Roupas mais caras? Escalada no Oriente Médio respinga na indústria da moda
A alta do petróleo afeta uma cadeia ampla, de transportes a alimentos — e a indústria da moda não foge a essa lógica. Poliéster, nylon e acrílico, presentes em diversas vestimentas, são derivados da commodity. A exemplo disso, o poliéster responde por cerca de 50% a 55% da produção global de fibras têxteis.
Com o fechamento do Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 25% da oferta global —, o Brent, principal referência internacional de preços, ultrapassou US$ 120 por barril. Como consequência, há pressão sobre custos de matérias-primas e produção, com potencial impacto nos preços do vestuário, segundo especialistas. A Agência Internacional de Energia (IEA) classificou o fechamento do estreito como o maior choque de oferta já registrado.
“Ainda não chegou aos fornecedores, mas deve ter um efeito gradual de aumento de custo ao longo da cadeia”, aponta Luiz Guanais, analista de varejo e consumo do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).
Os primeiros sinais já aparecem. Segundo Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), há relatos de aumentos de até 40% no poliéster desde o início do conflito. “Cravar números seria arriscado, mas isso já pressiona os custos de reposição. O impacto é real”, afirma.
Esse cenário se reflete na formação de preços. Segundo Pimentel, as precificações estão instáveis e ainda não há visibilidade sobre o custo final dos produtos. “Está todo mundo inseguro, mas o mercado não parou”, diz.
Na prática, o movimento já começa a aparecer nas matérias-primas. Silvana Scheffel, professora de Global Fashion Business da ESPM, afirma que há aumento de 10% a 20% no custo de fibras sintéticas, como poliéster e acrílico.
Na China, o filamento de poliéster registrou aumento de cerca de 3.000 yuans por tonelada em apenas três dias após a escalada do conflito entre Israel e Irã, segundo dados da Mysteel/CCFGroup, citados por Camila Affonso, sócia da Leggio Consultoria.
Esse avanço de custos já começa a aparecer também nas projeções de grandes varejistas globais. Em entrevista ao The Guardian, o CEO da Next plc, Simon Wolfson, afirmou que os preços das roupas podem subir entre 4% e 10% caso a guerra se estenda até o outono no hemisfério norte.
Segundo ele, os reajustes podem começar em torno de 1% já a partir de junho ou julho, e os custos adicionais podem chegar a £15 milhões em um cenário de três meses de disrupção. Isso derivado do aumento no custo do combustível, mas também ao aumento em custos de tecidos.
Até o momento, no entanto, a companhia relata impacto limitado na operação, com estoques suficientes para evitar rupturas, apesar de atrasos logísticos. A avaliação é que uma escalada mais longa tende a exigir repasses ao consumidor.
Na mesma linha, o CEO da H&M, Daniel Ervér, afirmou à Reuters que um conflito prolongado, combinado com preços elevados de energia, pode intensificar a pressão inflacionária e afetar o consumo de moda.
Na esteira da alta do petróleo, o impacto também chega à indústria petroquímica. Fábio Spinola, CIO da Apex Capital, aponta para a elevação nos preços das resinas, como polietileno e polipropileno, insumos usados na produção de materiais amplamente utilizados pelo setor têxtil, como poliéster, nylon e EVA.
A pressão sobre os custos já aparece também nos indicadores da indústria. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que o índice de custo médio das matérias-primas subiu 10,8 pontos entre o quarto trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2026, atingindo o maior nível desde o segundo trimestre de 2022.
As resinas acumulam altas entre 64% e 80% e ainda enfrentam restrições de oferta, com a Braskem reduzindo cerca de 40% no volume de entregas, segundo Spinola.
Os efeitos da Guerra no Irã, no entanto, não se restringem aos custos e já começam a atingir a operação das varejistas. Ainda segundo a Reuters, remessas de roupas da Inditex, dona da Zara, e de outras grandes redes ficaram retidas em aeroportos de Bangladesh e da Índia devido às restrições ao transporte aéreo de carga na região.
Vai chegar ao Brasil?
