Primeira investidora brasileira construiu carteira global em pleno século 19

Por Clara Assunção 9 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Primeira investidora brasileira construiu carteira global em pleno século 19

Hoje, milhões de brasileiros acompanham a bolsa de valores pelo celular e buscam diversificar seus investimentos em ações, fundos e ativos internacionais. A presença maciça de investidores pessoas físicas no mercado financeiro é relativamente recente no Brasil. Mas muito antes da popularização dos investimentos, uma brasileira nascida no interior do Rio de Janeiro já aplicava sua fortuna em empresas e ativos financeiros ao redor do mundo.

Nascida em 1850, em Vassouras, Eufrásia Teixeira Leite é considerada a primeira investidora brasileira. Economista e herdeira de uma das famílias mais ricas do ciclo do café, ela construiu uma trajetória incomum para a época ao aplicar seu patrimônio em ações, títulos e moedas em diferentes países, décadas antes da criação da própria bolsa brasileira.

Seu pioneirismo é reconhecido hoje por instituições como a B3 e pela Organização das Nações Unidas (ONU). Ao longo de mais de 50 anos, Eufrásia manteve uma carteira diversificada de investimentos em diferentes mercados internacionais, acumulando participação em centenas de empresas.

Da riqueza do café ao mercado financeiro

Eufrásia nasceu em uma família que acumulou grande riqueza durante o auge da economia cafeeira no século 19. Neta dos barões de Itambé e Campo Belo e sobrinha dos barões de Vassouras, ela cresceu em um ambiente diretamente ligado aos negócios do café.

Além das fazendas, a família também mantinha atividades financeiras. A Casa Teixeira Leite & Sobrinhos, empresa ligada ao clã, realizava empréstimos e operações de crédito dentro da própria cadeia econômica do café.

Após a morte dos pais, em um intervalo de dois anos, Eufrásia e sua irmã Francisca Bernardina herdaram uma fortuna estimada em 767 contos de réis, um dos maiores patrimônios privados do Brasil na época. Um ano depois, as duas ainda receberam outra herança dos avós.

Com o declínio econômico de Vassouras, provocado pelo esgotamento das terras agrícolas, parte da riqueza familiar passou a estar concentrada em ativos financeiros e notas promissórias. Em 1873, as irmãs decidiram vender parte dos bens e se mudar para Paris, que era um dos principais centros econômicos e financeiros do mundo naquele período.

Investidora internacional no século 19

Foi na capital francesa que Eufrásia iniciou sua trajetória como investidora. Em vez de direcionar o dinheiro para propriedades ou negócios tradicionais, ela optou por aplicar os recursos no mercado financeiro.

Seus primeiros investimentos foram em ações de empresas ligadas à Revolução Industrial, especialmente companhias que forneciam máquinas e tecnologias para as fábricas que impulsionavam o crescimento industrial europeu.

Ao longo das décadas seguintes, ela diversificou sua carteira de forma ampla. Investiu em empresas de diferentes países, operou com sete moedas e aplicou recursos em mercados como os de Nova York, Londres e Paris, que eram os principais centros financeiros do mundo naquele momento.

Registros históricos indicam que, ao final da vida, sua carteira reunia ações de quase 300 empresas. Além das ações, Eufrásia também aplicava em títulos públicos, debêntures e moedas estrangeiras.

Mesmo vivendo na Europa, manteve investimentos no Brasil. Entre os ativos estavam participações em bancos, como o Banco do Brasil e o Mercantil do Rio de Janeiro, além de indústrias têxteis, companhias ferroviárias e empresas que começavam a se consolidar no país, como a Antártica, que mais tarde faria parte da história da Ambev.

Sem filhos ou herdeiros diretos, ela decidiu destinar todo o patrimônio para obras sociais e educacionais em sua cidade natal.

Sua fortuna, estimada em cerca de 37 milhões de réis, financiou instituições importantes para Vassouras, como escolas, hospitais e centros de formação. Entre as iniciativas beneficiadas estão o Instituto Feminino, o Colégio Regina Coeli, o SENAI da cidade e o Hospital Eufrásia Teixeira Leite.

A antiga residência da família, a Casa da Hera, foi transformada em museu e se tornou um dos principais marcos históricos do ciclo do café no Sudeste brasileiro.

As mulheres na bolsa hoje

Mais de um século depois dos primeiros investimentos de Eufrásia, o mercado financeiro brasileiro começa a registrar uma presença feminina cada vez maior.

Levantamento da B3 mostra que as mulheres já representam 26,7% dos investidores em produtos de renda variável no país. Em fevereiro de 2026, cerca de 1,48 milhão de mulheres tinham posição na bolsa, em um universo total de 5,56 milhões de investidores.

O número de investidoras cresceu 8% em relação ao mesmo período do ano anterior, ritmo superior ao crescimento total do mercado, que foi de 5,5%.

Nos últimos cinco anos, a presença feminina na bolsa aumentou 83,4%, indicando uma participação cada vez maior das mulheres no mercado financeiro. A maior parte das investidoras tem entre 25 e 59 anos e vive na região Sudeste, que concentra 60,2% das mulheres com posição na bolsa.

Os dados também mostram diferenças no comportamento de investimento. A mediana do valor aplicado por mulheres é de R$ 3.034 por investidora, acima da mediana observada entre homens, que é de R$ 1.716.

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