Produtor rural deve sempre buscar crédito em dólar, diz CEO da Massey Ferguson
Ribeirão Preto - A Massey Ferguson, fabricante de máquinas agrícolas do grupo AGCO, não abre seus números, mas os indicadores do setor mostram uma piora de cenário. “O mercado caiu bastante”, diz Luis Felli, head global da companhia. O sinal mais recente veio da Agrishow 2026, principal feira da América Latina, que registrou queda de 11% nas intenções de negócios, a primeira retração em mais de uma década. Em entrevista, o executivo explica por que o setor entrou em compasso de espera — e como a empresa está reagindo.
Havia uma visão otimista para o setor de máquinas agrícolas neste ano. O que mudou para o negócio da Massey?
Havia uma expectativa de recuperação dos mercados globais, mas essa recuperação atrasou. No Brasil, a queda da taxa de juros está mais lenta do que o esperado. Além disso, a guerra no Irã trouxe muita incerteza no curto prazo, com aumento significativo nos preços de fertilizantes e diesel, o que faz com que o produtor adie investimentos e seja mais cauteloso. O mercado caiu bastante. Só no Brasil, houve uma queda de cerca de 17% nas vendas de máquinas no início do ano, apesar de termos ganhado participação de mercado. Nesse cenário, o foco é ser mais austero com despesas, sem comprometer investimentos em inovação.
Quais medidas a companhia tem tomado?
Um ponto é evitar que os concessionários operem com estoques elevados. Por isso, não vendemos tudo o que gostaríamos, e sim o que entendemos ser necessário. Se um concessionário vendeu dez máquinas, vendemos dez. Se a projeção de mercado indica estabilidade, ajustamos para oito. Se a perspectiva é de retração, reduzimos ainda mais. Essa disciplina é fundamental.
E como vocês têm se posicionado diante da restrição de crédito e do câmbio?
Recomendamos ao produtor rural, sempre que possível, buscar crédito em dólar. Pode parecer contraintuitivo em um primeiro momento, no entanto, é importante considerar que a principal receita do produtor, como no caso da soja, também é dolarizada. Ou seja, é possível casar a operação. Na prática, isso significa alinhar vencimentos e receitas: se há uma parcela em dólar a pagar em determinada data, o produtor pode vender sua produção naquele momento para cobrir o compromisso. Assim, se o dólar subir, a receita também acompanha esse movimento.
Mas no caso do pequeno produtor isso é inviável, certo?
Os pequenos e médios produtores têm uma realidade diferente daquela dos grandes. No caso da agricultura familiar, existe uma demanda importante por máquinas menores, com tíquetes mais baixos. Do ponto de vista financeiro, eles dependem mais de linhas como Pronaf e Pronamp, com taxas acessíveis. Eles têm dificuldade de utilizar estratégias como financiamento em dólar, então sua exposição ao crédito em reais é maior. A questão dos juros é ainda mais sensível para esse grupo.
Em novembro passado, a Massey anunciou um trator movido a etanol. Em que estágio está o desenvolvimento?
Avançou bastante. Os motores já estão desenvolvidos e disponíveis. Atualmente, acumulamos mais de 10.000 horas de testes. Continuamos avançando nos testes e no ajuste das curvas de desempenho, com previsão de lançamento para 2028.
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