Previsões para eleições americanas deste ano são pessimistas para Trump
Com um mandato que divide muito da política e da população dos EUA, o Partido Republicano do presidente americano, Donald Trump, enfrenta perspectivas difíceis para as midterms (eleições de meio de mandato) em novembro.
Apesar de não serem eleições gerais que definirão o cargo presidencial, as midterms ainda assim são importantes: com membros da Câmara dos Representantes servindo por dois anos, essas eleições intermediárias decidirão todos os 435 assentos da Câmara baixa americana e um terço dos assentos do Senado. Com o poder do presidente legalmente vinculado ao Congresso, uma maioria democrata nessas casas pode atrasar e impedir grande parte da agenda de Trump.
E uma maioria democrata é o que as pesquisas preveem. Além de incidentes políticos com Trump, como suas ameaças contra aliados na Otan de anexar o Canadá ou a Groenlândia, e a condução de operações militares na Venezuela e no Irã, armas clássicas republicanas agora estão sendo usadas por democratas: altas na gasolina e problemas imigratórios, duas pautas que, historicamente, são pontos fortes de mandatos republicanos.
Além disso, a guerra no Irã não só divide americanos eticamente, como também atrasa a chegada de commodities importantes, além do petróleo, como fertilizantes, o que preocupa fazendeiros – importante base eleitoral republicana, com cerca de 75% dos produtores rurais se identificando com o partido.
Com isso, o modelo da revista britânica The Economist prevê uma chance de 95% para que os democratas ganhem os três assentos na câmara baixa necessários para garantir a maioria, e 46% de chance para que o partido ganhe uma maioria no Senado também. Entre os eleitores já decididos, 53% disseram que apoiariam candidatos democratas ao Congresso, enquanto 47% defendiam os republicanos.
Preço da gasolina e deportações em massa – facas de dois gumes
Montagem com os símbolos dos partidos Democrata (burro) e Republicano (elefante) (Arte/Exame)
Historicamente, um preço baixo e constante da gasolina foi considerado um padrão e uma vantagem dos mandatos republicanos, que foram ostentados em campanhas presidenciais e para representantes do Congresso.
Agora, com o fechamento do Estreito de Ormuz, a média nacional dos preços da gasolina nos EUA bate os quatro dólares por galão (cerca de 19 reais por 3,7 litros), a maior alta desde que a invasão russa da Ucrânia provocou choques no mercado de petróleo em 2022, sob o democrata Joe Biden, que alimentou campanhas republicanas.
O disparo nos preços deixa republicanos, que fizeram campanha contra o ex-presidente democrata Joe Biden e foram inclusive eleitos com base nessa pauta, em uma posição de vulnerabilidade.
Já estão sofrendo ataques de democratas sobre o assunto, o que agrava ainda mais uma das preocupações centrais dos eleitores americanos – o alto custo de vida – conforme o preço da gasolina se soma ao alto preço de alimentos, moradia e saúde.
Democratas, tanto civis quanto congressistas, já aproveitam a vulnerabilidade. Em Michigan, considerado um “swing state” cujo apoio varia de partido a partido, dependendo das eleições, cidadãos democratas já organizaram protestos contra a guerra no Irã – iniciada pelo Partido Republicano sob Trump e diretamente responsabilizada pelo aumento do preço da gasolina – e contra o atual representante de Michigan no Congresso, Tom Barrett, republicano que se elegeu com promessas de reduzir o preço da gasolina.
As manifestações ocorreram em cidades pequenas no interior do estado e contaram com forte presença de fazendeiros, o que, novamente, constitui uma importante base eleitoral republicana.
A concorrente democrata de Barret, Bridget Brink, concorrerá para se tornar a representante de Michigan nas primárias de agosto, pouco antes das midterms. Caso ganhe a nomeação para representar os democratas de Michigan no Congresso, já prometeu cobrar de Barrett seu apoio à guerra e ao aumento dos preços da gasolina. Brink diz ainda que qualquer alívio nos impostos, proveniente da “Big Beautiful Bill”, um ato de Trump que reformou tetos para impostos, será ofuscado pelo aumento nos custos de vida em geral.
"Quando os republicanos dizem que vão cortar seus impostos, tudo isso se perde no aumento dos preços da gasolina, da saúde, dos alimentos e da moradia", disse ela à mídia local. "Vamos falar sobre o preço da gasolina toda semana, porque todos nós vemos e sentimos o impacto."
A campanha de deportações de Trump, considerada demasiadamente agressiva por uma grande parcela da população americana, também pode reverter uma ferramenta que ganha eleitores para o Partido Republicano – o controle imigratório – em outra arma para os democratas.
De acordo com uma pesquisa da Reuters, conduzida em conjunto com a Ipsos, cerca de 52% dos americanos correspondentes disseram que estariam menos inclinados a apoiar um candidato que apoia o método de Trump em imigração, enquanto apenas 42% disseram que apoiariam. Dentre pessoas que não se afiliam a nenhum partido, a proporção de oposição a Trump e aos candidatos que o apoiam nessa pauta sobe para 57%, enquanto o número de apoiadores cai para 32%.
Esses números pintam uma perspectiva preocupante para Trump e seu partido nas eleições de meio de mandato, já que congressistas republicanos apoiaram quase universalmente a abordagem de Trump em relação a imigrantes ilegais. No começo de seu segundo mandato, em janeiro do ano passado, cerca de metade dos americanos apoiava suas medidas propostas, cifra que caiu para 40% atualmente.
Além disso, deportações indiscriminadas arriscam levar uma parcela ainda maior da população contra Trump, com pesquisa da Reuters/Ipsos revelando que 76% dos americanos defendem que imigrantes ilegais – dado que não tenham passagem pela lei e que tenham um trabalho estável – deveriam ter caminhos para obter estadia legal nos EUA.
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