Relatório aponta caminhos para o futuro do trabalho na era da inteligência artificial
A inteligência artificial já ocupa organogramas corporativos, acelera ciclos de decisão e pressiona empresas a rever modelos de gestão, liderança e cultura organizacional. Em meio a esse cenário, a Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH Brasil) e a Flash reuniram mais de 2 mil profissionais em um webinar nacional para discutir como o RH pode assumir protagonismo na transformação tecnológica sem perder a dimensão humana das relações de trabalho.
Com o tema “Redesenhando o futuro do trabalho: os insights do SXSW que todo RH precisa aplicar agora”, o encontro marcou o lançamento do relatório “HR Futures Intelligence” (veja aqui), desenvolvido a partir da participação da ABRH Bahia no South by Southwest (SXSW) 2026, em Austin (EUA). A EXAME foi parceira de mídia.
O material consolida análises sobre os impactos da inteligência artificial no ambiente corporativo, frameworks de gestão e ferramentas voltadas à adoção prática da tecnologia nas empresas.
Entre os destaques estão a “bússola dos 6 Cs” — contexto, cultura, cuidado, capacidade, coordenação e coragem —, um checklist de prontidão para adoção de IA e um guia para ajudar lideranças a definir quais atividades devem ser automatizadas, ampliadas ou preservadas sob gestão humana.
O relatório também inclui um GPT copiloto treinado a partir da curadoria das 20 principais palestras do SXSW. “O material foi concebido para uso prático. Não é para ficar parado, a ideia é levá-lo para a equipe, discutir com lideranças e gerar mudanças reais”, disse Mari Poli, gerente de conteúdo da Flash.
Gap de confiança
Um dos principais nomes do webinar foi Sandy Carter, autora do livro “AI First, Human Always”, que concentrou a discussão em um dos principais desafios enfrentados atualmente pelas empresas: o gap de confiança entre executivos e trabalhadores no uso da inteligência artificial dentro das organizações.
Segundo a executiva, 61% dos líderes confiam na IA para decisões operacionais, enquanto apenas 9% dos funcionários demonstram a mesma confiança, uma diferença de sete vezes entre os dois grupos. Carter também afirmou que 77% dos executivos apontam a adoção da tecnologia como principal desafio corporativo atualmente.
Durante a apresentação, ela destacou que agentes de IA já ocupam funções formais em organogramas empresariais e que cerca de 720 milhões desses agentes estão hoje em operação globalmente.
Para a especialista, o avanço dessas ferramentas nas empresas depende menos da tecnologia em si e mais da capacidade das organizações de preparar pessoas e processos. “Pessoas, processo e plataforma, nessa ordem. 70% do sucesso da IA depende de pessoas e processo”, afirmou.
Ao defender que a discussão sobre o tema precisa ir além da esfera puramente tecnológica, Carter citou o caso da Mayo Clinic como exemplo de implementação associada à expansão da força de trabalho. Segundo ela, o hospital contratou mais de 12 mil pessoas ao mesmo tempo em que implementava tecnologia em 22 áreas diferentes da operação. O projeto levou a instituição a ser reconhecida pela revista Newsweek como o hospital inteligente número um do mundo.
Sandy Carter discutiu os desafios da adoção da inteligência artificial nas empresas e alertou para o gap de confiança entre executivos e trabalhadores no uso da tecnologia (Divulgação)
O futuro do RH
O webinar reuniu 2.039 inscritos de diferentes regiões do país e ultrapassou 1.500 visualizações únicas. A ideia foi discutir como o RH brasileiro deve responder à aceleração da inteligência artificial sem perder qualidade nas relações humanas dentro das empresas.
A discussão foi baseada nos aprendizados trazidos do SXSW 2026 por Vitor Igdal, presidente da ABRH Bahia. Segundo ele, a velocidade de evolução da IA já superou a lógica tradicional da Lei de Moore e hoje avança em ciclos de aproximadamente 45 dias.
“Quanto mais a tecnologia acelera, mais estratégico se torna tudo aquilo que a organização não pode automatizar sem perder a qualidade humana, a inteligência coletiva e a capacidade de decisão”, afirmou.
Igdal apresentou as chamadas “sete pressões do futuro”, conjunto de fatores que, segundo ele, devem alterar o papel do RH nas organizações. Entre os pontos destacados estão a escassez de atenção qualificada, a valorização das people skills, a necessidade de fortalecer conexões humanas e a governança da IA.
“Hoje, 95% dos projetos de implementação de IA no mundo estão falhando, e os 5% que funcionam são liderados pelo RH”, disse.
O debate também trouxe sinais de mudança na própria estrutura de liderança das empresas. A CEO da Nossa Praia, Dilma Campos, afirmou que o RH tende a assumir um papel mais central nas decisões estratégicas das companhias.
Segundo ela, o conceito tradicional de CEO passa por transformação e caminha para um modelo de “Curator Executive Officer”, focado em curadoria de talentos e integração entre humanos e agentes de IA.
Dilma apresentou ainda uma pesquisa com 1.585 respondentes mostrando que 82% dos brasileiros já se sentiram sozinhos mesmo conectados digitalmente, enquanto 71% acreditam que o país não está preparado para educar jovens em um cenário de inteligência artificial.
IA na prática
A aplicação prática da IA dentro das empresas apareceu no painel mediado por Isadora Gabriel, da Flash. O Magalu revelou ter liberado acesso às ferramentas de IA do Google para seus 35 mil funcionários e consolidado mais de 200 iniciativas em produção após um ano do projeto.
“Existe uma janela de oportunidade para o RH capitanear essa liderança, mas toda janela se fecha em algum momento”, afirmou Caio Nalini, diretor de gestão de pessoas da companhia.
Na Atena Saúde, a estratégia foi priorizar cultura antes da escala tecnológica. “A transformação que está vindo não é digital, é humana”, disse Rodrigo Ladeira, CHRO da empresa.
Outro ponto recorrente ao longo do encontro foi o risco de dependência excessiva da IA. Os participantes alertaram para o avanço da chamada “atrofia cognitiva”, ligada à terceirização de decisões e pensamento crítico para sistemas automatizados. “Precisamos ser intencionais no uso da IA para não terceirizar completamente o pensar e o decidir”, afirmou Igdal.
Segundo estudos apresentados no webinar, equipes com altos níveis de confiança interna conseguem produzir até 106% mais e têm 56% menos chances de enfrentar burnout.
Ao longo do webinar, o debate convergiu para uma mesma leitura: o RH deve assumir papel mais estratégico no avanço da inteligência artificial dentro das empresas. “O RH deixa de ser apenas suporte e passa a atuar como arquiteto e engenheiro do futuro do trabalho”, concluiu Igdal.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: