Quem explica o futuro? A disputa de narrativa atravessa o Web Summit Rio
Em novembro último, caminhando pelos corredores do Web Summit Lisboa, eu tinha a sensação de estar assistindo ao nascimento de uma nova fase da Inteligência Artificial.
Não importava se o encontro acontecia em um palco principal, numa mesa de café ou nos corredores entre uma palestra e outra, os agentes de IA dominavam todas as conversas. Em algum momento, alguém, em uma das dezenas de idiomas presentes, levantava a mesma bola: o que vai acontecer quando sistemas de IA deixarem de responder perguntas e passarem a executar tarefas inteiras por conta própria?
Veja o tamanho da anomalia: um único tema conseguiu dominar a narrativa de um evento que reuniu mais de 71 mil participantes, vindos de 157 países, além de 2.725 startups de 108 nacionalidades diferentes.
Em Lisboa, founders discutiam produtividade. Investidores debatiam escalabilidade. Executivos abordavam eficiência e redução de custos. Marketeiros questionavam personalização. Pesquisadores se aprofundavam em capacidades técnicas.
Em maior ou menor grau, quase tudo isso aconteceu.
A IA agêntica ganhou espaço, entrou no vocabulário corporativo, passou a frequentar reuniões de conselho, apresentações para investidores e, aos poucos, começou a ocupar uma posição mais relevante dentro do core business de empresas de diferentes setores.
Volto agora ao Web Summit. Desta vez, aqui no nosso Rio de Janeiro, não como speaker, mas como official creator do evento, a convite da Flint.me.
Ao me aprofundar no line-up, nos palcos, nas mesas redondas e nos eventos paralelos espalhados pela cidade, está claro para mim que a mudança mais interessante desta edição não estará nos softwares, produtos ou lançamentos.
Estará nas perguntas que passaram a ocupar o centro da conversa.
Se, há sete meses, a discussão era sobre capacidade, hoje ela gira em torno de poder. Porque, entre Lisboa e Rio, aconteceu mais do que evolução tecnológica.
A corrida da IA deixou de ser uma conversa restrita a empresas de tecnologia e passou a ocupar o centro das discussões sobre geopolítica, soberania, infraestrutura, energia e influência global.
Semicondutores viraram assunto de chefes de Estado. Data centers passaram a ser tratados como ativos estratégicos. Terras raras ganharam relevância econômica e diplomática.
China X EUA
As disputas entre Estados Unidos e China tornaram-se essenciais na discussão sobre Inteligência Artificial.
De repente, a tecnologia deixou de ser apenas uma indústria e passou a ser um componente central das estratégias econômicas, diplomáticas e de segurança das principais potências globais.
É justamente por isso que vejo o Web Summit Rio, que começa hoje, como um epicentro tão relevante para o momento.
A programação oficial, com centenas de palestrantes, terá discussões sobre Inteligência Artificial (obviamente), computação em nuvem, fintechs e infraestrutura digital. Mas também arte, moda, esporte, clima, inclusão, creator economy e geopolítica.
A conversa mais importante, no meu entender, deve acontecer por trás de todas elas: quem controlará as narrativas que sustentarão a próxima década?
Durante muito tempo, os Estados Unidos dominaram as tecnologias mais relevantes do mundo e a capacidade de explicar o que essas tecnologias significavam – sim, existe uma diferença enorme entre construir uma inovação e construir a interpretação dominante sobre essa inovação.
O Vale do Silício, por exemplo, fez as duas coisas.
Produziu empresas extraordinárias e uma narrativa extraordinariamente eficiente sobre empreendedorismo, progresso, risco, crescimento e futuro.
Uma narrativa tão bem-sucedida que passou a ser reproduzida por investidores, governos, aceleradoras e fundadores em praticamente todos os continentes.
O que está acontecendo agora é uma disputa atualizada por essa posição.
Observe os personagens que estarão no Rio de Janeiro nos próximos dias.
Marcio Aguiar representa uma Nvidia que deixou de ser uma fabricante de chips para se tornar uma das infraestruturas centrais da economia digital contemporânea. A empresa vale US$ 5 trilhões (com T) porque se transformou na fornecedora das ferramentas necessárias para alimentar a corrida global pela IA.
Christian Rôças, da OpenAI, atua exatamente na fronteira entre tecnologia e adoção. Entre o desenvolvimento dos modelos e a forma como eles serão incorporados ao cotidiano de empresas, criadores e consumidores.
Paula Bellizia chega ao evento representando a AWS em um momento em que a nuvem se tornou a base operacional de grande parte da economia digital.
Fábio Coelho participa em nome de um Google que ajudou a organizar a informação do planeta durante mais de duas décadas e agora acompanha uma mudança profunda na forma como as pessoas buscam respostas.
Henna Virkkunen, vice-presidente executiva da Comissão Europeia para Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia, apresentará uma das discussões mais relevantes desta edição ao tratar de autonomia, dependência tecnológica e segurança.
Mas talvez um dos sinais mais interessantes deste Web Summit esteja justamente fora do núcleo tradicional da tecnologia.
Entre executivos de Big Tech, especialistas em infraestrutura, investidores e formuladores de políticas públicas, aparecem nomes como Fábio Porchat, Juliette, Rebeca Andrade, Aline Pellegrino e Peter Fernandez. À primeira vista, parecem pertencer a universos completamente diferentes. Só que todos operam, cada um à sua maneira, forças que passaram a definir valor na economia contemporânea: atenção, influência, comunidade, reputação e capacidade de mobilização.
Em algum momento dos últimos anos, tecnologia deixou de ser apenas uma indústria. Tornou-se uma camada que atravessa praticamente todas as outras.
Repare que nenhum desses nomes debate exatamente a mesma coisa.
Todos, porém, falarão, de alguma forma, sobre influência, controle de infraestrutura, definição de padrões, regras e valor.
Assim como foi em Lisboa, onde a China teve um fórum praticamente dedicado a discutir seu papel na transformação tecnológica global, é impossível ignorar sua presença crescente nessa conversa.
Durante décadas, a narrativa dominante da inovação era relativamente simples: a América criava, o restante do mundo adaptava.
A caminho de 2030, esse equilíbrio parece menos óbvio. A China disputa protagonismo em IA, robótica, infraestrutura digital e modelos open source. A Europa tenta construir um caminho baseado em regulação e soberania. E o Sul Global luta por um papel mais relevante na conversa.
Esta última ponta talvez seja o aspecto mais interessante deste Web Summit Rio 2026.
Pela primeira vez, nosso canto do mundo aparece em um momento em que as regras ainda estão sendo escritas.
Como participante de uma discussão em andamento, não como mero coadjuvante.
Se há sete meses, em Lisboa, a pergunta no Web Summit era o que a Inteligência Artificial faria, aqui no Rio a pergunta parece outra:
Quem terá o poder de decidir o que ela vai significar?
Essa é uma conversa que vai muito além da tecnologia.
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