A princípio, esse repasse de custos de fornecedores para os varejistas tende a ser mais especulativo, do que realmente reflexo de aumento de preços do que já estava comprado em estoque ou a caminho, explica Ricardo Teixeira, coordenador do MBA em Gestão Financeira da FGV.
“A especulação sobre o custo de reposição de estoques de matéria prima tem se traduzido em aumento de custo de produto final”, comenta.
Não é que os impactos não possam chegar, de fato, mas o Brasil, em partes, está protegido. Segundo Affonso, excesso de oferta crônico de fibras na China tem segurado as magens da cadeia ao longo de 2025 e início de 2026. Somado a isso, o câmbio favorável, com dólar na casa dos R$ 4,90 e queda de mais de 10% em 12 meses, reduz o impacto em reais para o importador brasileiro.
“Há também uma defasagem temporal, já que estoques na cadeia (origem, trânsito e destino) geralmente representam de 60 a 90 dias de cobertura. Podemos estimar, considerando as projeções da Leggio de duração da Guerra no Irã, que o choque de petróleo de abril aparecerá no custo da peça brasileira entre julho e setembro de 2026”, aponta Affonso.
Caso o petróleo permaneça no patamar atual por mais 60 dias, a especialista diz que é razoável esperar repasse de 8% a 15% no preço da fibra sintética importada – mas parcialmente neutralizado pelo câmbio. “Em produto acabado (camiseta, blusa, peça de moda fast fashion), o impacto direto da matéria-prima fica entre 3% e 6% do preço de prateleira, considerando que a fibra representa de 20% a 35% do custo do tecido.”
"O petróleo não chega à roupa em linha reta. A cadeia do poliéster tem três pontos de amortecimento, sobrecapacidade chinesa, câmbio favorável e estoques em trânsito, que distribuem o choque ao longo de seis a nove meses. A pergunta certa não é se vai chegar, é com que intensidade chega no terceiro trimestre”, ressalta Affonso.
Atraso nas entregas
A indústria da moda também enfrenta outro desafio: o transporte dessas matérias-primas e insumos. Com a necessidade de desvio de rotas e reducação da velocidade para economizar combustível, o tempo de entrega desses materiais pode aumentar.
Guanais conta que, em conversas com as varejistas, elas dizem monitorar de perto essa questão – apesar de ainda não terem sentido o impacto. Entretanto, Pimentel já fala em 10-20 dias de atraso que podem ser gerados com esses desvios de rotas.
“Alguns fatores podem adicionar esse tempo em algumas rotas, como desvio de navios, maior custo do seguro e congestionamentos. E esses 10-20 dias podem ser maior quando há transbordo ou falta espaço no navio. Os navios estão parados, então daqui a pouco pode pode ocorrer até mesmo escassez de barcos para transportar os produtos”, diz Pimentel.
Segundo especialista da Leggio, ainda não há dados concretos que confirmem ou descartem atrasos de até 20 dias nas entregas. O ponto central, porém, é que são os efeitos indiretos que a Guerra no Irã provoca na logística global — como justamente desvios de rotas e congestionamentos em portos.
Com navios evitando o Canal de Suez e contornando o Cabo da Boa Esperança, o tempo de transporte entre a Ásia e o Brasil já aumenta em cerca de 10 a 14 dias sobre o padrão, que costuma variar entre 30 e 45 dias. Além disso, há atrasos tanto na origem, com portos chineses operando acima da capacidade, quanto no destino, onde a infraestrutura brasileira também enfrenta gargalos.
“Os 20 dias de atraso são possíveis e vêm da reorganização da malha global que o conflito provocou, somada à fragilidade portuária brasileira, que opera com índice de pontualidade abaixo de 25% e fila crônica em Santos e Paranaguá. A roupa chega tarde porque a cadeia inteira ficou mais longa, não porque o navio entrou no fogo cruzado", pontua Affonso.
Somado a isso, o custo do frete também aumentou devido à alta do petróleo. Segundo Teixeira, esse encarecimento — tanto pelo aumento do risco quanto pelo uso de rotas alternativas mais longas — mudou a dinâmica que estava estabelecida.
