Psicodélico contra álcool: USP testa substância africana em estudo piloto
Um estudo piloto conduzido na Universidade de São Paulo (USP) aponta que a ibogaína — substância psicoativa extraída de uma planta africana — pode ajudar no tratamento do transtorno por uso de álcool (TUA). Apesar dos resultados considerados promissores, os pesquisadores destacam que a terapia ainda é experimental e envolve riscos relevantes à saúde.
A pesquisa foi realizada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) e acompanhou nove voluntários diagnosticados com a condição. Os participantes receberam doses controladas da substância em ambiente hospitalar, com monitoramento contínuo.
Os resultados indicaram redução leve a moderada no consumo de álcool, com efeitos mais evidentes em doses mais altas, além de casos de abstinência ao longo do acompanhamento. Também foram registrados efeitos colaterais, incluindo alterações cardiovasculares.
O que fiz o estudo?
Os dados mostraram diminuição no consumo ao longo de três meses. Em dois casos, os voluntários permaneceram em abstinência durante todo o período. Segundo a pesquisadora responsável, Juliana Mendes Rocha, o objetivo foi avaliar segurança, tolerabilidade e eficácia da substância em um contexto ainda pouco explorado.
Embora já existam estudos sobre o uso da ibogaína em outras dependências químicas, seu efeito no TUA ainda não havia sido testado diretamente.
Como a ibogaína age no organismo?
A ibogaína é um alcaloide com propriedades alucinógenas que atua em diferentes sistemas químicos do cérebro. Seus efeitos incluem alterações na percepção, no tempo e nas emoções, podendo durar até 72 horas.
Devido a esses efeitos e aos riscos associados, o tratamento foi realizado sob rigoroso controle médico. Os participantes passaram por avaliação clínica e psiquiátrica e permaneceram internados para monitoramento de sinais vitais, exames cardíacos e respostas psicológicas.
Quais são os riscos do uso de ibogaína?
Apesar dos resultados iniciais, o estudo identificou efeitos colaterais, como alterações cardiovasculares, além de sintomas como ansiedade e náusea.
A ibogaína não é autorizada para uso terapêutico no Brasil fora de pesquisas clínicas. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alerta para a oferta irregular da substância e reforça que ainda não há evidências suficientes para recomendação médica.
O pesquisadores reforçam que o estudo é preliminar e envolve um número reduzido de participantes, o que impede conclusões definitivas. Pesquisas futuras devem incluir amostras maiores e maior rigor metodológico.
O transtorno por uso de álcool segue como um problema relevante de saúde pública, associado a cerca de 3% das mortes globais, de acordo com a USP. Nesse cenário, novas abordagens terapêuticas são investigadas, mas dependem de validação científica e comprovação de segurança.
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