Primeiro corte na Selic em dois anos: é hora de tomar mais risco?

Por Rebecca Crepaldi 20 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Primeiro corte na Selic em dois anos: é hora de tomar mais risco?

O primeiro corte na Selic depois de dois anos se concretizou. Na reunião desta quarta-feira, 18, o Comitê de Política Monetária (Copom), cortou a taxa de juros em 0,25 ponto percentual (p.p.). O corte, em menor proporção, já era esperado pelo mercado, que revisou suas expectativa com a escalada do conflito do Irã e dos EUA.

Desde junho de 2025, a taxa estava no patamar dos 15% e, agora, cai para 14,75%. Assim, o momento “marca uma inflexão importante na economia brasileira e sinaliza a transição de um ciclo de aperto monetário para um ambiente mais favorável ao crescimento”, explica Marcos Bassani, analista de investimentos e sócio da Boa Brasil Capital.

No entanto, o impacto dessa mudança não ocorre de forma imediata nem uniforme. Nos primeiros momentos do ciclo de queda de juros, o mercado ainda convive com incertezas sobre o ritmo dos cortes e sobre a trajetória da economia, o que tende a gerar volatilidade.

Mas a janela pode ser uma oportunidade para começar, de forma gradual, a tomar risco. Entretanto, é necessário entender que a taxa ainda está num patamar elevado, o que ainda é um grande atrativo para a renda fixa e, no curto prazo, isso continuará.

“À medida que o ciclo avança e os cortes se tornam mais previsíveis, a economia começa a reagir de forma mais consistente, favorecendo a migração gradual de recursos da renda fixa para a renda variável”, complementa.

Incertezas globais e necessidade de continuidade de cortes

Outro ponto de alerta é a incerteza global. O início do ciclo de cortes se materializa em um ambiente de escalada no nível de questões geopolíticas, que embute mais risco para os investimentos e compromete a visibilidade dos retornos futuros e a precificação dos ativos de qualquer natureza, pontua Jefferson Honório, sócio e gestor da Brio Investimentos.

Há quem se mostre mais pessimista com a tomada de risco. “Quando aconteceu uma queda de juros, por exemplo, em 2021, muita gente seguiu a linha de tomar mais risco na renda variável, mas a verdade é que foi uma péssima decisão, porque a renda variável estava cara, e o que se seguiu depois foi um período péssimo de retorno. Por mais que a renda fixa tivesse um retorno nominal baixo, ela foi a melhor classe de ativo por muito tempo”, comenta João Arthur, CIO da Suno Consultoria.

Luciano Boudjoukian França, sócio-fundador e gestor da Paramis Avantgarde, também enfatiza que a renda fixa continua atrativa, principalmente porque o ponto de partida dos juros ainda é elevado. Mesmo com o início do ciclo de cortes, o carrego real segue relevante em muitos papéis pós-fixados, prefixados e títulos atrelados à inflação.

Por outro lado, à medida que o mercado passe a enxergar continuidade no ciclo de queda da Selic e, principalmente, uma queda na parte mais longa da curva de juros, a renda variável tende a ganhar atratividade relativa.

“Não me parece um cenário de substituição total, e sim de portfólio mais balanceado.” O momento é híbrido: renda variável começa a ganhar espaço, mas renda fixa ainda está extremamente atrativa.

Quais ativos apostar?

A indústria de Fundos de Investimentos Imobiliários (FIIs), mais sensível aos juros. vê melhora mas expectativas com o primeiro corte na Selic.

“Ainda que o ciclo de cortes seja menor que o esperado há poucas semanas atrás, uma redução de juros impacta positivamente tanto o potencial de retorno dos ativos, quanto a precificação desses ativos dos fundos”, pontua Honório.

Na prática, o mercado ainda encontra ativos pagando dividend yields altos, porque vieram de um período de juros elevados.

“Mas nem todos os FIIs vão se beneficiar da mesma forma. A seletividade é crucial. Fundos com portfólios frágeis, alavancagem elevada ou gestão questionável tendem a continuar sofrendo, independentemente do movimento da Selic”, comenta Marcelo Rainho, sócio-fundador da inVista.

Na Suno, a visão é otimista para FIIs pela percepção de que os ativos estão baratos e com dividendos interessantes. “Nós gostamos, independente do cenário de queda da Selic ou não, mas é óbvio que se a Selic cair muito, se for para 8%, 9%,10%, isso favorece os fundos imobiliários”, destaca Arthur.

Fundos multimercados

Já os fundos multimercados enfrentaram um período desafiador durante a fase de juros elevados. No ano passado, esses instrumentos tiveram saída líquida de R$ 55,56 bilhões, segundo a Anbima. Agora, começam a retomar protagonismo, na visão de Bassani.

Com maior liberdade para atuar em diferentes classes de ativos, esses fundos tendem a se beneficiar de um ambiente macroeconômico mais dinâmico. França concorda: “Os multimercados podem voltar a encontrar um ambiente mais fértil, porque ciclos de inflexão monetária normalmente ampliam oportunidades. Ainda assim, é uma classe em que a dispersão entre gestores continua grande”.

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