Redução de consumo no Nordeste afeta resultados de empresas da bolsa

Por Clara Assunção 6 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Redução de consumo no Nordeste afeta resultados de empresas da bolsa

O fim de 2025 trouxe um sinal incômodo nos balanços de empresas expostas ao consumo das famílias: o Nordeste passou a aparecer, com mais frequência, como explicação para a piora dos resultados financeiros referentes aos meses de outubro dezembro do ano passado.

Ao menos três empresas de capital aberto falaram abertamente sobre o assunto nessa última temporada de resultados: Natura, grupo Mateus e Casas Bahia viram perda de fôlego da demanda na região, em um ambiente mais apertado para o consumidor.

Os relatos apontam para uma mesma direção. Há menos espaço no orçamento das famílias, e isso começa a aparecer tanto no carrinho de supermercado, quanto na venda de cosméticos ou na concessão de crédito para eletrodomésticos.

Na Natura, o efeito foi amplificado por uma característica do próprio negócio, uma vez que companhia tem uma presença mais forte no Nordeste do que a média nacional e, por isso, sente de forma mais intensa qualquer deterioração do consumo local.

"A nossa maior exposição regional ao Nordeste, que foi mais impactada pelo ambiente de consumo desfavorável, também pesou nos resultados", afirmou o CEO João Paulo Ferreira a analistas durante teleconferência sobre is resultados.

"Houve uma retração de demanda na região Nordeste, onde temos um market share superior a nossa média nacional, o que acaba impactando ainda mais o resultado consolidado", disse Ferreira.

O impacto ajudou a explicar a queda de 2,2% da receita da marca Natura no Brasil no quarto trimestre, em um período que já trazia outros desafios, como menor atividade da rede de consultoras.

Já no Grupo Mateus, a leitura vem da ponta mais básica do consumo. Com mais de 90% das vendas concentradas em alimentos e forte presença no Nordeste, a companhia funciona como um termômetro da renda das famílias.

"O cenário tem sido bastante desafiador com o consumo das famílias perdendo força ao longo de 2025", afirmou o CEO Jesuíno Martins. "Percebemos o consumidor levando para casa cada vez menos produtos, cerca de 8% a menos de itens no carrinho em comparação a 2024".

Segundo apontou o executivo na call de resultados, o enfraquecimento se intensificou ao longo do segundo semestre do ano passado, com volumes próximos de estabilidade e maior pressão em canais ligados à baixa renda.

Nas Casas Bahia, o impacto não veio tanto pela venda, mas pelo risco. A piora do perfil financeiro dos clientes levou a companhia a endurecer o crédito na região.

"O endividamento das famílias no Nordeste piorou bastante e, consequentemente, a inadimplência também. Então, estamos mais restritivo na concessão de crédito", afirmou o CEO Renato Franklin em conversa com a EXAME.

Segundo o executivo, a região sente mais "o peso da taxa de juros e do ambiente macro".

Por outro lado, a Pague Menos, uma das principais redes de farmácias do Nordeste, apresentou um lucro de R$ 129,3 milhões no quarto trimestre de 2025, quase o dobro dos R$ 66,5 milhões apresentados um ano antes. Procurada, a empresa não quis comentar o tema.

Inadimplência cresce no Nordeste

Os dados de inadimplência, contudo, ajudam a dar contexto ao que aconteceu entre outubro e dezembro do ano passado.

Levantamento da Serasa mostra que, entre o quarto trimestre de 2024 e o mesmo período de 2025, houve um aumento no número de inadimplentes em todos os estados do Nordeste. O valor total das dívidas também cresceu, assim como o ticket médio por pessoa.

O número total de endividados passou de 18,3 milhões de pessoas para 20,3 milhões, um aumento de 2.036.034 indivíduos em um ano. No mesmo período, o valor total das dívidas cresceu de R$ 81,8 bilhões para R$ 98,4 bilhões, alta de aproximadamente R$ 16,6 bilhões. Já o ticket médio por pessoa também avançou, saindo de R$ 4.465,17 para R$ 4.833,95.

Entre os nove estados da região, a Bahia lidera tanto em número de inadimplentes, com 5,03 milhões de pessoas, quanto em volume total da dívida, que soma R$ 21,96 bilhões. Já a Paraíba se destaca por registrar o maior ticket médio individual da região, alcançando R$ 5.403,44 por pessoa.

O padrão se repete nos demais estados, indicando não apenas mais pessoas endividadas, mas dívidas maiores por indivíduo.

Juros altos e o efeito no consumo

Para o economista Jorge Jatobá, sócio-diretor da Consultoria Econômica e Planejamento (Ceplan), o movimento é resultado de um processo que se acumulou ao longo do tempo. "Depois de muitos meses de juros elevados, isso começa a comprometer as empresas e o endividamento das famílias", afirma.

