Quem é o 'torcedor estátua' do Congo que chama atenção na Copa do Mundo

Por Maria Luiza Pereira 1 de Julho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Quem é o 'torcedor estátua' do Congo que chama atenção na Copa do Mundo

Em poucos meses, Michel Nkuka Mboladinga deixou de ser um torcedor conhecido apenas em seu país para se transformar em uma das figuras mais marcantes da Copa do Mundo de 2026. A imagem do congolês imóvel nas arquibancadas conquistou o público, atravessou fronteiras e mudou completamente sua rotina.

Treze anos de dedicação até o reconhecimento

Muito antes de viralizar, Michel já chamava atenção nos estádios da República Democrática do Congo. Desde 2013, ele comparece às partidas caracterizado como uma estátua viva em homenagem a Patrice Lumumba, líder da independência congolesa e um dos maiores símbolos da luta anticolonial na África.

A apresentação exige preparação física e concentração. Para permanecer imóvel durante toda a partida, ele treina constantemente e conta com o apoio de outros torcedores, que formam um círculo ao seu redor para preservar a performance. Antes da última Copa Africana de Nações, chegou a fabricar um pequeno banco de madeira para conseguir ficar acima da multidão e ser visto por todos.

"Patrice Lumumba é um símbolo da nossa dignidade e da nossa liberdade. Não é fácil, mas eu treino muito, muito mesmo. Eu treino constantemente para conseguir aguentar pelo menos 90 a 120 minutos durante as partidas", revelou Mboladinga ao canal beIN SPORTS.

A fama chegou com a Copa Africana

O grande salto aconteceu durante a Copa Africana de Nações, em janeiro deste ano. A figura silenciosa em meio à festa das arquibancadas chamou a atenção da imprensa internacional e rapidamente se espalhou pelas redes sociais. A partir daquele momento, Michel passou a ser reconhecido como "Lumumba Vea" — também em homenagem ao seu time do coração, o AS Vita Club — e virou um símbolo da torcida congolesa.

O sucesso foi tamanho que ele recebeu convite para integrar a delegação oficial da República Democrática do Congo durante a Copa do Mundo, reforçando sua ligação com a seleção nacional.

Uma rotina completamente diferente

Antes da repercussão internacional, Michel trabalhava como gerente de uma padaria e também participava de casamentos e festas caracterizado como Lumumba, recebendo pequenos cachês por suas apresentações. Hoje, a realidade é outra.

Segundo um de seus empresários, em entrevista ao jornal francês L'Équipe, o congolês passou a viver cercado por compromissos, entrevistas e pedidos de aparições. Ele precisou se mudar temporariamente para um hotel enquanto buscava uma residência em condomínio fechado, conta com segurança particular e trabalha ao lado de três empresários responsáveis por administrar sua carreira.

O significado por trás da estátua

A homenagem vai muito além da estética. Michel reproduz a postura da estátua de Patrice Lumumba em Kinshasa e veste ternos nas cores da bandeira congolesa para representar seu país. Para ele, a performance celebra a dignidade, a liberdade e a história da República Democrática do Congo.

"Sinto uma grande emoção e um enorme prazer por participar da Copa do Mundo. É um sonho que eu esperava realizar e, depois do que fiz em Marrocos (durante a Copa Africana de Nações), meu sonho se tornou realidade. Eu procuro sempre trazer as cores do nosso país. Estou sempre usando essas cores e também vario minhas roupas, tudo isso para representar o nosso país", afirma Mboladinga.

A trajetória até a Copa do Mundo também contou com obstáculos. Por causa do surto de Ebola na República Democrática do Congo, Michel precisou cumprir uma quarentena de 21 dias antes de viajar ao torneio. A medida o impediu de acompanhar a estreia da seleção, no empate por 0 a 0 com Portugal, disputado nos Estados Unidos.

Depois da liberação, ele esteve presente na derrota para a Colômbia, no México. Já na terceira rodada, ficou fora da vitória sobre o Uzbequistão, resultado que garantiu a classificação da RD Congo à segunda fase, porque não conseguiu obter o visto necessário para entrar nos Estados Unidos.

Michel Kuka Mboladinga prestando homenagem a Patrice Lumumba durante jogo entre Colômbia x RD Congo pela Copa do Mundo de 2026 (Ulises RUIZ/AFP Photo)

Quem foi Patrice Lumumba?

Patrice Lumumba foi um líder político congolês e um dos principais responsáveis pela luta que levou a República Democrática do Congo à independência da Bélgica, conquistada em 30 de junho de 1960. No mesmo ano, tornou-se o primeiro primeiro-ministro do país, defendendo a soberania nacional, a unidade do território e o controle das riquezas minerais pelos próprios congoleses.

Seu governo durou poucos meses. Em meio à crise política que marcou os primeiros meses da independência, Lumumba foi deposto após um golpe militar liderado por Joseph Mobutu. Preso e transferido para a região de Katanga, ele foi executado em janeiro de 1961, aos 35 anos. Décadas depois, investigações apontaram o envolvimento de autoridades belgas em seu assassinato, levando o governo da Bélgica a reconhecer sua responsabilidade moral pelo caso.

Ao longo dos anos, Patrice Lumumba tornou-se um dos maiores símbolos da luta anticolonial na África. Sua trajetória inspira movimentos políticos, obras culturais e homenagens em diversos países do continente.

Retrato oficial do governo do Congo de Patrice Lumumba como primeiro-ministro da República Democrática do Congo, em 1960 (Wikimedia Commons)

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