Quando um almirante de 4 estrelas fala em bitcoin, o mundo deveria ouvir

Por Da Redação 26 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Quando um almirante de 4 estrelas fala em bitcoin, o mundo deveria ouvir

Por Guilherme Sacamone*

Há argumentos que chegam pela academia, pelo mercado financeiro ou pelas comunidades de tecnologia. E há argumentos que chegam pelo Senado dos Estados Unidos, da boca de um comandante militar responsável pela contenção da China no Indo-Pacífico.

Em 21 de abril de 2026, durante audiência do Comitê de Forças Armadas do Senado sobre o orçamento de defesa para 2027, o almirante Samuel Paparo, comandante do Indo-Pacific Command, respondeu a uma pergunta sobre competição monetária com a China com uma frase que não pertence ao vocabulário habitual de generais: "Bitcoin é uma realidade. É uma ferramenta valiosa de ciência da computação, como projeção de poder". Não foi retórica. Foi registro oficial.

A declaração completa merece leitura cuidadosa. Paparo descreveu o Bitcoin como "a combinação de criptografia, blockchain e proof-of-work" que "impõe mais custos do que apenas a segurança algorítmica das redes". E concluiu: "Bitcoin é uma transferência de valor peer-to-peer, zero-trust. Qualquer coisa que apoie todos os instrumentos de poder nacional dos Estados Unidos da América é boa."

Para quem acompanha o debate sobre Bitcoin há anos, essas palavras soam familiares. Elas ecoam quase literalmente a tese de mestrado de Jason Lowery, major da Força Espacial americana, defendida no MIT em 2023 com o título "Softwar: A Novel Theory on Power Projection and the National Strategic Significance of Bitcoin". Lowery argumenta que o proof-of-work não é apenas um mecanismo de consenso monetário.

É uma forma de dissuasão no domínio cibernético: ao exigir gasto real de energia para validar blocos, o Bitcoin transforma ataques digitais em operações com custo físico mensurável. Em três anos, a tese saiu do papel acadêmico e entrou no registro oficial do Senado americano.

Para entender o que está em jogo, é preciso sair do vocabulário financeiro e entrar no vocabulário militar.

Hashrate é o poder computacional dedicado à mineração de Bitcoin. Quem controla mais hashrate tem mais influência sobre a segurança da rede e, em cenários extremos, maior capacidade de interferir nela. Hoje, os Estados Unidos lideram o hashrate global após a proibição da mineração na China em 2021. Essa liderança não é acidente: é consequência de política energética, regulação favorável e capital privado. E pode ser revertida.

A China, que já dominou mais de 65% do hashrate global antes da proibição, mantém capacidade de retomada rápida através do controle de grande parte dos dispositivos de mineração mundial. Nações que dominam a fabricação de ASICs controlam, indiretamente, a infraestrutura física do Bitcoin. Essa é uma forma de poder que não aparece em nenhum tratado militar, mas que Paparo reconheceu explicitamente ao mencionar a competição com Pequim.

A acumulação de bitcoin como reserva estratégica é o segundo vetor dessa disputa. Em 2025, o governo Trump avançou com a ideia de uma Strategic Bitcoin Reserve americana. A lógica é análoga à do ouro no século XX: quem acumula primeiro, com maior escala, estabelece vantagem sobre quem chega depois. Um país que detém reservas significativas de bitcoin tem um ativo que nenhuma sanção pode congelar, nenhuma rede de pagamentos internacionais pode bloquear e nenhum banco central pode desvalorizar por decreto.

O terceiro vetor é o mais sofisticado: a pesquisa aplicada de proof-of-work como infraestrutura de ciberdefesa. A tese de Lowery abre um campo inteiramente novo. Se o ciberespaço é tradicionalmente um domínio de baixo custo para o atacante, em que um estado-nação pode lançar ataques com poucos recursos e grande dano, o proof-of-work inverte essa equação. Proteger dados críticos, infraestrutura de Estado ou segredos militares com ancoragem em Bitcoin impõe ao adversário um custo físico real e verificável. É dissuasão por gasto energético: uma nova categoria de poder que não existia antes de 2008.

Combinados, esses três vetores, hashrate, acumulação e pesquisa aplicada de PoW, formam o que pode ser chamado de posição estratégica em Bitcoin. Nações que liderarem nesses três eixos simultaneamente terão leverage assimétrico sobre aquelas que chegarem tarde. A corrida já começou. O depoimento de Paparo é o momento em que ela se torna oficial.

O questionamento do senador Tuberville sobre reservas estratégicas de bitcoin não foi acidente. Ao mesmo tempo em que os EUA avançam com sua reserva estratégica, a China monitora o protocolo com atenção crescente como potencial instrumento para contornar a arquitetura financeira dominada pelo dólar em cenários de conflito ou sanções.

O que Paparo sinalizou é que essa competição já está em curso no Indo-Pacífico, da mesma forma que domínio marítimo e aéreo definiram o poder do século XX. A guerra híbrida não precisa de mísseis. Precisa de energia, computação e infraestrutura resistente à censura.

O que mudou em 21 de abril de 2026

Bitcoin não precisava da validação de um almirante para ter valor. Mas o depoimento de Paparo faz algo que nenhum whitepaper ou tese acadêmica consegue fazer: coloca o protocolo no registro oficial da política de defesa da maior potência militar do mundo.

Para países como o Brasil, com matriz energética renovável abundante e ecossistema crescente de inovação financeira, o momento é de atenção estratégica. Quem entende cedo onde o tabuleiro está se movendo tem tempo de se posicionar. Quem espera confirmação de todos os lados chega quando as peças já foram distribuídas.

Não é hype de Silicon Valley. Não é especulação de fórum. É um comandante de quatro estrelas dizendo ao Senado que Bitcoin apoia os instrumentos de poder nacional dos Estados Unidos.

Quem ainda debate se Bitcoin tem valor intrínseco perdeu a pergunta. A pergunta agora é outra: qual é a posição do seu país nesse tabuleiro?

*Guilherme Sacamone é country manager da OKX no Brasil.

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