Projeto cria “power bank” gigante para reaproveitar baterias de carros elétricos

Por Rafael Martini 19 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Projeto cria “power bank” gigante para reaproveitar baterias de carros elétricos

O avanço dos veículos elétricos no Brasil começa a abrir uma nova fronteira de desafios para o setor de energia: o destino das baterias quando elas deixam de servir aos carros, mas ainda preservam boa parte da capacidade de armazenamento. É nesse ponto que a Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc) decidiu se antecipar.

A companhia desenvolve, em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), uma solução móvel para reaproveitar baterias de veículos elétricos em aplicações no sistema elétrico. Na prática, o projeto funciona como uma espécie de “power bank” gigante montado sobre um semirreboque, capaz de levar energia a pontos estratégicos da rede em situações de manutenção, emergência ou aumento temporário de demanda.

Batizado de Celesc Energia a Bordo, o sistema utiliza baterias que já não são mais adequadas para uso automotivo, mas ainda preservam entre 70% e 80% da capacidade original. Essa fase é conhecida no setor como segunda vida das baterias. Depois de cumprir sua função nos veículos, elas podem ser reaproveitadas em sistemas estacionários ou móveis de armazenamento de energia, antes de chegarem à etapa final de descarte ou reciclagem.

O projeto nasce em um momento de forte expansão da eletromobilidade no país. Segundo dados da consultoria NeoCharge citados pela Celesc, a frota de veículos elétricos no Brasil saltou de 2.875 unidades em 2015 para 613.389 no ano passado. Em Santa Catarina, o crescimento foi de 223 veículos para 40.487 no mesmo período.

Esse avanço, ainda concentrado nos grandes centros e em consumidores de maior renda, tende a ganhar escala nos próximos anos com a ampliação da oferta de modelos, a entrada de novas marcas e a expansão da infraestrutura de recarga. Para o setor elétrico, a eletrificação da frota abre oportunidades, mas também impõe novas responsabilidades. Uma delas é justamente estruturar soluções para o ciclo completo das baterias, do uso nos veículos à destinação final.

O avanço cria uma equação ambiental ainda pouco resolvida no Brasil. Ao fim da vida útil, as baterias passam a exigir destinação adequada. Por conterem componentes químicos e metais, podem representar risco ambiental quando descartadas de forma incorreta. Estimativas internacionais apontam que o mundo poderá acumular mais de 20 milhões de toneladas de baterias descartadas até 2040.

A aposta da Celesc é transformar esse futuro passivo ambiental em ativo para o sistema elétrico. O conjunto de baterias está instalado em um semirreboque especialmente desenvolvido para o projeto, formando um Sistema Transportável de Armazenamento de Energia em Baterias, o STAEB. A estrutura poderá ser conectada às redes de distribuição de baixa tensão, em 220/380 V, e de média tensão, em 13,8 kV, por meio de transformador.

O protótipo tem potência de 150 kW e capacidade de armazenamento de 430 kWh. Na prática, isso significa autonomia para fornecer pelo menos três horas de energia, a depender do volume de consumo. Em números, o CELESC Energia a Bordo pode abastecer cerca de 100 casas por um dia ou até 10 casas por uma semana.

A estrutura poderá operar tanto em média tensão, como a das redes instaladas nos postes, quanto em baixa tensão, usada no fornecimento residencial. Com isso, o sistema ganha flexibilidade para atender desde situações pontuais em bairros e comunidades até demandas críticas em pontos específicos da rede elétrica.

Sustentabilidade com eficiência energética

Essa capacidade de deslocamento é um dos diferenciais do projeto. Em vez de depender de uma estrutura fixa de armazenamento, o sistema pode ser levado ao local onde a rede mais precisa de suporte. A lógica se aproxima de uma reserva móvel de energia, com aplicação potencial em regiões sujeitas a interrupções, áreas de difícil atendimento ou eventos de maior concentração de consumo.

O projeto também deve ajudar a responder uma das perguntas centrais sobre a economia circular das baterias: por quanto tempo elas ainda podem ser úteis depois de deixarem os veículos elétricos?

As baterias novas usadas em automóveis têm vida útil estimada entre 10 e 20 anos. Já o tempo de sobrevida das baterias de segunda vida é um dos objetos do estudo conduzido com o protótipo desenvolvido pela Celesc. Os resultados serão determinantes para avaliar a viabilidade de expansão do projeto.

“Estamos lidando com um desafio que tende a crescer rapidamente nos próximos anos. A destinação dessas baterias precisa ser tratada desde já”, afirma Edson Moritz, presidente da Celesc.