“A mudança foi substancial, pois o preço inclui o transporte, o combustível e o seguro, que em alguns casos ficou muito caro”, comentou, ainda dizendo que a manutenção dos atuais níveis dependerá dos desdobramentos do conflito.
Uma alta de 40% no frete pesa aproximadamente 5% no custo final, de acordo com a Leggio. Uma alta de 15% na matéria-prima pesa cerva de 7% pontos. Os dois movimentos juntos somam pressão que pode atingir quase 15% no custo posto em armazém antes de margem.
Scheffel resume: “O impacto para a cadeia de valor da moda, assim como o de outras indústrias, é sentido não só por conta do aumento de petróleo, mas também devido a restrições logísticas que causam aumento do custo dos fretes e a ruptura de cadeias globais de valor.”
Margens podem ficar pressionadas
O resultado disso tudo é que as margens das varejistas podem ficar pressionadas. Por hora, de acordo com Guanais, este balanço não mostrará efeitos relevantes — mas eles podem começar a aparecer mais para o fim do segundo trimestre.
“Esse prazo está relacionado ao lead time (tempo entre a produção e a chegada do produto ao mercado) da indústria da moda, tanto do que é feito no Brasil quanto, principalmente, do que é importado.”
Affonso também diz que os efeitos nas margens devem ser vistos apenas no segundo semestre. O impacto demora a aparecer, porque os estoques de matéria-prima comprados antes do choque do petróleo seguram as margens no curto prazo. Sendo assim, as coleções de inverno 2026 já estão precificadas e vendidas.
“O reajuste só deve entrar nas coleções de primavera-verão 2026/2027, com efeito caixa entre o terceiro e o quarto trimestre – mas o hedge cambial ativo em parte das companhias ainda suaviza o golpe inicial”, diz.
Segundo ela, quem mais irá sofrer é o varejista de massa que depende de fibra sintética importada, tem logística ineficiente, marca fraca e dívida alta. “Esse perfil leva o impacto completo do choque. Quem segura melhor combina algodão e sintético no mix, gira coleção rápido, faz hedge de câmbio e mantém despesas sob controle.”
Para as listadas, o timing é incerto e deve variar para cada empresa — mas até as de calçados estão no jogo. “Alpargatas deve mostrar impacto gradual, atenuado pelos fatores estruturais. A Vulcabras declarou o segundo trimestre blindado pelos estoques estratégicos, e o terceiro será o primeiro trimestre de exposição real caso o conflito persista”, diz o CIO da Apex.
Já para vestuário e wellness, segundo ele, a pressão vem tanto pelo custo de matéria-prima importada quanto por eventual enfraquecimento de demanda. De maneira geral, ele concorda, “grande parte das empresas devem sentir impacto maior no segundo semestre do ano, quando terão que repor estoques em um preço médio mais alto.”
Em entrevista à EXAME, Fabio Faccio, CEO da Lojas Renner, confirmou que há um impacto do custo do diesel em fretes rodoviários, mas categorizou como "leve". Já em relação à matéria-prima, nesse momento, não visualizam um impacto, justificado pelos fornecedores trabalharem com estoque.
"Mas, lógico, isso depende muito da extensão do conflito. Se o conflito tiver um tempo maior, sim. Acho que qualquer produto derivado de petróleo e outros produtos [vão subir de preço], a inflação pode vir de vários aspectos", comentou Faccio.
André Farber, CEO da Riachuelo, também diz ainda sentir pouco o impacto. Segundo ele, a diversidade de fornecedores é o que ajuda. Na companhia, 40%-50% são da fábrica própria, enquanto 20%-30% vem da cadeia nacional, e os outros 20%-30% de importação.
"Essa estruturação que temos, nessa escala, acaba sendo uma proteção natural, porque conseguimos ter oportunidades de diferentes tipos de fornecimento. Mas se você é uma empresa menor e tem dependência de um único fornecedor, se acontece alguma coisa com ele, você pode sofrer muito mais", afirmou à EXAME.
E o consumidor final?
Quanto as repasses desses possíveis aumentos no preço das peças, os especialistas dizem que repassar integralmente é difícil de visualizar. Isso porque a demanda já está fraca e o setor vive com margens muito apertadas, com um consumidor “extremamente sensível a preço”, diz Pimentel.
