Quem é Luciano Moreira, cientista brasileiro entre os mais influentes da Time?
Dois cientistas brasileiros estão entre as 100 pessoas mais influentes do mundo segundo a lista publicada na revista Time nesta quarta-feira, 15.
Luciano Moreira e Maria Angela Hungria foram destacados nas categorias "Inovadores" e "Pioneiros", respectivamente.
Além dos pesquisadores, o ator brasileiro Wagner Moura também está na lista após sua indicação ao Oscar por "O Agente Secreto".
Hungria é pesquisadora da Empraba e a ênfase da sua pesquisa tem sido o aumento da produção e da qualidade dos alimentos por meio da substituição total ou parcial de fertilizantes químicos por microrganismos com propriedades como a fixação biológica de nitrogênio (FBN), técnica que permite que bactérias do solo forneçam esse nutriente essencial às plantas.
Já Moreira desenvolve, desde os anos 1990, métodos alternativos para o combate ao Aedes aegypti, vetor da dengue, zika e chikungunya. Um dos principais resultados desse trabalho é a criação de mosquitos infectados pela bactéria Wolbachia, capazes de reduzir drasticamente a transmissão dos vírus.
Em 2025, ele já havia sido incluído na lista "Nature’s 10", que destacou os cientistas mais influentes do mundo em 2025. A revista científica reconheceu sua liderança em um projeto inovador de controle de arboviroses no Brasil
De pesquisa acadêmica a política pública
O reconhecimento internacional da revista Time destaca não apenas o avanço científico, mas a capacidade de Moreira em transformar inovação em política pública. O método com mosquitos Wolbachia, antes restrito a testes laboratoriais, passou a ser adotado por diversas cidades brasileiras e foi incorporado à estratégia nacional de saúde pública.
A partir de 2008, Moreira integrou o grupo do cientista australiano Scott O’Neill, responsável pela primeira infecção de Aedes aegypti com Wolbachia. No Brasil, ele liderou os testes pela Fiocruz, adaptando a técnica às condições locais. A fase inicial envolvia produção manual em laboratórios. Atualmente, o processo é industrializado.
Moreira é hoje CEO da Wolbito do Brasil, empresa que opera uma fábrica em Curitiba com capacidade para produzir até 5 bilhões de mosquitos por ano. A unidade foi inaugurada em julho e já abastece estados como Santa Catarina.
Redução comprovada e impacto ambiental mínimo
Segundo a Revista Nature, a cidade de Niterói, uma das primeiras a adotar a tecnologia, teve queda de 89% nos casos de dengue. Em 2024, foram registrados apenas 46 casos prováveis, contra mais de 20 mil no município vizinho, o Rio de Janeiro.
A Wolbachia não infecta humanos nem se espalha no meio ambiente. A bactéria está presente naturalmente em cerca de 60% dos insetos do planeta. No mosquito, impede a reprodução ou bloqueia a transmissão dos vírus, dependendo do sexo do inseto infectado.
Modelo integrado de controle
O pesquisador defende que a soltura dos mosquitos não substitui outras medidas de controle, mas deve compor um modelo integrado com eliminação de criadouros, vigilância entomológica e uso racional de inseticidas. Ele também aponta o papel complementar da vacina contra a dengue, introduzida no SUS em 2023.
Atualmente, o método está em avaliação por meio de um ensaio clínico randomizado em Belo Horizonte, com participação da UFMG e universidades dos EUA, além de financiamento do NIH (Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos).
Para Luciano Moreira, o destaque na Nature reforça a importância da ciência nacional. Hoje, a equipe da Wolbito tem 75 profissionais e atua com uma rede que envolve Fiocruz, IBMP e o World Mosquito Program. A meta é ampliar a cobertura e consolidar o Brasil como referência global no combate às arboviroses.
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