBRF disse que não comentará o tema. A JBS não respondeu a reportagem até o fechamento do texto.
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