Qualidade de financiamento: termo muda a forma de investir em causas sociais
Por Maria Izabel Toro, Head de Parcerias Corporativas e Filantropia do UNICEF no Brasil
Qualidade de financiamento é uma expressão cada vez mais latente entre organizações e organismos multilaterais que trabalham em prol de uma causa. Sabemos que para transformar uma missão social em resultados reais é preciso mais do que compromisso institucional; é necessário um modelo de investimento que torne possível responder de forma ágil e eficaz aos desafios complexos. A este tipo de capital damos o nome de Core Resources (recursos flexíveis).
Proteger os direitos de cada criança, em todos os lugares, é uma promessa ambiciosa — e essencial — feita por diversas instituições, incluindo o UNICEF, que atua no Brasil e em mais de 190 países. No entanto, cumprir essa promessa exige um tipo certo de apoio, aquele que é contínuo, baseado na confiança e, sobretudo, flexível.
Recursos flexíveis são o fundamento do terceiro setor. Por não serem restritos ou direcionados a um único projeto, eles permitem que as organizações e organismos multilaterais direcionem esforços rapidamente para onde a necessidade é mais urgente, ampliando escala, reduzindo burocracias e garantindo a continuidade de programas que já demonstram resultados concretos.
Isso significa ganho imediato de eficiência: os fundos podem ser aplicados em iniciativas existentes, com metodologias testadas e impacto comprovado, acelerando a implementação e evitando processos que, muitas vezes, engessam a ação humanitária e o desenvolvimento social.
No UNICEF, por exemplo, nossos resultados globais mostram o poder transformador desses aportes. Em 2024, lançamos o relatório “Core Resources Annual Report”, destacando como esse tipo de financiamento impulsionou mudanças estruturais em diferentes regiões. No Vietnã, por exemplo, recursos flexíveis fortaleceram a educação inclusiva ao introduzir tecnologias e metodologias acessíveis para crianças com deficiência. Em Serra Leoa, contribuíram para a primeira acreditação legal de assistentes sociais, atingindo mais de 20 mil casos por meio de um sistema digital.
Os recursos flexíveis também impactam positivamente a atuação em território nacional. No Brasil, o UNICEF atua para gerar impacto permanente, contribuindo para que políticas públicas transformem, de forma duradoura, a vida de milhares de famílias. Em 2025, o UNICEF ampliou sua influência no Brasil ao colocar as crianças no centro das agendas socioeconômicas, de equidade e ambientais. Essa atuação atravessou todas as áreas prioritárias — da pobreza infantil multidimensional e dos gastos públicos à prevenção da violência, saúde, nutrição, acesso à água e ao saneamento, educação, primeira infância e participação de adolescentes. Ao todo, 24 milhões de crianças e adolescentes vivem em municípios e centros urbanos onde o UNICEF implementa suas ações.
Esse impacto é possível porque recursos flexíveis são catalíticos: eles permitem que instituições, como o UNICEF, respondam rapidamente a emergências, fortaleçam sistemas nacionais e mantenham presença contínua em territórios vulneráveis. No entanto, apesar de sua importância, apenas menos de 20% da receita total do UNICEF, em todo o mundo, em 2024, veio de Core Resources — uma tendência persistente que preocupa, porque limita a capacidade de alcançar as crianças mais vulnerabilizadas e de responder com agilidade a crises cada vez mais frequentes. Em 2024, os aportes voluntários para esse tipo de financiamento caíram 3%, uma diminuição de US$ 34 milhões, num contexto em que as necessidades humanitárias crescem e as desigualdades se aprofundam.
No Brasil, contamos hoje com duas parcerias estratégicas que já compreendem a força dos recursos flexíveis. O Grupo Profarma, que há anos investe em todo o Programa de País do UNICEF, e mais recentemente a XBRI Pneus, que passou a apoiar nossa operação também de forma não restrita. Esses investidores entendem que, ao confiar no UNICEF e permitir o uso flexível dos recursos, tornam-se agentes diretos de transformação. Eles nos ajudam a “responder rápido, ir mais longe e manter o curso” — princípios que guiam nosso trabalho para gerar impacto duradouro.
A flexibilidade também pode dialogar com os interesses estratégicos de empresas e doadores. Muitas empresas e fundações, por exemplo, já priorizam alguma causa, como saúde, educação, mudanças climáticas, entre outras. E, nesses casos, uma alternativa seria direcionar recursos flexíveis dentro dessas áreas temáticas. Isso significa apoiar, por exemplo, a agenda de educação de forma ampla ou de saúde, como no caso da farmacêutica Takeda – parceira do UNICEF desde 2022 – sem a necessidade de vinculação a um projeto específico. Esse modelo combina alinhamento de propósito com eficiência, permitindo que as organizações utilizem os recursos onde eles são mais necessários dentro daquela causa, potencializando o impacto sem abrir mão da coerência com a atuação do parceiro.
As crianças enfrentam desafios sem precedentes — e a forma como reagimos agora definirá o futuro de toda uma geração. Recursos flexíveis não são soluções imediatas, mas a base da mudança profunda e sustentável. O convite que fazemos ao setor privado é o de olhar para o investimento social com a mesma lente estratégica que olham para seus negócios: buscando eficiência, confiança e, acima de tudo, impacto real na vida de quem mais precisa. Com apoio contínuo, confiável e flexível, é possível ampliar resultados, fortalecer sistemas e construir um mundo verdadeiramente preparado para todas as crianças.
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