“Eu acredito que vão haver ajustes, não tem como não haver, mas num primeiro momento boa parte dessa pressão vai acabar ficando com as empresas, o que, novamente, pode comprimir as margens de uma forma ou de outra”, complementa.
Guanais concorda. Se o petróleo continuar subindo, não tem como não pensar que não terá repasse ao longo da cadeia de fornecimento. Já Affonso tem outra visão. Com a demanda interna fraca, com a Abit projetando crescimento de apenas 1,1% na produção têxtil e 0,7% no varejo em 2026, num cenário de juros altos e famílias endividadas, será difícil esse repasse.
“A concorrência se intensifica, com importações de têxteis e vestuário previstas para crescer aproximadamente 5% e plataformas asiáticas pressionando preços em regime fiscal e logístico mais leve. E o varejo organizado define um piso competitivo: a Renner já sinalizou reajustes abaixo da inflação em 2026, priorizando volume e eficiência em vez de margem.”
Dos possíveis 15% de pressão de custo que a Leggio identificou, eles acreditam que só 3% a 6% devem chegar ao consumidor em 2026, e ainda assim com dois a três trimestres de atraso. O restante vai ser compensado pela cadeia, repartido entre fornecedor, atacado, varejo e câmbio.
“Neste contexto, quem consegue repassar mais são as marcas premium, produtos com identidade forte e varejistas especializados de menor porte com clientela cativa. Do outro lado, quem absorve o choque é o varejo de massa, o fast fashion, as marcas próprias de redes integradas e qualquer player que disputa share com a importação direta asiática”, aponta Affonso.
Farber, da Riachuelo, também não vê esse repasse ao consumidor final. "Estamos vendo pesos e contrapesos. O dólar, por exemplo, está diminuindo", pontuou.
Estratégias e adaptações
Sentindo na pele, Rafael Miranda, COO da AKR Brands e co-fundador do grupo de moda masculina do Sul, diz que já é possível perceber um aumento de 10% a 15% no poliéster.
“Produtos e matérias primas com base em poliéster e viscose sofrem impacto como um todo, pois a fiação sofre consequências diretas. Já matérias primas como o linho que tem um preço muito mais competitivo importado, acaba impactado pelo aumento nos combustíveis por conta do transporte”, diz Miranda.
Diante da alta do petróleo Brent e do encarecimento do frete internacional, marcas nacionais enfrentam um dilema crescente: reduzir custos com a substituição de matérias-primas ou preservar o padrão dos produtos, mesmo com margens mais apertadas. Sobre substituir o material, segundo Spinola, no segmento de wellness a substituição é tecnicamente inviável em escala.
“O desempenho de poliéster e elastano não é replicável com fibras naturais. O que pode ganhar tração é o poliéster reciclado, parcialmente desvinculado do petróleo bruto, e a Braskem já lançou grades de EVA reciclado para o mercado calçadista. No vestuário básico, o algodão brasileiro tem vantagem competitiva por reduzir a exposição cambial e logística”, diz.
Fabiano Grassi, diretor de estilo da AKR Brands, concorda. Para ele, o mercado nacional ainda não está totalmente preparado para substituir o produto importado sem perda de performance. "Tecidos como viscose e poliéster tecnológicos têm funções específicas de caimento, conforto e durabilidade. Trocar esses insumos por alternativas mais baratas pode comprometer diretamente a experiência do consumidor e o posicionamento da marca.”
No grupo do Sul, a estratégia foi se antecipar. De acordo com Miranda, eles anteciparam parte da operação como forma de proteção, fazendo uma aposta estratégica de trazer e estocar tecidos antes dos reajustes, mesmo sem previsibilidade total de vendas naquele momento. “Isso garantiu mais controle de custo e continuidade na produção, reduzindo a exposição às oscilações do cenário internacional.”
Na Riachuelo, ele dizem se adaptar às mudanças. "Se um fornecedor tiver um problema, a gente troca para outro. Se tiver questões com o material, fazemos uma substituição. Se tivermos um problema no fornecedor em algum país, a gente pode trazer para o Brasil.*
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: