Risco para a América Latina não é perder empregos para IA, mas ficar para trás, diz WEF

Por Luciano Pádua 14 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Risco para a América Latina não é perder empregos para IA, mas ficar para trás, diz WEF

O debate global sobre inteligência artificial (IA) é dominado pelo temor recorrente de que a nova tecnologia substitua trabalhadores. Para Agustina Callegari, especialista em governança tecnológica do Fórum Econômico Mundial (WEF, em inglês) com foco na América Latina, o maior risco para a região não é a destruição de empregos provocada pela IA, mas a incapacidade de incorporá-la com rapidez suficiente para capturar seus ganhos econômicos.

“O que vemos é justamente um risco e um medo generalizado de que a IA acabe com empregos e gere mais desiguldade", diz Callegari, que lidera a Coalizão Global do WEF, em entrevista à EXAME. "Mas o foco que estamos colocando está relacionado ao risco que existe de ficarmos para trás."

A avaliação da especialista, que esteve no Websummit, no Rio de Janeiro, nesta semana, é relevante para uma região que convive historicamente com baixa produtividade, crescimento econômico limitado e elevada desigualdade social.

“Existe um risco muito grande de que, se a inteligência artificial não for adotada de uma forma que permita aproveitar seu potencial e essa geração de valor, o risco para a população será ainda maior — e o risco de aumento da desigualdade será ainda maior”, afirma Callegari.

IA pode adicionar até US$ 1,7 trilhão à economia da região

O alerta do WEF vem acompanhado de uma projeção ambiciosa. Segundo estudo produzido pelo Fórum em parceria com a consultoria McKinsey, a adoção da inteligência artificial poderia gerar uma transformação econômica sem precedentes na América Latina.

Segundo Callegari, a tecnologia pode elevar a produtividade regional entre 1,9% e 2,3% ao ano e adicionar entre US$ 1,1 trilhão e US$ 1,7 trilhão à economia latino-americana.

Mas há um problema: as empresas ainda não conseguem transformar esse potencial em resultados concretos.

"Apenas 23% das organizações da América Latina que responderam a esta pesquisa estão gerando valor econômico com o uso de inteligência artificial", disse Callegari.

Ela acrescenta que apenas uma fração ainda menor conseguiu observar impacto econômico direto. "Somente 6% viu que a IA agregou valor", afirma.

Energia e infraestrutura: o papel do Brasil

Na visão do WEF, a América Latina tem algumas vantagens competitivas importantes na corrida global por inteligência artificial, especialmente em setores ligados a recursos naturais.

“A região tem uma vantagem competitiva em setores de mineração, energia, turismo e serviços financeiros", diz a especialista.

Para aproveitar esse pontencial, o desenvolvimento de infraestrutura será determinante. Ela destaca que a região possui uma oportunidade particular em razão de sua matriz energética e disponibilidade de recursos naturais. "É necessário aproveitar os recursos renováveis, de energia e de água que temos na região para conseguir ter essa capacidade computacional", afirma.

Sem essa base física, porém, ela pondera que a expansão da IA tende a ficar comprometida.

No cotidiano, aponta a especialista, a região quer avançar em IA, mas ainda não parece saber por onde começar.

Segundo Callegari, governos e empresas latino-americanas enfrentam hoje uma pressão crescente para desenvolver estratégias ligadas à inteligência artificial, mas muitas vezes sem clareza sobre prioridades ou modelos de implementação.

"Existe uma preocupação dominante na região de ficar para trás sem saber exatamente do quê", afirma. "Há uma pressão por fazer algo com AI, mas pouca clareza por onde começar, sobre o que é real, o que é hype e como justificar os investimentos."

Corrida global por IA e os blocos tecnológicos

Além dos desafios internos da América Latina, Callegari chama atenção para um cenário geopolítico cada vez mais complexo.

Segundo ela, o mundo vive hoje uma crescente fragmentação das regras globais de inteligência artificial, com diferentes modelos regulatórios emergindo simultaneamente nos Estados Unidos, Europa e China. “O que vemos é um contexto de fragmentação no qual há grandes diferenças regionais", afirma.

Em sua avaliação, o desafio agora é construir algum grau de interoperabilidade internacional para evitar que empresas e governos enfrentem sistemas incompatíveis entre diferentes jurisdições.

“Há muitas iniciativas, regulações,mas há uma necessidade de fazer esses marcos interoperáveis", diz.

O tema se tornou central dentro do próprio Fórum Econômico Mundial, que trabalha em iniciativas globais de governança tecnológica junto a governos e setor privado.

Sem estratégia, desigualdade pode aumentar

Apesar do otimismo em torno do potencial econômico da inteligência artificial, Callegari alerta que o avanço tecnológico não produzirá benefícios automáticos.

Ela aponta que o desafio central é, ao não frear o desenvolvimento da IA, garantir que sua implementação seja acompanhada por políticas públicas, educação e requalificação profissional.

“Não se trata de frear a IA,  mas pensar como está se desenvolvendo, para quem e quem se beneficia", diz.

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