Rali dos emergentes bate recorde com impulso de fabricantes asiáticas de chips
As ações de mercados emergentes conseguiram recuperar as perdas registradas no início da Guerra no Irã e alcançaram novas máximas históricas. O movimento foi impulsionado principalmente pela forte valorização de grandes empresas asiáticas de semicondutores, reforçando o peso crescente do setor de tecnologia nesse conjunto de ativos.
O índice MSCI Emerging Markets, que reúne grandes companhias de 24 economias em desenvolvimento, avançou mais de 15% em abril, superando o pico anterior de fevereiro e ficando à frente do desempenho do S&P 500, principal índice dos Estados Unidos, que subiu cerca de 10% no mesmo período.
De acordo com o Financial Times, quase metade da alta do MSCI EM no mês foi puxada por apenas três fabricantes de chips — Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), Samsung Electronics e SK Hynix — que se tornaram centrais no avanço da inteligência artificial e hoje representam quase um quarto do índice.
A TSMC — que recentemente ultrapassou a Saudi Aramco como a maior empresa do índice, com valor de mercado de US$ 1,8 trilhão — subiu mais de 23% em abril. No mesmo período, a Samsung Electronics avançou 35%, enquanto a SK Hynix saltou mais de 60%.
Emergentes se alinham à tese de Wall Street – e isso preocupa
A forte concentração nesses nomes, no entanto, tem levantado preocupações entre investidores. Tradicionalmente utilizado para diversificação em relação aos mercados desenvolvidos, o índice de emergentes passa a refletir cada vez mais o entusiasmo com inteligência artificial visto em Wall Street, em vez de oferecer uma exposição mais ampla às economias em desenvolvimento.
Song Zhe, especialista sênior em investimentos da BNP Paribas Asset Management, afirmou ao Financial Times que a narrativa de inteligência artificial ganhou proporções enormes na Coreia e em Taiwan. Segundo ele, apesar de ainda ver valor nesses mercados, os investidores deveriam considerar diversificar seus portfólios durante esse ciclo de alta ligado à IA.
As ações de tecnologia lideraram o movimento, com um subíndice acumulando cerca de 50% de alta no ano. Ainda assim, outros setores também tiveram desempenho relevante: energia, indústria e serviços públicos registraram ganhos de dois dígitos.
Segundo Laijawalla, sete dos 11 setores apresentaram retorno positivo. Ele disse ao jornal que, considerando a amplitude dos retornos, a maioria dos setores teve desempenho positivo, indicando que a alta não ficou restrita apenas à tecnologia.
Apesar do avanço generalizado, o desempenho esconde perdas importantes em mercados mais vulneráveis aos efeitos da guerra com o Irã. Em dólares, bolsas de países importadores de petróleo ainda operam abaixo dos níveis pré-conflito. Desde o fim de fevereiro, os mercados da Indonésia e das Filipinas acumulam quedas superiores a 16%, enquanto a África do Sul recua 13% e o índice Sensex, da Índia, cai 9%.
Recuperação de mercados
Nos primeiros dias do conflito, as bolsas de Taiwan e da Coreia do Sul sofreram fortes quedas, com investidores realizando lucros em posições que vinham liderando os ganhos no início de 2026. No entanto, os mercados reagiram rapidamente, com a retomada do fluxo para esses ativos — mesmo diante do risco de uma crise global de energia comparável aos choques do petróleo dos anos 1970.
O mercado de Taiwan caminha para registrar seu melhor mês em décadas, com alta próxima de 25% em dólares. Já o índice Kospi, da Coreia do Sul, subiu 24%, marcando o maior avanço mensal desde a crise asiática de 1998 e atingindo sua máxima histórica.
Timothy Fung, chefe de estratégia de ações para a Ásia no JPMorgan Private Bank, afirmou ao Financial Times que a elevada participação de Coreia do Sul e Taiwan no MSCI EM — juntas, perto de 44% — reflete o papel estratégico dessas empresas nas cadeias de suprimentos das grandes companhias de tecnologia dos Estados Unidos, que vêm investindo pesadamente em infraestrutura de inteligência artificial.
Ele ponderou, porém, que essa concentração aumenta a correlação com Wall Street, destacando que se tratam de empresas e setores cíclicos, sujeitos a períodos alternados de desempenho positivo e negativo.
A participação desses mercados também foi ampliada após a MSCI limitar, em 2019, o peso das empresas chinesas a 20% do free float, devido às restrições de acesso a investidores estrangeiros.
As ações chinesas tiveram desempenho mais moderado: o índice CSI 300 subiu pouco menos de 7% em abril, ficando atrás de outros mercados asiáticos.
Outro fator que contribuiu para o desempenho dos emergentes foi a desvalorização do dólar, que tende a favorecer exportadores dessas economias. A moeda americana chegou a se fortalecer no início do conflito, mas devolveu a maior parte dos ganhos ao longo das semanas.
Varun Laijawalla, gestor da Ninety One, afirmou ao Financial Times que o dólar americano, que historicamente se move em direção oposta aos mercados emergentes, provavelmente já atingiu seu pico.
Ele acrescentou que os mercados emergentes também se beneficiam de um cenário de lucros estruturalmente mais favorável e de avaliações relativamente mais baratas em comparação com os Estados Unidos, segundo o jornal britânico.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: