R$ 5,8 bi, 1 gigawatt e 85% de autogeração: a aposta da ArcelorMittal para energias renováveis

Por Letícia Ozório 26 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
R$ 5,8 bi, 1 gigawatt e 85% de autogeração: a aposta da ArcelorMittal para energias renováveis

A ArcelorMittal Brasil avançou neste mês a última peça de um quebra-cabeça de R$ 5,8 bilhões. A entrada em operação comercial do parque solar do Complexo Babilônia Centro, no município de Várzea Grande, na Bahia, concluiu o maior ciclo de investimentos em autogeração de energia renovável já realizado por uma empresa privada no Brasil.

Com 365 mil painéis fotovoltaicos e capacidade instalada de 200 MW, a nova obra custou aproximadamente R$ 700 milhões e transforma o complexo baiano em uma unidade híbrida — combinando geração eólica e solar num mesmo território.

"Estamos falando de uma redução de 200 mil toneladas de CO₂ por ano na produção de aço", afirmou Everton Negresiolo, CEO da ArcelorMittal Aços Longos para a América Latina, em entrevista exclusiva à EXAME. "E a expectativa é que 85% do consumo de energia da ArcelorMittal no Brasil passe a vir de autogeração, sendo metade disso de fontes renováveis", disse.

Dois complexos, um gigawatt

O pacote de R$ 5,8 bilhões está distribuído entre dois complexos. O maior deles é o Babilônia Centro, na Bahia, desenvolvido em parceria com a Casa dos Ventos numa joint-venture com gestão compartilhada tanto na construção quanto na operação.

O aporte total no complexo chegou a R$ 4,8 bilhões e a capacidade instalada soma agora 753,5 MW — sendo 550 MW eólicos, em operação desde outubro de 2025, e 200 MW solares, que iniciaram a geração comercial neste mês.

O segundo ativo é o Parque Solar Luiz Carlos, localizado em Paracatu, em Minas Gerais. Com capacidade instalada de 260 MW e investimento da ordem de R$ 895 milhões, o parque mineiro opera no modelo BOT (build, operate, transfer) pela Atlas Renewable Energy e pertence integralmente à ArcelorMittal.

Juntos, os dois complexos entregam 1 GW de nova capacidade instalada à empresa. Isso

A decisão de incluir geração solar dentro do Complexo Babilônia Centro foi estratégica. Ao aproveitar a infraestrutura já instalada para o parque eólico — subestação, linhas de transmissão e conexão com o sistema elétrico —, ArcelorMittal e Casa dos Ventos reduziram o capital incremental necessário e eliminaram a ociosidade na produção, já que solar e eólica se complementam ao longo do dia e das estações do ano.

ESG na operação de uma gigante

Negresiolo é enfático ao descrever o projeto dentro da atuação sustentável. "É um grande exemplo do que deveria ser o ESG, porque é um investimento que gera impacto nos três eixos", disse o executivo.

No eixo ambiental, a redução de emissões se soma a um histórico já diferenciado. Hoje, 54% da produção de aço da ArcelorMittal Brasil utiliza a rota de reciclagem a partir de sucata — o que já coloca a empresa abaixo da média global de emissões na produção. Enquanto a média do setor gira em torno de 2,2 toneladas de CO₂ por tonelada de aço bruto produzida, a ArcelorMittal opera com 1,7 tonelada.

A empresa também produz aço a partir de ferro-gusa (produto intermediário da indústria siderúrgica) com carvão vegetal proveniente de florestas de eucalipto — em especial em sua usina de Juiz de Fora —, outra rota de baixa emissão. Com a expansão da autogeração renovável, a tendência é que esse índice caia ainda mais.

No eixo social, os parques foram instalados em regiões com baixo Índice de Desenvolvimento Humano, e sua implantação gerou milhares de empregos diretos na fase de construção. No Complexo Babilônia Centro, ainda foram desenvolvidos projetos voltados ao agronegócio com associações e cooperativas locais, além de cursos específicos para mulheres.

Na governança, o modelo de joint venture com a Casa dos Ventos reflete uma escolha deliberada por parceiros de referência. "O nosso core business é aço, não geração solar e eólica", reconheceu o CEO.

"A Casa dos Ventos é líder em renováveis, pioneira na energia eólica no Brasil e reconhecida internacionalmente. Fazer o maior contrato de energia renovável entre privados da história do país só poderia ser conduzido por dois gigantes", afirma.

Vantagem competitiva e segurança energética

A ArcelorMittal figura entre as cinco maiores consumidoras de energia elétrica do Brasil. Para uma indústria eletrointensiva, o custo energético é um insumo crítico na composição de custos.

A autogeração, portanto, não é apenas um posicionamento ambiental para a companhia, mas também uma alavanca de competitividade.

"A autogeração traz redução do custo de energia", explicou Negresiolo. "E o momento atual e o conflito no Oriente Médio mostram isso: a segurança energética, tanto para o país quanto para as empresas produtoras, é cada vez mais relevante."

O executivo fez questão de ampliar a perspectiva: ao reduzir sua dependência do sistema elétrico nacional, a ArcelorMittal libera capacidade para indústrias e consumidores em geral. "Falamos em capacidade instalada para abastecer cidades com milhões de habitantes. Isso é extremamente positivo", explica o diretor.

Cerca de 90% da energia gerada nos dois complexos será direcionada às próprias operações industriais da empresa. Os 10% restantes serão vendidos no mercado nacional — resultado de contratos de energia de longo prazo firmados antes da conclusão dos investimentos em autogeração, que criaram um excedente temporário no balanço energético da companhia.

Parte de um plano maior — e os desafios à frente

O ciclo de R$ 5,8 bilhões em energia integra um plano estratégico mais amplo. Nos últimos cinco anos, o grupo investiu R$ 25 bilhões no Brasil, com aportes em capacidade produtiva, novos produtos e aquisições.

Quanto a novos investimentos em energia, Negresiolo é cauteloso. "Já atingimos 85% do nosso consumo com autogeração. Novos projetos em energia dependem de fatores além da autogeração, e neste momento não há nada previsto", conta.

A ressalva, contudo, vem acompanhada de um alerta ao setor: o curtailment — a necessidade de cortar a geração renovável por limitações de transmissão ou excesso de oferta na rede — cria incertezas econômicas que dificultam a viabilidade de novos projetos. "É uma questão que precisa ser resolvida para que o Brasil continue atraindo investimentos em renováveis", disse o executivo.

No mercado de aço, o cenário também exige atenção. A importação de aço chinês a preços abaixo do custo de produção local pressiona a rentabilidade do setor e ameaça a viabilidade de novos investimentos industriais no país, criando um cenário de competição desigual.

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