Preço do gás dispara mais de 30% com ataque no Irã e paralisação de Ormuz
Os preços do gás natural nas regiões da Ásia e da Europa registraram uma forte alta após a expansão dos conflitos no Oriente Médio envolvendo o Irã, que resultou na paralisação do transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz, uma das principais vias de escoamento de petróleo do mundo.
O valor do gás natural superou os 58 euros por megawatt-hora (MWh) na manhã desta terça-feira, 3, segundo dados do Dutch TTF Natural Gas Futures compilados no Investing.com. O preço avançava 31% por volta das 6h47. Na semana, acumulava variação de 88,74%.
A escalada atingiu um ponto crítico com a interrupção da produção de gás natural liquefeito (GNL) do Catar, após ataques iranianos contra a instalação de produção de Ras Laffan, considerada a principal infraestrutura do país para esse setor, de acordo com fontes ouvidas pelo Financial Times (FT).
A interrupção no fornecimento traz à tona o receio de uma crise energética similar à ocorrida em 2022, quando a redução dos fluxos de gás russo para a Europa, em decorrência da guerra na Ucrânia, provocou picos de preços que impactaram economias globais.
Dimensão do choque e comparação histórica
A perda anual de suprimento da Rússia foi de aproximadamente 80 bilhões de metros cúbicos, enquanto a crise atual no Oriente Médio com o fechamento do Estreito de Ormuz e a paralisação de dois campos de gás israelenses pode retirar cerca de 120 bilhões de metros cúbicos do mercado global.
Apesar do volume preocupante, o impacto real dependerá da duração do conflito, segundo analistas ouvidos pelo FT. Somente um conflito prolongado poderia ter um efeito comparável ao da guerra na Ucrânia, segundo a especialista da Argus Media, Natasha Fielding.
Até o momento, a alta de preços é considerada moderada em comparação ao pico histórico, tendo em vista que o benchmark europeu ultrapassou os 343 euros por MWh em 2022.
A importância estratégica do Catar
O Catar consolidou-se como o segundo maior player global de GNL, respondendo por cerca de 20% do suprimento mundial. Como o país possui poucos gasodutos, a vasta maioria de sua produção é exportada via navios especializados, o que torna vital a livre circulação por Ormuz.
Os analistas da FT indicam, ainda, que o GNL funciona como um definidor de preços marginal crucial. Qualquer evento que afete esse mercado repercute diretamente nos índices da Europa e da Ásia, explicou o chefe de análise de energia do grupo de pesquisa ICIS, Andreas Schroeder.
Conforme dados de rastreamento de navios da Kpler Insight citados por Schroeder, o Paquistão recebeu 99% de suas importações de GNL do Catar e dos Emirados Árabes Unidos em 2025, enquanto Índia e Bangladesh dependem da região para mais de metade de suas necessidades.
Na Europa, embora a dependência média do GNL catariano seja de 10%, países como a Itália importam cerca de um terço de suas necessidades desse fornecedor, o que levou o governo italiano a realizar reuniões de emergência com grupos empresariais, segundo os dados divulgados pelo FT.
Substituição de suprimentos no mercado
As informações mostram que a substituição do gás do Oriente Médio não é viável no curto prazo, uma vez que as plantas de GNL ao redor do mundo já operam em capacidade máxima. Diante da escassez, países como a China pediram a desaceleração do conflito para evitar danos ao crescimento econômico global.
O setor de pesquisa da S&P Global Energy prevê, ao FT, que alguns mercados possam retomar o uso de usinas a carvão caso os preços permaneçam elevados.
A pesquisadora da Universidade de Columbia, Anne-Sophie Corbeau, detalhou que novos projetos, como a instalação de Golden Pass nos Estados Unidos (EUA), devem entrar em operação de forma progressiva e demorarão a atingir a produção total. Paradoxalmente, a crise beneficia outros grandes produtores.
Exportadores dos EUA, o maior exportador mundial de GNL, estão obtendo margens elevadas devido à alta da demanda internacional. Como os contratos americanos costumam ser mais flexíveis em termos de destino, os comerciantes podem desviar cargas para mercados mais lucrativos.
Outros países como Noruega, Argélia e Azerbaijão também devem se beneficiar da restrição de oferta. Por outro lado, a Comissão Europeia, por meio de sua porta-voz Anna-Kaisa Itkonen, afirmou ao FT que, apesar do monitoramento, ainda não há uma situação de escassez ou emergência declarada no bloco.
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