'Queda do regime do Irã não é objetivo', diz porta-voz de Israel à EXAME

Por Rafael Balago 1 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Queda do regime do Irã não é objetivo', diz porta-voz de Israel à EXAME

O principal objetivo dos ataques de Israel ao Irã não é a queda do regime dos aiatolás, mas neutralizar a capacidade de ataque iraniana, disse à EXAME o major Rafael Rozenszajn, porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI).

"O nosso objetivo é eliminar a ameaça iraniana ao futuro e à existência de Israel: os mísseis balísticos, o programa nuclear e o patrocínio de grupos terroristas. A queda do regime não é um objetivo, pode ser uma consequência", disse Rozenszajn.

O major foi apontado como porta-voz em português da FDI após os ataques de 7 de outubro de 2023, quando membros do Hamas invadiram Israel e mataram mais de 1.200 pessoas. Além de entrevistas à imprensa, ele publica informações em redes sociais, como o Instagram.

Na conversa, feita por videochamada, ele deu mais detalhes sobre o planejamento da operação e as expectativas para os próximos dias.

"Neste momento, estamos atuando para atingir mísseis terra-ar, mísseis terra-terra, usinas nucleares, fábricas de produção de mísseis e alvos do regime iraniano. Já conseguimos atingir centenas de mísseis do Irã", afirmou.

"Esperamos que [a operação] dure o menor tempo possível. Não gostamos de guerra", completou. Leia a seguir a entrevista.

O senhor poderia fornecer um panorama dos objetivos da operação e do seu estágio atual?

É uma operação histórica, sem precedentes, coordenada com o Exército dos Estados Unidos, para eliminar uma ameaça imediata ao futuro existencial do Estado de Israel. Essa ameaça do Irã é baseada em três fatores.

São os mísseis balísticos do Irã. O Irã possui, neste momento, cerca de 2.500 mísseis e tomou a decisão de ampliar para 7.000 mísseis até 2027. São mísseis com alto teor explosivo, muito perigosos, com grande precisão. A gente pode ver os danos que esses mísseis causam. Um único míssil consegue destruir um bairro inteiro. Eles conseguem carregar cerca de uma tonelada de explosivos [cada um].

O segundo fator é o problema nuclear iraniano. Ele foi muito afetado na Guerra dos 12 Dias, em junho, e o Irã decidiu voltar a recuperar o programa nuclear. E o terceiro fator é o patrocínio do Irã aos grupos terroristas aqui na região.

O Irã é o maior patrocinador dos grupos terroristas na região. Ele patrocina o Hezbollah, no Líbano, o Hamas na Faixa de Gaza, de radicalismo islâmico, os Houthis no Iêmen e outros grupos terroristas. Todos esses fatores fazem com que a combinação entre eles e o desejo do Irã seja o fim do Estado de Israel.

Isso faz com que essa seja uma ameaça estratégica para a existência de Israel. Portanto, não podemos permitir que o Irã continue com seu programa nuclear, de mísseis balísticos e de patrocínio a grupos terroristas. Por isso fizemos esse ataque, para que essa ameaça não continue existindo contra o Estado de Israel. Esse é o objetivo da operação: eliminar uma ameaça futura e existencial ao Estado de Israel.

Como a morte do líder supremo, Ali Khameini, pode mudar a situação e as operações?

A guerra começou ontem. É difícil falar de hoje sem falar de como ela começou. Foram duas fases. A primeira fase foi nossos caças atacando o sistema de defesa aérea iraniano. A segunda fase foi o ataque contra os mísseis balísticos que estavam direcionados para serem lançados contra o nosso território.

Podemos dizer que 700 missões já foram feitas somente pela Força Aérea Israelense no Irã nas últimas 24 horas. Em 24 horas, conseguimos abrir caminho para uma liberdade operacional da Força Aérea Israelense no Irã.

Em 60 segundos, eliminamos mais de 40 líderes iranianos. Eliminamos a maior liderança, o aiatolá Khamenei, líder do regime iraniano, que estava por trás não apenas de tudo o que fez contra sua própria população há 40 dias, mas também de todas as ameaças contra o Estado de Israel.

Eliminamos o chefe do Estado-Maior do Irã, o comandante da Aeronáutica, o chefe da Guarda Revolucionária, o chefe da unidade de inteligência. Todos eles, e vários outros, foram eliminados em um minuto, assim como alvos ligados ao programa nuclear iraniano.

Como estão as operações neste domingo?

Neste momento, estamos atuando para atingir mísseis terra-ar, mísseis terra-terra, usinas nucleares, fábricas de produção de mísseis e alvos do regime iraniano. Já conseguimos atingir centenas de mísseis do Irã.

Impedimos a produção de 1.500 mísseis que estavam prestes a ser produzidos nas fábricas destruídas pela Força Aérea Israelense.

Duzentos lançadores de mísseis foram destruídos. Também destruímos uma fábrica militar de produção de mísseis balísticos, responsável pela produção de ogivas nucleares. Esse principal centro de produção foi destruído pela Força Aérea Israelense.

