Reciclagem avança, mas ainda esbarra em questões tributárias e baixa reciclabilidade
O Brasil produziu mais de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos em 2025. Desse montante, cerca de 40% tiveram destinação inadequada e acabaram em aterros ou lixões a céu aberto, apesar da proibição prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) mostram que a taxa de reciclagem no país ficou em apenas 4,5%.
O contraste entre o volume gerado e a baixa capacidade de reaproveitamento de materiais é um dos principais entraves da agenda ambiental brasileira: transformar lixo em valor econômico.
O tema foi debatido no ESG Summit 2026, evento promovido pela EXAME e realizado nesta quinta-feira, 28, em São Paulo, com a participação de Rodrigo Oliveira, CEO da Green Mining e Roberto Rocha, presidente da Associação Nacional de Catadores (Ancat).
Apesar dos avanços registrados nos últimos anos, os especialistas afirmaram que o país ainda enfrenta entraves estruturais para ampliar a reciclagem e consolidar a economia circular em larga escala.
Entre os principais obstáculos apontados estão a falta de infraestrutura para o reaproveitamento, a baixa reciclabilidade de parte das embalagens colocadas no mercado, questões tributárias relacionadas aos resíduos, a necessidade de melhorar as condições de trabalho dos catadores e o fortalecimento da educação ambiental.
Para Oliveira, o baixo índice do processo está relacionado à escassez de investimentos e ao fato de que as responsabilidades já previstas na regulação ainda não são plenamente executadas ou fiscalizadas. Na avaliação do executivo, impulsionar a logística reversa exige criar condições que garantam o cumprimento das mesmas regras por todos os agentes envolvidos.
Quem gera valor
O protagonismo dos catadores foi outro tema que ganhou destaque no debate. Responsáveis por mais de 90% dos itens reciclados no país, esses trabalhadores seguem no centro da cadeia, mas ainda enfrentam desafios relacionados à remuneração, ao reconhecimento profissional e às condições de trabalho. "A questão é econômica, não apenas social", afirmou Rocha.
Ele defendeu o fortalecimento de arranjos de negócios que aproximem cooperativas, empresas e poder público. “A colaboração entre os diferentes elos da cadeia é essencial para ampliar a recuperação de materiais e viabilizar modelos economicamente sustentáveis.”
Rocha também chamou atenção para um tema que considera pouco discutido: a definição do que efetivamente deve ser tratado como rejeito. Antes da adoção de soluções como a incineração ou outras tecnologias de tratamento, argumentou, é necessário estabelecer com clareza quais insumos realmente não possuem valor econômico ou potencial de reaproveitamento. "Vamos queimar o que dá valor?", questionou.
Nesse sentido, investir mais em cooperativas é fundamental para expandir sua presença pelo território nacional, avaliou Oliveira. Atualmente, elas estão presentes em apenas 30% dos municípios brasileiros. Ao mesmo tempo, não se pode ignorar os trabalhadores que atuam de forma independente, especialmente em regiões que ainda não contam com estruturas organizadas de coleta seletiva.
A estimativa é de que o número de catadores autônomos varie entre 800 mil e 1,2 milhão de pessoas, dependendo do cenário econômico. Em muitos casos, a atividade representa uma alternativa imediata de geração de renda a famílias em situação de vulnerabilidade.
Papel das empresas
Outro gargalo apontado durante o painel foi a própria concepção das embalagens. Segundo os participantes, muitas delas ainda apresentam dificuldades para reciclar ou não possuem viabilidade econômica para isso.
Segundo Oliveira, decisões relacionadas ao design, às cores e à combinação de materiais influenciam diretamente o potencial da recuperação de um produto. "Quanto mais simplificar, melhor", afirmou. O executivo defendeu que critérios de reciclabilidade sejam considerados desde o desenvolvimento das embalagens, facilitando a separação e o reaproveitamento após o consumo.
Por outro lado, Rocha cobrou maior comprometimento das empresas na busca por soluções para embalagens de difícil reciclagem. “A indústria já conhece boa parte dos obstáculos existentes e precisa acelerar a adoção de mudanças e tecnologias capazes de ampliar a circularidade.”
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: