Porto corta emissões em 24% e lucra R$ 1,1 bi em um ano de estratégia ESG
Há dois anos, as enchentes que atingiram mais de 80% do Rio Grande do Sul fizeram a taxa de sinistralidade das seguradoras na região saltar de 42,2% para 55,4%. Na época, foi o empurrão que faltava para a Porto estruturar o Regenera, sua estratégia de sustentabilidade para o ciclo 2025–2030.
Um ano após o lançamento do programa e com o primeiro relatório da estratégia publicado, a seguradora tenta responder com metas e dados o que uma empresa do setor pode fazer diante de um clima que não para de mudar.
A proposta desde o início era diferente do mercado: a agenda ESG não seria fixa à área de sustentabilidade. Ela seria inerente ao negócio, discutida entre todas as áreas e níveis. "A governança faz toda a diferença, porque são os executivos da companhia falando sobre essa estratégia, não só a área de sustentabilidade", explica Patrícia Coimbra, diretora de Gente e Cultura da Porto, em uma entrevista exclusiva à EXAME.
O resultado aparece na pesquisa interna: entre os 13.600 funcionários da companhia, mais de 90% disseram reconhecer o valor da estratégia de sustentabilidade para a sociedade e para o negócio.
Outro dado é que 64% dos executivos incluíram metas ESG nos seus contratos — por escolha própria. "Os executivos levantaram a mão e falaram: eu quero. Não foi algo obrigatório. Isso é a diferença. Não é uma agenda de sustentabilidade no negócio — é uma agenda de negócio", diz Coimbra.
As metas e o que foi entregue
A estratégia tem quatro pilares: capital humano e impacto social; estratégia climática e circularidade; produtos e soluções sustentáveis; e engajamento da cadeia de valor. O relatório de sustentabilidade 2025 traz os primeiros resultados.
Na diversidade, a Porto chegou a 25,21% de pessoas negras em liderança — a meta é 30% até 2030 — e a 43,92% de mulheres em cargos de liderança, com meta de 50%. Parte desses resultados deriva dos programas de aceleração de carreira que já resultam em promoções durante e ao final do ciclo.
Em investimentos sociais, foram R$ 16,6 milhões aplicados em projetos via Instituto Porto, superando a meta do ano — parte do compromisso de R$ 40 milhões até 2030.
Em produtos com impacto socioambiental positivo, a meta anual de R$ 1,71 bilhão foi superada: a Porto comercializou R$ 1,8 bilhão em seguros residenciais de ticket acessível, coberturas para frotas elétricas e produtos como o Porto Bairros, que leva planos de saúde a pequenas e médias empresas. A meta até 2030 é de R$ 13 bilhões nessa categoria.
Na circularidade, a Renova Ecopeças — área que promove a economia circular de peças automobilísticas, que completa 12 anos — registrou recorde com 3,4 mil veículos desmontados para reaproveitamento de peças.
Transporte limpo e escopo 3
A Porto reduziu em 24% suas emissões absolutas nos escopos 1 e 2 em relação à linha de base, com meta de 40% até 2030. Uma das principais alavancas foi a substituição da gasolina pelo etanol na frota própria: segundo o GHG Protocol, a combustão de 100 litros de gasolina gera 0,17 tCO2e, enquanto o mesmo volume de etanol emite apenas 0,0046 tCO2e — redução de 97,29% na pegada de carbono.
Mas o avanço considerado mais estratégico pela companhia foi outro: a Porto se tornou a primeira seguradora da América Latina a mensurar a categoria 15 do escopo 3, que mapeia as emissões da carteira segurada, financiada e investida.
"Medindo onde estamos, conseguimos ter planos de produto e de incentivo para mitigar emissão e fazer a transição ao longo do tempo", explica Coimbra. O próximo passo, agora com os dados em mãos, é definir as estratégias de mitigação e transição que derivam desse mapeamento.
Desenvolver a cadeia, não excluir
A Porto opera com mais de 100 mil CNPJs entre oficinas, corretores, prestadores e fornecedores parceiros. O quarto pilar do Regenera parte do princípio de que parceiros que ainda não têm maturidade em ESG devem ser desenvolvidos, não descartados dos planos da companhia.
"Todo esse plano se baseia nas pessoas, que precisam ser motivadas e engajadas para fazer essa mudança acontecer", diz Coimbra.
No primeiro ciclo do programa de responsabilidade na cadeia de valor, 695 parceiros passaram por avaliação e formações em gestão de resíduos, mudanças climáticas e direitos humanos. Os que mais evoluíram foram premiados com placas que garantem a sua participação e desenvolvimento no programa. "Vimos desde empresas pequenas até companhias enormes trabalhando para receber a nossa placa de reconhecimento", diz Coimbra.
Rosana Santos, especialista da área de sustentabilidade da Porto, explica que o desenvolvimento segue critérios de priorização — afinal, não é fácil engajar 100 mil CNPJs com a mesma profundidade ao mesmo tempo.
A avaliação considera volume de relacionamento e exposição a riscos ESG. "Tivemos empresas que se interessaram em fazer seu próprio inventário de emissões. Outras que elaboraram políticas internas de inclusão. Cada uma no seu nível de maturidade", conta.
Negócio que caminha junto
A Porto encerrou 2025 com receita total de R$ 22,3 bilhões em seguros e lucro líquido de R$ 1,7 bilhão. No primeiro trimestre de 2026, o lucro consolidado chegou a R$ 1,1 bilhão — alta de 36% na comparação anual. Mas o que os números escondem é que boa parte desse crescimento vem exatamente das frentes que o Regenera aposta, como acesso, inclusão e digitalização.
A Porto Saúde, que opera produtos como o Porto Bairros — classificado internamente como produto de inclusão por permitir que pequenas e médias empresas contratem planos de saúde por um valor acessível —, cresceu 27,7% em receita, chegando a R$ 8,5 bilhões, e atingiu 2 milhões de beneficiários entre saúde e odontológico.
A Porto Seguro registrou expansão de 49% no lucro, com 6,3 milhões de veículos segurados. O Porto Bank chegou a 1,1 milhão de contas digitais. A Porto Serviço realizou 2,8 milhões de atendimentos automotivos e outros tantos para residências e empresas, com destaque para o Porto Serviço Resolve, voltado a reparos abaixo da franquia — mais um produto desenhado para ampliar acesso.
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