Quais são os efeitos da 'chuva negra' no Irã? Cientistas respondem
A guerra entre Irã, Israel e os Estados Unidos provocou um novo risco ambiental em Teerã. Ataques com mísseis que atingiram depósitos e refinarias de petróleo liberaram grandes quantidades de poluentes na atmosfera, associados ao fenômeno conhecido como chuva negra.
A escalada militar começou em 28 de fevereiro, quando Israel e Estados Unidos lançaram ataques contra instalações iranianas. O Irã respondeu com ofensivas contra alvos militares e diplomáticos em outros países do Oriente Médio.
De acordo com um estudo publicado pela revista científica Nature, danos a instalações petrolíferas liberaram no ar hidrocarbonetos tóxicos, óxidos de enxofre e compostos de nitrogênio, que podem reagir com a água da chuva e formar precipitações contaminadas.
Autoridades locais alertaram para os riscos e recomendaram que a população permaneça em ambientes fechados para reduzir a exposição aos poluentes.
Chuva negra e chuva ácida
Pesquisadores explicaram que a chamada chuva negra ocorre quando a chuva incorpora partículas sólidas presentes na atmosfera, como fuligem, carbono e resíduos gerados por incêndios.
Segundo Farzana Kastury, cientista ambiental da Universidade de Adelaide, na Austrália, a queima de combustíveis pesados em refinarias pode liberar compostos tóxicos como benzeno, acetona, tolueno e cloreto de metileno, que podem se misturar à precipitação.
Já a chuva ácida se forma quando gases poluentes, especialmente óxidos de enxofre e óxidos de nitrogênio, reagem quimicamente com a água presente nas nuvens, formando compostos ácidos.
O estudo indica que o fenômeno observado em Teerã pode combinar os dois processos: partículas provenientes dos incêndios e reações químicas entre poluentes e água atmosférica.
Riscos para a saúde
A inalação da fumaça pode provocar dificuldade respiratória e agravar doenças cardíacas e pulmonares de acordo com o estudo.
A combustão do petróleo também gera partículas ultrafinas conhecidas como PM2.5, com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro. Essas partículas conseguem penetrar profundamente nos pulmões.
Segundo a Nature, a exposição a esse material pode estar associada a doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral, aumento da pressão arterial e redução da função cognitiva.
Condições atmosféricas agravam a poluição
Outro fator que intensifica a poluição em Teerã é a geografia da cidade.
O químico atmosférico Gabriel da Silva, da Universidade de Melbourne, também na Austrália, explicou para a Nature que a capital iraniana está próxima à cadeia montanhosa de Alborz, condição que favorece a formação de inversões térmicas.
Esse fenômeno ocorre quando uma camada de ar quente impede que o ar poluído próximo ao solo se disperse para camadas superiores da atmosfera, concentrando os contaminantes sobre a área urbana.
Impactos ambientais
A dispersão dos poluentes depende das condições meteorológicas e da redução dos incêndios. Segundo da Silva, os contaminantes podem se diluir na atmosfera ao longo dos próximos dias caso não ocorram novos focos de fogo.
No entanto, novas chuvas podem transferir poluentes para o solo e os corpos d’água. O estudo afirma que alguns desses compostos podem permanecer no ambiente por longos períodos, afetando ecossistemas aquáticos e ampliando o risco de exposição humana por meio da água e de alimentos cultivados em áreas contaminadas.
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