Renner está fora da guerra de preços, diz CEO: 'promoção só quando necessário'
Em um ambiente de consumo mais pressionado, com juros elevados e varejistas disputando clientes com promoções agressivas, a Lojas Renner (LREN3) decidiu seguir um caminho diferente: evitar entrar na chamada "guerra de preços".
A estratégia, segundo o CEO da companhia, Fabio Faccio, é apostar em eficiência operacional e em coleções mais assertivas para sustentar vendas e margens, mesmo quando parte do setor busca atrair consumidores com peças cada vez mais baratas.
"Temos reduzido a sobra de produtos, o que também impulsiona as nossas margens e nos permite pontualmente até fazer algumas promoções, quando necessário, mas num volume menor. Assim conseguimos ser muito mais competitivo no produto que a cliente quer, não entrando numa guerra de preços por produtos comparáveis", afirma o executivo.
A decisão vem em um momento em que o bolso do consumidor brasileiro está mais apertado. Com a taxa básica de juros em 15% ao ano, o maior patamar desde 2006, famílias mais endividadas tendem a reduzir o consumo, pressionando especialmente varejistas de moda.
No mercado, analistas apontavam que esse cenário poderia trazer desafios para o quarto trimestre de 2025. Um relatório do Santander, por exemplo, destacava que o último trimestre do ano passado foi marcado por um inverno mais longo, além de um tráfego mais fraco nas lojas físicas, possivelmente impactado por campanhas promocionais mais agressivas de marketplaces.
Mesmo nesse contexto, a Renner apresentou resultados positivos, ainda que com um ritmo mais moderado de crescimento no fim do ano, de acordo com balanço divulgado nesta quinta-feira, 5.
No quarto trimestre de 2025, a varejista registrou lucro líquido de R$ 552,6 milhões, alta de 13,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. O Ebitda ajustado somou R$ 1,116 bilhão, avanço de 9%, enquanto a receita líquida de varejo alcançou R$ 4,35 bilhões, crescimento de 4,3%.
No acumulado de 2025, os números foram ainda mais fortes. A companhia reportou lucro líquido de R$ 1,46 bilhão, aumento de 21,8%, com Ebitda ajustado de R$ 3,19 bilhões (alta de 20,3%) e receita líquida de varejo de R$ 13,84 bilhões, crescimento de 9,2%.
Segundo Faccio, esse desempenho reflete os ganhos de eficiência e maior assertividade na operação. "As vendas do varejo avançaram 9,2%, refletindo ganhos relevantes de market share e fortalecimento da nossa liderança no varejo de moda brasileiro", diz o executivo.
Menos foco na promoção e mais na eficiência
Ainda que os resultados tenham sido positivos, a companhia reconhece que o quarto trimestre foi mais desafiador. As vendas em mesmas lojas (SSS) cresceram 3,3% no período — bem abaixo do avanço de 8,1% registrado no acumulado do ano.
"O início do quarto trimestre teve temperaturas mais amenas do que a média histórica, então realmente foi um desafio no trimestre. Mas os dois principais eventos do período, Black Friday e Natal, no nosso caso foram muito bons", afirma o CEO.
"Por mais que o mercado estivesse mais promocional, conseguimos fazer boas vendas com uma intensidade menor promocional, o que inclusive nos ajudou tanto nas vendas quanto na margem bruta".
Segundo Faccio, a estratégia está diretamente ligada ao modelo operacional desenvolvido pela empresa nos últimos anos, que "tem permitido reduzir as sobras do estoque e ser mais assertivos em que produto o cliente quer", observa.
"Isso tem melhorado a nossa assertividade das coleções. E com ela estamos conseguindo vender o produto de moda mais rapidamente, com maior preço de coleção".
Essa estratégia também ajudou a sustentar a rentabilidade da empresa. A margem Ebitda ajustada chegou a 25,6% no quarto trimestre, avanço de 1,1 ponto percentual na comparação anual. Já a margem bruta atingiu 56,5%, beneficiada pela gestão mais disciplinada de estoques e menor intensidade promocional.
Expansão em 2026
Mesmo com o cenário macroeconômico desafiador, a Renner mantém planos ambiciosos de crescimento. A companhia projeta expansão de vendas entre 9% e 13% ao ano entre 2026 e 2030, faixa semelhante ao desempenho de 2025. Para 2026, a expectativa é de uma dinâmica diferente da observada no ano passado.
"A gente imagina um primeiro semestre com crescimento menor e um segundo semestre mais forte", disse Faccio. A empresa também planeja acelerar investimentos. O capex previsto para 2026 é de R$ 1,05 bilhão, destinado principalmente à expansão da rede.
A meta é abrir entre 50 e 60 novas lojas no ano, considerando todas as marcas do grupo. Apenas a bandeira Renner deve ganhar entre 22 e 30 unidades, com foco em cidades médias onde a empresa ainda não possui presença física. A marca jovem Youcom deve receber entre 23 e 25 novas lojas. Em 2025, a companhia abriu 34 novas unidades.
Relação com os acionistas
No mercado financeiro, as ações da Renner acumulam alta de 9,4% em 2026 até agora, após terem avançado mais de 16% em 2025. O desempenho, porém, ficou abaixo do observado em alguns concorrentes. Os papéis da Riachuelo subiram mais de 90% no ano passado (considerando dividendos reinvestidos), enquanto os da C&A avançaram mais de 65%.
Para o CEO da Renner, entretanto, a ação ainda negocia abaixo do valor que a companhia acredita refletir seu potencial. "Na nossa visão, o preço atual não reflete o valor da companhia", afirmou Faccio, acrescentando que as ações "ainda deveriam valorizar bastante",
Por essa razão, a empresa decidiu intensificar a política de recompra de papéis. Após concluir um programa anterior, a companhia anunciou um novo plano de recompra de até 75 milhões de ações, o terceiro consecutivo.
No último ano, a Renner distribuiu R$ 1,8 bilhão aos acionistas, somando juros sobre capital próprio e recompras — o equivalente a cerca de 120% do lucro do exercício.
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