Praga do México, incêndio e greve na JBS: o retrato da crise da carne nos EUA
A crise da carne nos Estados Unidos deve se intensificar nos próximos meses. Além da praga vinda do México (conhecido como bicheira do Novo Mundo) e da greve de trabalhadores na JBS no Colorado, incêndios florestais de grandes proporções devastaram extensas áreas de pastagem em Nebraska.
O fogo já consumiu cerca de 313 mil hectares desde a semana passada — área equivalente ao tamanho do município do Rio de Janeiro —, segundo dados da Agência de Gestão de Emergências de Nebraska. A agência acrescentou que as causas dos incêndios ainda não foram determinadas.
O maior foco, o Morrill Fire, estava cerca de 67% contido na quinta-feira, 19, após ter sido identificado pela primeira vez em 12 de março. A área atingida corresponde a pastagens suficientes para sustentar cerca de 40 mil cabeças de gado, segundo o Departamento de Agricultura de Nebraska.
No final de fevereiro, incêndios também consumiram mais de 114 mil hectares no norte de Oklahoma e no sul do Kansas, segundo o Departamento de Agricultura, Alimentos e Florestas de Oklahoma — área equivalente a cerca de 114 mil campos de futebol oficiais, considerando aproximadamente um hectare por campo.
A situação adiciona — ainda mais — pressão ao setor de carne bovina dos EUA em um contexto de menor oferta de gado, aumento da demanda e, consequentemente, preços mais elevados.
O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) estima que o consumo doméstico de carne bovina aumente de 26,8 quilos por pessoa em 2025 para 27 quilos por pessoa neste ano, mesmo com os preços em patamares recordes.
Em janeiro, o preço da carne bovina e da vitela subiu 15% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Ainda assim, a projeção do USDA indica que, em 2026, os consumidores americanos deverão registrar o maior consumo per capita de carne bovina em mais de 15 anos.
Além disso, os EUA devem aumentar as importações da proteína neste ano diante da crise estrutural que atinge a pecuária local, segundo o USDA.
A última estimativa, divulgada em fevereiro, aumentou as compras externas para 2,53 milhões de toneladas, alta de 22,7 mil toneladas em relação ao relatório anterior, enquanto as exportações seguem projetadas em 1,1 milhão de toneladas.
Em 2025, a produção da proteína americana recuou 4% em relação a 2024, para 11,8 milhões de toneladas, o que fez o país perder o posto para o Brasil como o maior produtor mundial de carne bovina.
Em fevereiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, assinou uma ordem executiva para ampliar as importações de carne da Argentina — a expectativa é de que o aumento contribua para conter os preços no mercado doméstico.
A crise enfrentada pelos pecuaristas se intensificou nos últimos cinco anos. O setor vive uma contração do ciclo pecuário, marcada pela redução do rebanho e menor oferta de animais para confinamento.
Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões — o menor nível desde 1952, segundo o USDA.
A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar caixa.
O ambiente de oferta restrita e margens pressionadas também tem provocado reestruturações na indústria frigorífica, que fez Cargill, JBS Foods e Tyson Food fecharem fábricas.
Carne e política
Em meio a esse cenário, há uma questão política em curso. Um projeto de lei apresentado pelo líder democrata no Senado dos Estados Unidos, Chuck Schumer, propõe reduzir a concentração na indústria de carnes no país.
A proposta surge em um contexto de pressão política provocado pelos preços recordes da carne bovina e pela inflação dos alimentos às vésperas das eleições de meio de mandato, marcadas para novembro.
O projeto prevê limitar grandes conglomerados do setor a apenas um tipo principal de proteína — bovina, suína ou de aves — além de estabelecer regras mais rígidas para a concentração no mercado de carne bovina.
A iniciativa também busca restringir acordos de venda entre confinamentos de gado e frigoríficos, considerados por críticos uma forma indireta de controle da produção, e devolver à Comissão Federal de Comércio parte da autoridade antitruste sobre os mercados agrícolas, hoje concentrada no Departamento de Justiça.
O projeto ainda prevê medidas voltadas a empresas estrangeiras no setor de carnes que atuam nos EUA, como a brasileira JBS, que poderiam ser obrigadas a se desfazer de ativos no país.
A proposta também determina a realização de um estudo sobre outras companhias controladas por capital estrangeiro, como a Smithfield Foods.
O debate ocorre em meio a críticas recorrentes à alta concentração da indústria de carnes.
Nos EUA, os quatro maiores frigoríficos de carne bovina compram mais de 80% do gado produzido, enquanto um grupo de grandes processadores de suínos responde por cerca de dois terços das compras desses animais, segundo dados do USDA.
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