Neste momento, continuamos atuando tanto na defesa — para que os mísseis e drones lançados pelo Irã não tenham êxito — quanto na ofensiva, atacando alvos militares do Irã, para que essas ameaças não continuem sendo relevantes.

Quais foram os danos em Israel?

Vemos os mísseis que caíram e explodiram em Tel Aviv e perto de Jerusalém. Eles, infelizmente, já mataram cerca de 10 pessoas. Cinquenta estão feridas, algumas ainda nos escombros e outras estão desaparecidas.

É uma área totalmente residencial. Esse é o modo de operação do Irã. Enquanto nós agimos para eliminar líderes terroristas e atacamos somente alvos militares, o regime iraniano atinge alvos civis aqui no território israelense.

Essa é a diferença entre um Estado democrático de direito, que respeita normas internacionais, e um regime que não tem compromisso com normas internacionais nem com a verdade. Essa diferença está muito clara neste momento.

Há alguma previsão de duração dessa operação? Pode levar dias ou semanas?

Nós esperamos que dure o menor tempo possível. Não gostamos de guerra. Já dissemos isso ao mundo todo. Estamos sempre abertos à paz.

Fizemos paz com nossos inimigos. Fizemos paz com o Egito, com a Jordânia. Há poucos anos, fizemos acordos de paz com o Bahrein, os Emirados Árabes, Marrocos e Sudão. Estávamos a um passo de normalizar relações com a Arábia Saudita, mas, infelizmente, a aproximação entre países árabes representa um risco para regimes totalitários e terroristas na região. O ataque de 7 de outubro impossibilitou esse acordo.

Se pudermos chegar a uma solução em que o Irã não continue representando uma ameaça a Israel por meios pacíficos, esse será o nosso caminho.

O senhor poderia falar um pouco mais sobre o planejamento dessa operação?

Essa operação não seria efetivada sem uma inteligência cirúrgica e armamentos precisos para alcançar os objetivos dos nossos alvos no Irã.

Nossos alvos são cirúrgicos, nossa informação de inteligência é precisa, e isso possibilitou que os ataques israelenses no Irã tivessem um êxito praticamente absoluto. Não temos dúvidas de que, depois de ontem, o mundo está mais seguro, mas ainda não é suficiente.

Precisamos agir para que o Irã não continue com seus projetos de exterminar o Estado de Israel. É importante que o povo brasileiro entenda: esta não é apenas uma guerra entre o Estado de Israel e o regime iraniano. É uma guerra de valores.

É uma guerra entre os valores ocidentais — valores cristãos e judaicos de liberdade e democracia — e os valores da jihad, da destruição, representados pelo regime iraniano. Quando o Irã diz “morte a Israel, morte aos Estados Unidos, morte à América”, não é só isso que está por trás.

Israel e Estados Unidos representam democracia, liberdade e valores cristãos e judaicos. No Irã, o que pudemos ver há 40 dias, antes do corte da internet, foi a crueldade do regime, assassinando mais de 30 mil pessoas de seu próprio povo.

Enquanto o Irã investe suas economias em mísseis balísticos, programa nuclear e patrocínio a grupos terroristas, nós investimos em hospitais, defesa aérea e bunkers, para proteger nossa população. O Irã se esconde atrás de sua população e a assassina. Esses são os valores que estão em jogo.

O senhor acha que o regime do Irã pode cair depois desses ataques?

Isso pode ser uma consequência dos ataques, mas não é o nosso objetivo neste momento. O nosso objetivo é eliminar a ameaça iraniana ao futuro e à existência de Israel: os mísseis balísticos, o programa nuclear e o patrocínio de grupos terroristas.

A queda do regime não é um objetivo, pode ser uma consequência, mas nosso foco é garantir que o Irã não continue sendo uma ameaça ao Estado de Israel.

Vocês esperam reação de grupos ligados ao Irã, como Hamas, Hezbollah e os Houthis?

O Hamas e o Hezbollah estão muito enfraquecidos. O Hamas na Faixa de Gaza e o Hezbollah no Líbano sofreram golpes muito grandes nesses dois anos de guerra. Isso não quer dizer que não possam agir.

O Hezbollah entrou nessa guerra no dia 8 de outubro, logo após o ataque do Hamas, lançando foguetes contra Israel. Atuamos defensiva e ofensivamente para garantir que o Hezbollah no Líbano não seja uma ameaça ao nosso Estado.

Vocês veem risco de fechamento do Estreito de Hormuz?

Posso falar apenas em relação às operações militares. Questões políticas não cabem a mim. Posso dizer que continuaremos fazendo nosso trabalho para alcançar os objetivos dessa guerra, independentemente de o Irã fechar ou não o estreito.

Teria alguma mensagem direcionada ao Brasil?

Gostaria de agradecer ao povo brasileiro pelo apoio e pelas orações pela paz na região, pela paz em Israel e pela paz no mundo, para que seja um mundo mais seguro, mais tranquilo e mais feliz, sem as ameaças imediatas do regime iraniano.

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