Poupançudo às avessas: esquilo de R$ 116 milhões quer tirar britânicos da poupança

Por Ana Luiza Serrão 1 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Poupançudo às avessas: esquilo de R$ 116 milhões quer tirar britânicos da poupança

O governo do Reino Unido e alguns dos maiores bancos do mundo decidiram apostar em uma estratégia inusitada para mudar o comportamento dos investidores: gastar 20 milhões de euros, isto é, cerca de R$ 116,5 milhões, em um mascote.

A estrela da campanha é um esquilo de moletom chamado Savvy. A missão dele? Convencer os investidores do Reino Unido a tirar o dinheiro parado na poupança e investir em ações.

A Financial Conduct Authority (FCA), órgão regulador do mercado por lá, pontuou que existem sete milhões de pessoas no país com mais de dez mil euros parados no banco que poderiam estar rendendo na bolsa, de acordo com informações divulgadas pela CNBC.

O grande obstáculo para essa campanha, denominada Invest for the Future, é que o público britânico desenvolveu uma grande aversão ao risco após sucessivas quebras de mercado, como o estouro da bolha da internet e a crise de 2008, que acabou com fortunas.

Para a presidente da campanha e CEO de private bank no Barclays, Sasha Wiggins, o país tem uma ótima cultura de poupança, mas um abismo enorme quando o assunto é investir de fato, "com muitas pessoas ainda achando que investir não é para elas."

Brasil tem 'poupançudos'

Enquanto no Reino Unido a aposta é empurrar o investidor para a bolsa, no Brasil a estratégia é praticamente similar, também com o uso de mascotes para incentivar o hábito de guardar.

A Caixa Econômica Federal tem os personagens "Poupançudos", com uma linguagem simples que engloba gibi a jogo no Roblox, para ensinar organização financeira, consumo e planejamento.

Poupançudos: mascotes da Caixa Econômica Federal. (Caixa/Divulgação)

Cerca de nove personagens foram desenvolvidos pelo banco brasileiro, focados na personalização, inclusive com características "pessoais": gentil, cientista, boa-praça, gamer, entre outros.

A presença da campanha foi mais forte nos anos 2000, depois os poupançudos passaram um tempo fora do radar até retornarem repaginados, com formatos modernos e digitais.

O uso de mascotes funciona?

Nem todo mundo acredita que um personagem simpático seja suficiente para mudar esse cenário.

A head de finanças pessoais na PensionBee, Maike Currie, escreveu em análise para o The Times que o setor tem o hábito de criar marcas fofas para tentar parecer acessível, mas que isso raramente traz resultados concretos.

Ela relembrou o caso do "Workie", uma criatura peluda azul usada para promover a previdência automática que caiu no esquecimento. Na sua visão, o investidor quer ser dono de algo que conhece, e este é o caminho mais curto para atrair o público.

Workie: mascote criado para popularizar a previdência automática no Reino Unido. (Gov/UK/Divulgação)

Currie defende que ativos que as pessoas entendem, como a potencial abertura de capital (IPO, em inglês) da varejista Primark, seriam muito mais eficazes para as novas gerações do que qualquer mascote de pelúcia.

Quem está por dentro?

A iniciativa estreou na quinta-feira, 23, e contou com a participação de nomes de peso do mercado, como a plataforma britânica de poupança e investimentos, Hargreaves Lansdown, e a St. James’s Place, líder em gestão de patrimônio no Reino Unido.

O grupo também reúne as seguradoras Aviva e Legal & General; os bancos Barclays, NatWest, HSBC UK e Lloyds; as gestoras Schroders, Jupiter e Alliance Witan; a Bolsa de Londres; e casas estadunidenses como Fidelity, JP Morgan Personal Investing e Vanguard.

Campanha enfrenta críticas

A estratégia, no entanto, está longe de ser consenso dentro do próprio mercado financeiro. Plataformas como a AJ Bell e a Interactive Investor optaram por não aderir à campanha. Também há um debate se o marketing ataca o problema certo.

Isso porque, se o governo estivesse genuinamente interessado em encorajar o investimento, o fim do "imposto do selo" (stamp duty), cobrado na compra de ações, seria um incentivo muito mais potente, na avaliação de fontes ouvidas pela CNBC.

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