Na operação, o sistema poderá ser usado em situações de manutenção programada da rede, reduzindo a necessidade de desligamento para consumidores. Antes de uma intervenção técnica em determinado trecho, o caminhão é conectado à rede local e assume temporariamente o fornecimento de energia enquanto a estrutura principal é desligada com segurança.

Esse tipo de aplicação pode ter impacto direto na continuidade do serviço. Em manutenções convencionais, a interrupção do fornecimento costuma ser necessária para garantir a segurança das equipes técnicas. Com o uso do sistema móvel, parte dos consumidores poderia continuar abastecida durante o período de intervenção, reduzindo transtornos para residências, comércios e pequenos serviços.

A solução também poderá ser utilizada em emergências, como temporais, acidentes ou rompimentos localizados de rede. Nesses casos, a unidade móvel pode ser deslocada para atender pontos críticos, como hospitais, postos de saúde, delegacias ou serviços essenciais, enquanto as equipes de campo trabalham no restabelecimento da rede.

Além da função emergencial, o sistema poderá ajudar no atendimento a picos sazonais de demanda e no controle de reativos, ampliando a segurança e a resiliência da rede elétrica. Em estados com forte variação de consumo em períodos específicos do ano, como Santa Catarina durante a temporada de verão, soluções móveis de armazenamento podem funcionar como reforço operacional em momentos de maior pressão sobre a infraestrutura.

“Estamos criando uma solução que combina sustentabilidade com eficiência energética. É uma resposta prática a um problema que ainda está se formando no país”, diz Lino Henrique Pedroni Junior, diretor de Planejamento da Celesc.

O desenvolvimento tecnológico é conduzido com o apoio do Laboratório Fotovoltaica da UFSC, coordenado pela professora Helena Flávia Naspolini. A equipe do projeto reúne 19 pesquisadores do laboratório e cinco profissionais da Celesc. A coordenação também envolve o engenheiro Leonardo Freire Pacheco, da companhia.

A participação da universidade é central para validar tecnicamente o desempenho do sistema e medir a eficiência das baterias reaproveitadas. O trabalho envolve testes, estudos acadêmicos e avaliações sobre segurança, durabilidade, capacidade de carga e comportamento das baterias em diferentes condições de uso.

Segundo Leonardo Pacheco, gerente do projeto, a iniciativa muda a lógica de uso das baterias no setor. “A bateria não deixa de ser útil quando sai do veículo. Ela passa a ter uma nova função dentro da infraestrutura energética”, afirma.

A estrutura mecânica do semirreboque foi construída pela Truckvan, enquanto a tecnologia embarcada foi desenvolvida pela WEG. O projeto conta com financiamento da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), por meio do Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, no projeto nº 05697-0323/2023.

A base dos estudos começou com um conjunto de baterias usadas em um ônibus elétrico que já rodou o equivalente a três voltas ao mundo. A partir daí, a UFSC e a Celesc passaram a desenvolver a unidade móvel de armazenamento, combinando pesquisa acadêmica, aplicação operacional e integração com a rede de distribuição.

O CELESC Energia a Bordo está atualmente em fase de testes de desempenho. Embora ainda não esteja concluído, já foi finalista do Prêmio CIER de Inovação 2024 e do Prêmio O Setor Elétrico 2025. O projeto também deve ser submetido novamente ao Prêmio CIER Inovação 2027.

A iniciativa já gerou produção acadêmica relevante. Até agora, foram desenvolvidas quatro dissertações de mestrado, além de duas teses de doutorado e uma dissertação de mestrado em andamento. Também foram publicados seis artigos em congressos internacionais e três em congressos nacionais.

Além disso, dois artigos foram submetidos para publicação em revistas internacionais de grande impacto e outros dois ao Congresso Brasileiro de Energia Solar 2026, o CBENS 2026. O volume de produção técnica mostra que o projeto vai além de uma aplicação operacional da concessionária e se conecta a uma agenda mais ampla de pesquisa sobre armazenamento, mobilidade elétrica e economia circular.

Para a Celesc, o projeto posiciona a companhia em uma agenda que tende a ganhar escala nos próximos anos: a integração entre transição energética, economia circular e segurança do sistema elétrico. O reaproveitamento de baterias pode reduzir o descarte precoce desses equipamentos, ampliar a vida útil dos materiais e criar novas soluções de apoio à rede de distribuição.

“Ao integrar sustentabilidade, planejamento de longo prazo e pesquisa, desenvolvimento e inovação, o projeto transforma um passivo ambiental emergente em uma solução concreta para a qualidade e a resiliência do sistema elétrico, gerando valor direto para a sociedade”, afirma Débora Simoni Ramlow, gerente do Departamento de Gestão de Projetos Estratégicos da Celesc.

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