Presidente da Petrobras: ‘O preço pode até cair com a abertura de Ormuz, mas não voltará tão cedo'

Por Layane Serrano 11 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Presidente da Petrobras: ‘O preço pode até cair com a abertura de Ormuz, mas não voltará tão cedo'

A escalada de tensões no Oriente Médio, com impactos diretos sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo global, recolocou o mundo em alerta energético. E, na avaliação da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, os efeitos dessa instabilidade devem ir além do curto prazo.

“O preço do petróleo internacional pode até cair com a abertura do estreito, mas ele não retornará a curto prazo para o patamar anterior”, afirma a executiva em entrevista exclusiva à EXAME.

A declaração resume um cenário instável que, segundo Chambriard, não começou agora. Desde a guerra entre Rússia e Ucrânia, o setor de petróleo e gás enfrenta um processo contínuo de desorganização das cadeias produtivas globais, com aumento de custos, gargalos logísticos e pressão sobre investimentos.

“Essa guerra muda muito toda a expectativa nossa em relação a petróleo e gás no Brasil”, diz.

Veja também: ‘Não contamos com desabastecimento de diesel’, diz presidente da Petrobras

Do choque de oferta à nova realidade de preços

O impacto mais imediato da crise geopolítica é a redução da oferta, seja por bloqueios logísticos, seja por destruição de infraestrutura energética. Isso pressiona diretamente os preços.

Chambriard relembra que, historicamente, pequenas variações na produção já eram suficientes para mexer com o mercado global. Agora, o risco envolve volumes muito maiores.

“Quando a OPEP alterava a produção em 300 mil ou 500 mil barris por dia, isso já mexia no preço. Imagina 20 milhões de barris sendo afetados”, conta.

A OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) é um organismo internacional e cartel, fundado em 1960, que une nações ricas em petróleo para coordenar políticas de produção e exportação. Com a crise entre Irã e Estados Unidos, aconteceu uma disparada recente do preço do petróleo, que saiu de cerca de US$ 60 para US$ 120 em um curto intervalo, além do aumento do risco de desabastecimento em diversos países.

Mesmo com uma eventual reabertura do estreito (que quase aconteceu nesta semana depois do anúncio de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã), o mercado deve permanecer pressionado. Isso porque parte da infraestrutura de produção e refino na região foi danificada, e sua recuperação leva tempo.

“Enquanto essas instalações não forem restauradas, o preço não voltará ao patamar anterior”, diz Chambriard.

Brasil ganha relevância, mas desafio é interno

Nesse cenário, o Brasil ocupa hoje uma posição mais confortável do que em crises anteriores. Diferentemente das décadas de 1970 e 1980, quando era fortemente dependente de importações, o país passou a figurar entre os maiores exportadores de petróleo do mundo.

“Atualmente, o Brasil exporta cerca de 2 milhões de barris por dia, sendo metade desse volume operado pela Petrobras”, diz a presidente.

Isso significa que, do ponto de vista do petróleo bruto, o país se beneficia de preços mais altos. Mas o desafio está nos derivados, especialmente o diesel, essencial para uma economia, como o Brasil, fortemente dependente do transporte rodoviário.

A Petrobras hoje responde por cerca de 70% da produção nacional de diesel e trabalha para ampliar esse número.

“Temos projetos para sair de 70% para 85% do fornecimento de diesel no Brasil”, afirma Chambriard.

A companhia também estuda, no horizonte de cinco anos, a possibilidade de produzir 100% do diesel e da gasolina consumidos no país, uma estratégia para reduzir a vulnerabilidade a choques externos.

Veja também: ‘O impacto no preço do gás de cozinha será zero’, diz presidente da Petrobras

As medidas para mitigar os efeitos do conflito internacional

Diante da escalada do conflito no Oriente Médio e da volatilidade nos preços internacionais do petróleo, o governo brasileiro, segundo a presidente, “tem sido bacana com a Petrobras” e tem adotado uma estratégia ativa para tentar blindar o consumidor dos impactos mais imediatos, especialmente no diesel, no gás de cozinha e no querosene de aviação.

No caso do diesel, a Petrobras produz cerca de 600 mil a 700 mil barris de diesel por dia. “Isso representa aproximadamente 70% do diesel consumido no Brasil”, diz a presidente.

Para conter a alta do preço da commodity, o governo federal adotou a Medida Provisória (MP) nº 1.340, de 12 de março de 2026, para ajudar especialmente com subsídios ao diesel importado.

Uma das principais ações foi a ampliação do programa de subvenção, que passou a oferecer um incentivo maior por litro importado, como forma de evitar repasses imediatos ao consumidor.

“Não estamos contando com desabastecimento de diesel. Acreditamos que a Petrobras é capaz de garantir que isso não ocorrerá, claro, com algum tipo de importação complementar”, diz.

Além do diesel, o governo também estruturou subsídios para o gás de cozinha (GLP), permitindo, segundo a presidente, neutralizar os impactos da guerra no preço final.

“A gente não precisa do leilão. A gente pode se beneficiar do subsídio do governo federal neste momento”, afirma a presidente em relação a um leilão realizado em março sobre o preço do GLP e que mexeu nas cadeiras da diretoria executiva.

Já no querosene de aviação, houve uma mudança na forma de reajuste: em vez de repassar variações mensais abruptas, a Petrobras passou a adotar uma média trimestral, reduzindo picos de aumento e dando previsibilidade às companhias aéreas.

“A gente não vai trabalhar com reajustes de preços frequentes. Vamos trabalhar pela média e observar tendências. Se estiver subindo, a gente sobe; se estiver descendo, a gente desce, mas num intervalo razoável para garantir estabilidade e evitar aflições para a sociedade”, afirma Chambriard.

Veja também: Petrobras tomba na bolsa, mas petróleo barato pode jogar a favor da empresa

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: