Rio Fashion Week: a moda volta à Cidade Maravilhosa — e desta vez fala de negócios

Por Júlia Storch 14 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Rio Fashion Week: a moda volta à Cidade Maravilhosa — e desta vez fala de negócios

O Rio de Janeiro retoma em abril seu lugar no calendário oficial da moda brasileira. A partir de hoje, 14, até sábado, 18, o Rio Fashion Week ocupará três armazéns do Porto Maravilha e o histórico prédio do Touring. O evento receberá vinte marcas de todas as regiões do país em dezenove apresentações distribuídas por locais emblemáticos da cidade e no Píer Mauá.

O evento é organizado pelo IMM, a mesma empresa responsável pelo São Paulo Fashion Week. Mas as ambições são maiores do que o evento paulistano. O RIOFW pretende integrar moda, negócios, entretenimento, talks, bem-estar, gastronomia e sustentabilidade. "O RIOFW nasce como uma plataforma que vai além dos desfiles. O evento veio para ficar, com edições recorrentes, e passa a integrar o calendário global da moda", diz Gustavo Oliveira, diretor do IMM.

Um calendário, duas cidades

Com a chegada do RIOFW, as semanas de moda do Rio e de São Paulo passam a operar de forma integrada dentro do Calendário Oficial da Moda Brasileira. O modelo prevê uma divisão clara: o Rio Fashion Week no primeiro semestre, com foco em coleções de verão, e o São Paulo Fashion Week no segundo semestre, mantendo sua estrutura, identidade e posicionamento histórico. A Prefeitura do Rio já garantiu apoio para três edições do evento.

"O Rio de Janeiro tem uma vocação natural para sediar grandes eventos de projeção internacional, e o RIOFW nasce justamente desse momento em que a cidade volta a ocupar um lugar estratégico no cenário global. Esta primeira edição marca não apenas o retorno dos grandes desfiles ao Rio, mas a consolidação de uma plataforma que complementa o calendário nacional, dialogando com São Paulo e ampliando a presença do Brasil no circuito internacional", diz Olivia Merquior, curadora de conteúdo do evento.

O impacto econômico esperado é expressivo. A Prefeitura do Rio de Janeiro estima que o evento movimente mais de R$ 200 milhões na economia da cidade, com geração de 8 mil empregos e capacitação de jovens para o setor. Há ainda a projeção de até R$ 1 bilhão em mídia espontânea para a cidade. "A moda movimenta a economia, gera emprego e projeta a imagem do Rio para o mundo. Apoiar o Rio Fashion Week é investir na vocação criativa da cidade e nas oportunidades para os cariocas", diz o prefeito Eduardo Cavaliere.

O Rio como vitrine global

A escolha do Rio de Janeiro como sede não é apenas geográfica — é estratégica. A cidade vive um momento de protagonismo cultural e turístico que reposiciona sua relevância no mapa da moda global. Essa leitura é compartilhada por quem está no mercado.

Airon Martin, fundador e estilista da Misci — marca originária do Centro-Oeste e uma das vinte selecionadas para o RIOFW —, é um dos nomes que parou de desfilar no São Paulo Fashion Week e decidiu participar da semana carioca.

Para Airon, o diferencial do RIOFW está em sua estrutura B2B. O evento traz compradores globais custeados pela própria organização, entre eles, representantes da Galeries Lafayette, o que representa uma economia real para as marcas participantes e uma oportunidade de acesso a mercados que dificilmente chegariam por conta própria.

Além disso, o calendário do evento antecede a semana oficial do atacado, o que permite que as marcas apresentem suas coleções primeiro para a imprensa e, só depois, levem o produto para a venda no atacado — uma lógica que o estilista considera mais adequada para a dinâmica comercial atual.

Há também um componente de mercado que Airon destaca com dados de seu novo ponto de venda na cidade: em fevereiro deste ano, 60% dos clientes da Misci no Rio eram estrangeiros, respondendo por 70% das vendas. O perfil desse público surpreendeu até o próprio fundador — stylists, donos de agências de relações públicas, editores de veículos estrangeiros. "O Rio de Janeiro é a vitrine cultural do Brasil. Se você fala de uma moda global hoje, o Rio de Janeiro seria a melhor vitrine", diz. Tanto que, para Airon, sua primeira loja física fora de São Paulo não foi em uma capital europeia ou nos Estados Unidos — foi no Rio. A unidade, recém-inaugurada na Garcia da Ávila, em Ipanema, ocupa mais de 300 metros quadrados em uma das regiões comerciais mais valorizadas da cidade. "Não acho que minha primeira loja global tem que ser fora do Brasil, porque o Rio ele é global", diz.

A lógica das colaborações

O desfile da Misci no RIOFW, no dia 17, será o maior da história da marca, com mais de 900 convidados, e contará com colaborações que reforçam o posicionamento comercial e criativo da grife. Uma delas é com a Veja, marca francesa de calçados que produz a grande maioria de seus pares no Brasil e colabora com criadores nacionais como parte de sua estratégia global. O resultado é o primeiro tênis da Misci.

Rio Fashion Week: colaboração entre Veja e Misci para a semana de moda (Divulgação/Divulgação)

"Só fez sentido porque é uma marca que valoriza a nossa mão de obra e os nossos criativos", explica Airon. O lançamento da coleção conjunta está previsto para 28 de maio, com distribuição global. A outra parceria é com a Casio, que integra o desfile de forma conceitual: os relógios da marca foram utilizados como broches, reposicionando o acessório e contribuindo para a construção estética das peças. "Ficou bem legal. Ajudou muito a reconfigurar o produto", conta o estilista. "Esta colaboração nasce de uma conexão genuína entre marcas que priorizam o design autoral e a identidade. Enquanto a MISCI traduz o Brasil com sofisticação, a Casio Vintage carrega um legado que atravessa décadas. Esse encontro propõe o relógio como parte ativa da estética, funcionando como um elemento de linguagem dentro do conceito do desfile", destaca Fernando Fukuda, head de marketing da Casio Brasil.

Atualmente, a Misci opera com 34 multimarcas, 28 no Brasil e seis no exterior. Com a distribuição via pontos de venda da Veja, esse alcance deve se ampliar significativamente.

Outras marcas que também se voltaram para colaborações foram a Piet e Pool. As marcas apresentarão uma coleção inspirada no futebol, com peças clássicas do universo esportivo sob uma ótica contemporânea. A collab estará disponível a partir de maio em lojas selecionadas, no site e no app da Riachuelo.

“Sempre pensei na Piet como algo que vai além da roupa, é sobre criar conexões e construir uma comunidade. Esse desfile com a Pool vem muito desse lugar, de ampliar esse alcance, de levar essa energia para mais pessoas, sem perder a nossa essência. Existe uma valorização da presença, da experiência coletiva, de viver aquilo em conjunto, que faz muito sentido para a gente trazer para a passarela. O futebol entra como uma referência muito natural dentro desse contexto. É algo que faz parte da nossa cultura e da nossa memória afetiva, e que também sempre esteve presente no meu repertório”, diz Pedro Andrade, fundador da Piet.

Pedro Andrade: fundador da Piet, que terá colaboração com a Pool para a semana de moda (Divulgação/Divulgação)

Brasil no mapa global

O RIOFW também marca a chegada ao Brasil de uma das mais relevantes plataformas de fashion business do mundo. A Coterie New York, feira realizada desde 1968 que reúne mais de 9 mil visitantes e cerca de 630 expositores por edição. O Rio Fashion Week será o ponto de encontro para avançar sua estratégia de conexão com marcas nacionais.

O movimento acontece em um momento em que o Brasil consolida sua presença na feira, com crescimento médio de 15% a cada edição. Em setembro do ano passado, o país alcançou a terceira maior participação entre mais de 70 nações presentes, atrás apenas da Itália e da Turquia. Na edição de verão de 2025, as marcas brasileiras geraram US$ 1,7 milhão em negócios imediatos, com expectativa de US$ 4,1 milhões em vendas nos 12 meses seguintes, segundo dados do Texbrasil.

"Estamos vendo uma mudança clara de percepção: o Brasil não é apenas um polo criativo, mas um mercado competitivo, com marcas preparadas para operar globalmente", afirma Simone Jordão, consultora de negócios internacionais e representante brasileira do grupo americano Informa, que detém, entre outros negócios, a Coterie NY e a Magic Las Vegas.

No Rio, a proposta é aprofundar essa relação. O encontro durante o RIOFW contará com a presença de Kristin Borland, diretora de relações públicas do grupo Informa. A expectativa é ter mais de 50 marcas brasileiras na edição de 2026 da Coterie. Dentro do evento carioca, o núcleo batizado de Destination by Coterie funcionará como uma curadoria especial dedicada ao resortwear e ao beachwear, categorias em que a produção brasileira se destaca internacionalmente.

A diversidade da presença brasileira abrange todas as categorias — do vestuário ao beachwear, acessórios e calçados —, com marcas em diferentes estágios de maturidade, de nomes consolidados como Osklen, Schutz e Água de Coco a labels em crescimento como Jungle Society e Zâmbia. Casos como os da Farm Rio e PatBo ajudam a ilustrar esse avanço: ambas ampliaram sua atuação internacional a partir da Coterie.

Vinte marcas, um país inteiro

André Namitala: estilista e fundador da Handred estará na semana de moda (Divulgação/Divulgação)

O line-up do RIOFW reflete uma curadoria que vai além do eixo Rio-São Paulo. Das vinte marcas selecionadas, nove são cariocas: Angela Brito, Blue Man, Handred, Isabela Capeto, Lenny Niemeyer, Lucas Leão, Osklen e Salinas. As demais chegam de diferentes regiões do Brasil — do Centro-Oeste, a Misci; do Norte, Aluf e Normando; do Nordeste, Dendezeiro e Helô Rocha; de Minas Gerais, Apartamento 03 e Hisha; de São Paulo, a Piet; e do Sul, Karoline Vitto. A Adidas completa o line-up, trazendo uma perspectiva diretamente conectada ao esporte e à sua influência crescente na moda internacional.

Para Airon Martin, esse modelo coletivo é o que justifica a aposta em uma semana de moda em detrimento de desfiles isolados. "Não acredito que um desfile só, isolado, vai gerar o impacto que uma semana de moda gera. Quero muito que o Brasil decole como destino de moda", diz. O estilista reconhece que o evento ainda precisa de mais patrocinadores e investimento, mas afirma ter gostado do que a proposta apresenta. Para ele, a divisão entre verão no Rio e inverno em São Paulo faz sentido, não apenas logisticamente, mas culturalmente. "As marcas cariocas conversam muito mais com o Brasil, Centro-Oeste, Nordeste, Norte, por uma escolha de matéria-prima, por uma questão de lifestyle. O Rio é a nossa vitrine cultural."

Pelos próximos cinco dias, a cidade que sempre foi cartão-postal do Brasil testa sua capacidade de se tornar, também, cartão-postal da moda brasileira para o mundo.

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