Quem lucra com o petróleo caro: Venezuela, Rússia e Arábia Saudita

Por Luiz Anversa 3 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Quem lucra com o petróleo caro: Venezuela, Rússia e Arábia Saudita

A dinâmica dos preços internacionais do petróleo neste início de ano aprofunda um cenário no qual nem todos os grandes produtores conseguem transformar reservas abundantes em lucro efetivo.

O início de 2026 foi marcado pela operação militar dos EUA contra o então ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, e agora o conflito aberto entre o governo de Donald Trump e Israel contra o Irã, com Teerã buscando um líder supremo após a confirmação da morte de Ali Khamenei. O principal fator que une esses dois países é o petróleo.

Com esse cenário instável, um movimento esperado no mercado é o aumento do barril de petróleo. O tipo Brent, o mais comercializado, já tinha cotação superior a 77 dólares o barril nesta terça-feira.

Qual a produção de petróleo do Irã?

O Irã tem uma das maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo, com cerca de 10% das reservas mundiais de petróleo e aproximadamente 15% das reservas de gás natural.

O setor é o principal pilar da economia, pois representa, direta ou indiretamente, até 30% do PIB, e uma proporção muito maior da receita por exportações e da renda estatal.

Em 2017, período em que se intensificaram sanções contra o país, Teerã produzia cerca de 4,1 milhões de barris de petróleo por dia. Em 2026, essa produção está na casa de 3,2 milhões de barris diários, ou seja, quase um milhão a menos.

Atores no xadrez econômico do petróleo

Países como Arábia Saudita e Rússia costumam responder de maneira direta à elevação do barril. Já a Venezuela permanece como um caso emblemático de “maldição dos recursos”, onde a alta do petróleo não se traduz automaticamente em benefícios econômicos proporcionais.

Venezuela: a gigante que não consegue lucrar

A Venezuela detém a maior reserva comprovada de petróleo do planeta, cerca de 303 bilhões de barris, superando Arábia Saudita e Irã. No entanto, essa vantagem geológica contrasta com uma incapacidade estrutural de converter reservas em receita: sua produção, que já chegou a 3,7 milhões de barris/dia, caiu para algo próximo de 1 milhão.

Essa limitação significa que mesmo com preços altos, o país não colhe os dividendos esperados. Entre as razões estão:

Mesmo em momentos de turbulência global — como a captura de Nicolás Maduro em janeiro de 2026 e a tentativa dos EUA de ampliar a produção local para influenciar o mercado — a Arábia Saudita declarou não esperar “impacto significativo” no preço internacional decorrente da situação venezuelana, justamente porque a Venezuela exporta pouco e não pesa mais como grande player.

O que significa para a Venezuela: o petróleo caro ajuda, mas muito menos do que poderia. O país está longe de aproveitar plenamente a alta de preços e depende quase totalmente da China para escoar o que consegue exportar (cerca de 80% das vendas).

Rússia: entre sanções e adaptação

A Rússia, segundo maior produtor do mundo, é historicamente uma das economias que mais se beneficia da alta do petróleo. Contudo, após as sanções dos EUA e da União Europeia contra Rosneft e Lukoil — responsáveis por mais de 55% da produção russa — o mercado passou a operar sob tensão após a guerra da Ucrânia, que completou quatro anos recentemente.

O que significaram as sanções aplicadas entre 2025 e 2026:

Mesmo assim, a alta dos preços favorece a Rússia: quanto mais caro o barril, mais recursos entram para sustentar sua economia — que continua financiando tanto o esforço de guerra quanto o orçamento público. Segundo análises de 2025, os altos preços ajudaram a "mascarar" algumas fragilidades da economia russa, sustentando receitas mesmo diante juros elevados.

Ainda mais importante: ataques ucranianos a instalações russas elevaram o “prêmio de risco” do petróleo, puxando os preços para cima e, paradoxalmente, criando um ambiente onde a Rússia lucra com a instabilidade que ela própria alimenta — apesar das perdas operacionais locais.

O que significa para a Rússia: apesar das sanções, a Rússia continua lucrando com o petróleo caro, pois mesmo reduzindo volumes exportados, o aumento dos preços compensa parcialmente as restrições. Mas seus lucros são menores do que seriam em um cenário sem bloqueios.

Arábia Saudita: a grande vencedora do petróleo caro

Ao contrário da Venezuela e da Rússia, a Arábia Saudita combina produção elevada, custos baixíssimos e estabilidade operacional. Isso faz com que qualquer alta do preço do barril se converta diretamente em receita, com capacidade de ajuste fino por meio da Opep+.

A posição saudita é tão estratégica que, mesmo diante de choques políticos em outros grandes produtores — como Venezuela, Rússia e Irã —, o país costuma minimizar o impacto global, reafirmando seu papel de estabilizador do mercado. Foi exatamente o que fez o ministro das Finanças saudita ao afirmar em Davos que a crise venezuelana não teria impacto relevante no mercado global, reforçando a autoconfiança do país como “âncora” do setor.

Diferentemente da Rússia:

O que significa para a Arábia Saudita: quando o barril sobe, ela é a grande ganhadora, com lucros diretos, margens amplas e influência estratégica em discussões geopolíticas.

Quem lucra mais com o petróleo caro?

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