'Primal': a animação adulta que você não assistiu, mas deveria
O cinema vive uma nova Era de Ouro da animação. Se em 2024 vimos o fenômeno de Divertida Mente 2 se tornar a animação mais assistida da história — com faturamento de quase US$ 1.7 bilhão, 2025 consolidou o gênero como o verdadeiro dono das bilheterias globais. Da China veio o furacão Ne Zha 2 (US$ 2,2 bilhões), seguido por Zootopia 2 (US$ 1,8 bilhão). Até o streaming surfou a onda: Guerreiras do K-POP rompeu a barreira de meio bilhão de espectadores na Netflix e levou o Oscar de Melhor Animação para casa.
Nesse espaço fértil e em ascensão, Genndy Tartakovsky, o gênio por trás de clássicos como O Laboratório de Dexter e Samurai Jack, resolveu dobrar a aposta com Primal. A série animada é violenta, mas profundamente intimista, e traz entre 20 e 30 minutos de episódios sem diálogos. Está dentro do selo Adult Swim, de animações voltadas para adultos, da HBO Max.
A história acompanha a improvável amizade entre um homem neandertal (Spear) e uma tiranossaura (Fang). Ambos unidos pelo luto após perderem suas famílias em um mundo jurássico brutal. Em cada um dos episódios, o espectador é tragado por uma narrativa visceral de sobrevivência, depressão e conexão profunda, onde o som do vento e os grunhidos de dor substituem qualquer roteiro falado.
O nascimento de um desafio visual
A ideia de criar algo tão silencioso nasceu de uma observação atenta de Tartakovsky sobre o seu próprio público. Em entrevista à Casual EXAME, o diretor relembrou o impacto da última temporada de Samurai Jack, em 2017:
“Quando as pessoas me disseram as sequências que amavam no desenho, elas sempre citavam os takes sem diálogos, mais contemplativos. Então pensei: 'espera, eu poderia realmente fazer uma série composta por todas essas sequências visuais sem diálogo?' E daí nasceram os primeiros storyboards de Primal, que antes de serem dinossauro e humano, eram outros personagens. Mas a ideia estava lá”, explicou o animador.
O desafio era fazer com que o silêncio soasse natural. A escolha por um homem das cavernas foi o "clique" que faltava. “Eu queria que o 'sem diálogo' parecesse natural, certo? Alguém que não fala, mas fala. Eu pensei: ‘Oh, um homem das cavernas. Droga.’ Eles não têm linguagem e ainda podem grunhir. Porque você não quer que pareça estranho, tipo ‘por que ninguém está falando?’, como um filme mudo ou algo assim”, explica Genndy.
Mais que técnica, o sentimento
Atualmente em sua terceira temporada, Primal já não precisa mais provar que seu conceito funciona. Se no início havia a dúvida se o público entenderia a trama sem explicações verbais, hoje a confiança da equipe é absoluta. Para Tartakovsky, o foco nunca foi a proeza técnica da animação, mas sim a capacidade de gerar uma reação física no espectador.
“Comigo, realmente não é sobre as conquistas técnicas que podemos inventar. É realmente sobre a narrativa e o sentimento, certo? E se você pode assistir algo e ter um sentimento disso. (...) Eu acho que para mim, esse é o maior sucesso que posso fazer: você dizer ‘Oh meu Deus, eu me senti tão triste’ ou ‘eu não conseguia me mexer porque estava tão engajado’.”
A quebra do estigma "infantil"
A ascensão de animações adultas como Primal reflete uma mudança geracional. Durante décadas, o gênero carregou o estigma de ser exclusivo para crianças. Para Genndy, a internet e a sofisticação das produções ajudaram a derrubar essa barreira.
“Eu acho que essa geração, está tudo bem. (...) Agora cabe aos executivos perceberem, bem, sim, claro, filmes de animação familiares são sempre bem-sucedidos, mas há espaço para filmes de animação adultos? (...) A animação tornou-se mais sofisticada.”
Mesmo competindo com os orçamentos bilionários da Pixar e da Disney, Genndy Tartakovsky segue firme em seu propósito de contar histórias puras. Primal é a prova de que o "gancho emocional" — como a dor compartilhada entre Spear e Fang ao perderem seus filhos — é uma linguagem universal que não precisa de tradução, legendas ou dublagem. É cinema em seu estado mais bruto e, por isso mesmo, inesquecível.
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