Presidente e candidato de esquerda questionam resultado da eleição da Colômbia
Bogotá - Iván Cepeda, candidato do governo à Presidência da Colômbia, questionou os resultados da votação no primeiro turno, realizada neste domingo, 31. Ele disse que há indícios de fraude em algumas seções e que não iria comentar o resultado até que a questão seja esclarecida.
Cepeda, de esquerda, chegou em segundo lugar, com 40% dos votos, e ficou atrás de Abelardo de la Espriella, de direita, que somou 43%, segundo a apuração oficial. O segundo turno será em 21 de junho.
"Há informações e indícios a respeito de um número indeterminado de seções eleitorais, que estamos verificando junto ao nosso mecanismo de segurança e observação eleitoral, para determinar exatamente quantas são e onde, segundo relatos iniciais, foram observados padrões de votação atípicos", afirmou, em um discurso no hotel Tequendama, a seus apoiadores, que esperaram quase duas horas por ele.
"Somente quando as comissões de apuração de votos tiverem esclarecido essa questão de forma completa, clara e rigorosa, é que comentaremos os resultados desta noite", disse.
O presidente Gustavo Petro também questionou o resultado dos votos. Em um post na rede social X, ele disse que 800 mil eleitores falsos foram incluídos na votação, que não estariam no censo do país.
A eleição colombiana foi acompanhada por diversos grupos de observadores internacionais, que acompanharam o processo de organização, votação e apuração.
Ataques a Espriella
Em seu discurso, Cepeda fez uma série de ataques ao rival. Ele chamou Espriella de "ladrão dos ladrões", por sua atuação como advogado que defendeu autores de grandes golpes e crimes, e disse que ele acabará com as medidas de proteção ao meio ambiente e às mulheres.
O senador também pediu que seja feita uma investigação sobre os recursos usados pela campanha rival em redes sociais.
Quem é Abelardo de la Espriella
Espriella, de 47 anos, é advogado e empresário milionário. Ele disputa a primeira eleição e se apresenta como candidato antissistema e patriota.
Ele criou um movimento, chamado Defensores da Pátria, passou a se identificar como tigre e promete uma mão dura para resolver os problemas do país. Espriella tem apoio do senador brasileiro Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Nas últimas semanas de campanha, Espriella cresceu nas pesquisas e se descolou de Paloma Valencia, a candidata da direita tradicional, criticada por não ter encontrado o tom da campanha.
Após a divulgação dos resultados, Paloma e o ex-presidente Álvaro Uribe endossaram Espriella.
Quem é Iván Cepeda
Cepeda, de 63 anos, é o candidato do presidente Gustavo Petro, o primeiro líder de esquerda a governar o país. Ele defende prosseguir com as reformas para aumentar direitos sociais, como o salário mínimo e o acesso à saúde.
Em 1994, seu pai, o deputado Manuel Cepeda, foi assassinado. Depois disso, ele se engajou na defesa dos direitos humanos e na busca por negociar a paz com guerrilheiros e grupos criminosos, uma estratégia que tem falhado nos últimos anos. Ele é senador desde 2014.
As propostas dos candidatos
A segurança pública é um dos principais temas da eleição. Segundo pesquisa feita pela Invamer/Caracol Noticias, a segurança é a principal preocupação dos colombianos, citada por 40,8%.
A Colômbia vive sua maior onda de violência em uma década. Em 2025, 14 mil pessoas foram mortas no país. Segundo relatório da entidade Médicos Sem Fronteiras (MSF), 221 a cada 100.000 homens morrem assassinados, quase dez vezes a mais do que no Brasil, que tem taxas em torno de 24,5 homens para cada 100.000. A média mundial é de 8,8.
A campanha também foi marcada por um assassinato. No ano passado, o senador Miguel Uribe, pré-candidato à Presidência, foi morto a tiros ao sair de um evento em Bogotá.
Ao ser eleito, o atual presidente, Gustavo Petro, adotou uma estratégia chamada de "paz total", que previa negociações com grupos criminais e guerrilheiros que voltaram à ativa após o acordo de paz com as Farc, em 2016.
Cepeda quer seguir nos esforços de diálogo e defende que o crime seja combatido via desmonte de suas redes financeiras.
Já Espriella, defende medidas firmes, como construir megapresídios onde os presos se alimentem a "pão e água" e fiquem "dez andares debaixo da terra", bombardear acampamentos de narcotraficantes com aviões americanos e eliminar o tribunal surgido do acordo de paz.
"A segurança é a bandeira principal dos candidatos de oposição, em particular porque têm o argumento de que essa degradação da segurança se deve ao fracasso do programa de Paz Total de Petro", diz Yann Basset, professor de ciência política na Universidade de Rosário, em Bogotá, que estuda a política colombiana há 20 anos.
"Isso afeta diretamente Iván Cepeda como candidato, porque ele foi o cérebro e também a pessoa que colocou em marcha este programa de negociação que, efetivamente, não resultou em nenhuma desmobilização de nenhum grupo", prossegue. "É muito difícil para ele porque toda a sua vida política foi construída sobre a ideia de paz."
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