Entre o fim de 2024 e o quarto trimestre de 2025, a taxa básica de juros, a Selic, saiu de 10,75%, em outubro, para 12,25% ao ano ao final de 2024, e seguiu em alta até atingir 15% ao ano, em 2025.

Na prática, com parcelas mais caras e menos acesso a crédito, o consumo perdeu força, sobretudo entre as camadas de renda mais baixa, mais sensíveis a esse tipo de choque. "À medida que a dívida cresce, sobra menos renda para o consumo", diz Jatobá.

O economista Aristides Monteiro Neto do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) observa que esse nível de juros, o mais alto desde 2006, prejudica de alimentos, a vestuário e eletrodomésticos.

"Em especial, Natura, com perfumaria e cosméticos, e Casas Bahia, eletrodomésticos, são bens relativamente 'supérfluos' frente a alimentos e vestuário. Em períodos longos de juros elevados, as famílias tendem a adiar a compra dos supérfluos", diz Neto.

Em conversas com empresários da região, Jatobá, que é ex-secretário de Política de Emprego e Salário do Ministério do Trabalho e ex-secretário da Fazenda de Pernambuco, identificou relatos de grandes redes de varejo, especialmente supermercados, que já vêm sentindo essa compressão.

"Os supermercados já estão sentindo isso", afirma. "As grandes redes estão enfrentando dificuldades e se aproximando do limite do que conseguem suportar, pressionadas por custos elevados em um ambiente de juros ainda muito altos".

O efeito, segundo o economista, não aparece necessariamente como uma queda abrupta nas vendas, mas em mudanças no comportamento de compra. "Eu não diria que a população está comendo menos ou pior", diz. "Os indicadores mostram redução da pobreza e da desigualdade". O ajuste, diz ele, ocorre dentro do carrinho.

Com a renda mais comprometida, as famílias passam a trocar produtos e reduzir o valor das compras. "Quando os preços sobem, há substituição. A pessoa troca carne bovina por frango ou por opções mais baratas", afirma.

Esse movimento ajuda a explicar por que o setor de alimentos, ainda que mais resiliente, também começa a dar sinais de pressão, algo que, segundo ele, deve aparecer de forma mais clara nos próximos balanços.

Os economistas advertem, porém, que o avanço da inadimplência não é um fenômeno isolado do Nordeste. O aumento do endividamento das famílias vem sendo observado em todo o país, embora com menor intensidade fora da região.

Ao todo, o Brasil soma 81,7 milhões de pessoas com dívidas, um aumento de 38,1% em relação a 2016, segundo o Mapa da Inadimplência do Serasa. "O que está acontecendo é um arrefecimento da demanda de consumo", afirma Neto, do Ipea.

"Mas este quadro econômico no Nordeste não deve ser diferente do verificado no resto do país. Eventualmente, a região Centro-Oeste, por receber grande influxo de dólares de commodities, talvez não tenha este mesmo problema. Mas de todo modo, também deve sofrer algum arrefecimento no consumo das famílias, causado por algum nível de endividamento dos mais pobres", acrescenta o economista.

Efeito político

Nesse contexto, o Nordeste acaba funcionando como um primeiro sinal mais visível desse movimento. Com renda média mais baixa e maior sensibilidade a juros e inflação, a região tende a reagir antes a esse tipo de choque.

A pressão sobre o consumo ocorre mesmo com a atuação de mecanismos de compensação, como programas de transferência de renda, que ajudam a sustentar parte da demanda. Ainda assim, não são suficientes para evitar a mudança no padrão de consumo.

"Embora o Nordeste responda por cerca de 14% do PIB [Produto Interno Brito] nacional, a região concentra aproximadamente 28% da população. Isso faz com que a renda média seja menor e a região mais sensível a choques macroeconômicos, como juros altos e inflação. Nesse contexto, o endividamento cresce mais rápido e chega um momento em que a capacidade de consumo das famílias fica comprometida", diz Jatobá.

Há ainda uma dimensão política que começa a entrar no radar. Em ano eleitoral, a perda de poder de compra tende a ter efeitos diretos sobre a percepção da população.

"A inflação tem custo político, porque reduz o poder de compra das famílias", afirma o sócio-diretor da Ceplan. "Quando a economia aperta, isso aparece rapidamente no humor do eleitor".

A expectativa de aumento de gastos públicos ao longo de 2026 e do início do ciclo de afrouxamento da política monetária pode trazer algum alívio no curto prazo. Mas, para os especialistas, isso não altera o ponto central, o consumo já dá sinais de enfraquecimento, e o que os balanços captaram no fim de 2025 pode ser apenas o início desse movimento.

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